“Você sabia que maricá significa capim de espinhos em tupi?”. Bip bip bip, Galeria Silvestre, a galeria da luz

Luiz Antônio Mello

Eu ia escrever sobre o Treva (não é a, é o mesmo) e a sua promessa de autogolpe de estado que pretende dar em 2022. Mas há temas menos podres para tratarmos aqui na oca.

Íris Lettieri e Maravilha Rodrigues conseguiram romper o ambiente radicalmente machista do rádio nos anos 60 e deixaram no ar as suas marcas.

Ao longo de muitos anos, Maravilha Rodrigues foi uma das vozes da Rádio Jornal do Brasil. Já a Íris foi musa no rádio, na TV, no cinema, nas revistas. Durante décadas foi a voz oficial do Aeroporto Internacional do Galeão e como era bom ouvi-la anunciando o nosso voo, sem atrasos. De preferência um voo da amada e saudosa Varig. Caramba, que saudade da Varig e sua tripulação. Quanta falta faz também a Íris Lettieri.

As fotos que postei estão no site dela em https://www.irislettieri.com.br  onde podemos ouvir a sua voz em vários momentos, inclusive no aeroporto, é claro. Vale a pena visitar sem pressa.

Era gostoso desembarcar e ouvi-la anunciando os outros voos. Dava uma sensação de “agora sim, cheguei ao Rio”.

No século passado existiu a Rádio Relógio. Situada na Taquara, Zona Oeste do Rio, a emissora tinha como áudio um bip a cada segundo e informes chamados “você sabia?”. Depois de um ou dois “você sabia?” o locutor dizia “Galeria Silvestre, a galeria da luz” e a voz da célebre locutora Iris Lettieri informava a hora certa.

Exemplos de “você sabia?”: “Você sabia que a mosca é um dos insetos mais ligeiros e que, se pudesse voar em linha reta, levaria apenas 28 dias para atravessar o mundo todo?; “Você sabia que o coração da baleia da Groelândia pode pesar até cinco toneladas? E que a palavra maricá tem origem no Tupi, e significa capim de espinhos?”; “Você sabia que a temperatura mais fria registrada na Terra foi de 89,2 graus Celsius negativos? Foi constatada na estação de pesquisa russa Vostok, na Antártida. Foi em 21 de julho de 1983”;

Muita gente chamava a Rádio Relógio de cultura inútil, mas eu não achava, como ainda não acho. Ouvia direto na adolescência quando, às vezes, minha avó ia passar uns dias lá em casa. Ela ouvia rádio o dia inteiro (o que acabou me influenciando), especialmente a Rádio Relógio.

Sabe a frase histórica “este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade” que Neil Armstrong disparou logo depois de pisar na lua? Adaptei. “Um passo nulo para a humanidade, mas gigantesco para mim”. Foi o que pensei quando decidi finalmente arrumar a estante de livros, uma baderna total. Uma quantidade razoável, suficiente para me deixar completamente zonzo. Decidi, levantei e fiquei olhando os livros que aparecem (muitos vivem escondidos na parte de trás, inacessível) e na semana que vem vou arrumar tudo. Olhando para a estante, para os títulos, pensei “será que isso é cultura inútil?”.

Claro, há muitas biografias, muita música, política, filosofia, cinema, poesia, clássicos. Será que me empanturrei de cultura inútil ao longo do tempo nessa mistureba de estilos e propostas literárias? Definitivamente não.

Estou quase achando que cultura inútil não existe. Se é útil para uma única pessoa, deixa de ser inútil. Qual seria a antagonista, a cultura útil? A cultura da moda? A cultura in? A cultura de ocasião? A cultura formal? A cultura moralista? A cultura utilitária? Os preconceituosos, amargos e imbecis diziam que a contracultura dos beats e hippies era totalmente inútil porque levavam o nada ao lugar nenhum. Cultura, no mínimo, oportunista e interesseira.

Não vou defender a hipótese de que uma rádio que informa curiosidades seja parte de uma nova cultura midiática, mas chamá-la de inútil seria exagero. Assim como o olhar enviesado que dei em minha estante de livros. Ainda há muito a dizer sobre esse vasto tema.

Ou não?

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