“Vou suspender o pagamento da dívida pública”

Camilla Galeano e Alan Bittencourt

A socialista Dayse Oliveira (PSTU) abriu as entrevistas com os candidatos a prefeito de São Gonçalo. Ela propõe a construção de Conselhos Populares para gerir o orçamento municipal. Outra medida que tomará para investir na cidade será a suspensão do pagamento da dívida pública, que a prefeitável classificou como falsa. Na Educação, garantiu que os professores receberão cinco salários mínimos. Outra ação que promete tomar para cobrar investimentos é encher ônibus e ir para o Palácio Guanabara cobrar a verba para o saneamento básico de São Gonçalo.

A TRIBUNA – Já é a terceira vez que o senhora concorre ao cargo de prefeita do Município de São Gonçalo. Concorreu anteriormente em 2004 e 2012, mas não foi eleita. Por que dessa vez a senhora acha que o gonçalense vai te eleger?
Dayse Oliveira – O eleitor gonçalense não fez experiência comigo. São nove candidatos e apenas dois projetos. Tem um projeto que é manter o que está aí, manter os trabalhadores para trás, manter São Gonçalo sem investimento social. Para quê? Para sobrar dinheiro para corrigir queda na taxa de lucro dos empresários. Com isso teremos dinheiro para Educação, Saúde, Saneamento Básico, Cultura, Lazer, Esporte e geração de empregos. As pessoas estão vendo a precariedade se manter. São Gonçalo precisa de uma revolução popular. Quero governar com os trabalhadores através dos Conselhos Populares. Eu acredito na transformação pela luta.


AT – Além de concorrer ao cargo de prefeita, a senhora já concorreu a vice-presidente do Brasil em 2002, senadora em 2006 e 2012, governadora em 2014, mas não se elegeu em nenhuma dessas vezes e ainda defendeu o voto nulo em segundo turno. Esse ano, caso não seja eleita, a senhora pretende apoiar alguém ou terá a mesma atitude?
Dayse Oliveira – Se não tiver nenhuma candidatura comprometida a atender as necessidades não vou apoiar.


AT – São Gonçalo é um município carente em muitas áreas. Caso eleita, qual a sua prioridade?
Dayse Oliveira – Construir os Conselhos Populares, que seriam uma assembleia com representantes de categorias dos trabalhadores, que será com quem vamos governar, com 100% do orçamento. Na Educação temos o problema do arrocho salarial. Vamos garantir cinco salários mínimos para os professores e três e meio para os funcionários. Todos os profissionais são importantes. A precariedade é geral.

AT – Caso eleita, sem representante tanto no município, como em Brasília, o que a senhora fará para buscar recursos públicos para investimentos na cidade?
Dayse Oliveira – Mobilizando a população com os Conselhos Populares. Os conselhos serão para administrar e mobilizar para cobrar as verbas dos governos Estadual e Federal. Vamos suspender o pagamento da falsa dívida pública, vamos cobrar os impostos que não estão sendo cobrados, as isenções fiscais de impostos vão acabar. Faremos uma auditoria.

AT – O Instituto Trata Brasil lançou uma cartilha para mostrar a importância do investimento em saneamento básico. A cidade de São Gonçalo tem 33,5% da população ligada à coleta de esgoto. O que é muito pouco. Existe algum projeto no seu plano de governo para resolver isso?

Dayse Oliveira – A maior parte das casas de São Gonçalo não possui saneamento básico. É um problema muito sério. Tem as enchentes, que é um problema muito sério. Vamos encher ônibus e ir para o Palácio Guanabara cobrar a verba para o saneamento básico de São Gonçalo.



AT – Em relação a educação inclusiva. Muitas mães reclamam da falta de professores de apoio nas redes municipais. E os poucos que têm, não são capacitados o suficiente para lidar com determinadas situações. Como resolver isso?
Dayse Oliveira – Primeira coisa: tem que ter concurso e chamar todos os aprovados. O convívio com outras crianças é muito importante, a socialização. É como disse Paulo Freire: ninguém se educa sozinho. As pessoas se educam em comunhão. É importante ter o convívio com a turma, mas os alunos precisam de atendimento individual, que alguém os acompanhe. Tem que ter a volta das equipes técnicas. Não tem que ter só um professor de apoio especializado. Tem que ter dois. Educação precisa de dinheiro. Vamos manter o plano de carreiras, teremos eleição direta para diretores e verba pública exclusiva para a Educação pública.

AT – São Gonçalo tem um problema crônico de coleta de lixo. Como manter a cidade limpa, com um menor?
Dayse Oliveira – Em primeiro lugar, tem que ter uma empresa pública de coleta de lixo. Trabalhador de coleta de lixo é muito importante para a questão do meio ambiente. Por isso tem suspender o pagamento da dívida pública com os banqueiros.

AT – Como a senhora avalia o hospital de campanha que praticamente não funcionou em São Gonçalo e quais medidas pretende adotar em uma provável segunda onda da pandemia?

Dayse Oliveira – Tem uma pandemia que ainda não acabou. Não houve isolamento social em São Gonçalo. Queremos dar uma quarentena remunerada para todos trabalhadores para que as pessoas fiquem em casa. Vamos mobilizar a população de São Gonçalo em defesa da vida. Tem que estatizar os hospitais. Tem que ter uma fila única. Vamos fazer concurso público para acabar com a precarização da Saúde. Saúde e Educação não combinam com lucros.

AT – Um teatro começou a ser construído na gestão passada, do Neilton Mulim, e foi inaugurado no governo do atual prefeito José Luiz Nanci. Uma obra que gastou R$ 13 milhões, um lugar que nunca foi usado, com capacidade para 240 pessoas, em uma cidade com mais de um milhão de habitantes. O que pode ser feito para recuperar o dinheiro que foi gasto nessa obra e em 4 anos ainda não deu nenhum retorno?
Dayse Oliveira – Tem que ter concurso público para trabalhar. Queremos um teatro municipal, mantido com dinheiro público, sem parceria público-privada. Foram R$ 13 milhões para construir, aí na hora do lucro a empresa só chega para lucrar. São Gonçalo tem um só teatro. Acabar com essa ideia que São Gonçalo não precisa de arte. A arte desbrutaliza. Só tem R$ 1 milhão para a Cultura. Nós vamos botar o teatro para funcionar e vamos construir uma biblioteca com auditório e espaço para exposição e trabalhos com artistas populares a cada dez bairros.

AT – No seu plano de governo, a senhora fala que defende a legalização das drogas como uma forma de acabar com o tráfico e com a violência. Comente.
Dayse Oliveira – Qual é a política do pessoal que defende a política capitalista? Distribui trabalho, mas não distribui dinheiro. A gente quer mudar tudo isso. Para eles resolve-se o problema da violência com polícia nas ruas. Isso criminaliza a pobreza, mata a juventude negra e pobre. Somos socialistas, colocamos o social em primeiro lugar. Você acaba com a violência investindo em Educação, Saúde, Cultura, Arte, creche. São Gonçalo só tem 28 creches. Agora, Educação e Saúde gasta dinheiro. Para nós, o dependente químico é um doente. Precisa de médico, assistente social… a guerra às drogas não tem resolvido.

AT – A senhora também fala em discutir o papel da Polícia Militar para que ela seja controlada pelos trabalhadores. Mas a Polícia Militar é responsabilidade do Governo do Estado, como a senhora quer fazer isso?
Dayse Oliveira – Defendemos a desmilitarização da PM para que eles possam se organizar. A hierarquia é um elemento que gera violência.

AT – Transporte público. A população de São Gonçalo sofre com ônibus, principalmente quem trabalha em Niterói e no Rio de Janeiro. Barcas e Metrô em São Gonçalo, é possível?
Dayse Oliveira – Sim. O que tem que fazer, insisto, é suspender o pagamento da dívida pública, cobrança dos impostos que estão devendo e acabar com as isenções. E mobilizar a população para cobrar do Estado o transporte. Queremos uma empresa pública de transporte, estatizar o transporte, com tarifa zero. Colocar a serviço da população. As pessoas precisam do transporte para estudar, trabalhar, ter um lazer, se unir. Transporte é comunicação.

AT – O que os artistas e atletas da cidade podem esperar de projetos para estas áreas?

Dayse Oliveira – Esporte está associado com a Educação. Apenas 11,5% da população está ocupada e 34,5% recebe meio salário mínimo. Como não vai ter violência com uma situação dessas? Não dá. O emprego cruza com o esporte e a cultura. Gerando empregos através de obras de construção de quadras, concurso para professores de Educação Física, as escolas terem uma relação com as comunidades para incentivo à prática de esportes, manutenção de campos de futebol, auxílio às posses de hip hop. A arte e o esporte não podem ser uma mercadoria.


AT – Qual recado gostaria de deixar para a população gonçalense?

Dayse Oliveira – Há uma crise econômica e estão querendo que o trabalhadores paguem por essa crise. Os trabalhadores têm que se recusar a pagar. Por isso vamos colocar a Prefeitura a serviço da luta dos trabalhadores também. Nossa Prefeitura também estará a serviço da campanha ‘Fora, Bolsonaro e Mourão!’. Vamos estar da luta contra o machismo, racismo, LGTBfobia, vamos incentivar e garantir cotas para trans. Vamos construir uma prefeitura a serviço do poder coletivo dos trabalhadores. O que muda é a mobilização dos trabalhadores para ter uma vida digna. É sonho? Não. Impossível é isso o que a gente vive em São Gonçalo.

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