Vitória que ultrapassa os limites da violência

Anderson Carvalho –

O bairro do Caramujo, na Zona Norte de Niterói, é considerado um dos mais violentos do município e, por isso, uma área de risco. Moradores de outras áreas até evitam de passar perto por medo da violência. Região de poder aquisitivo baixo, com as crianças e jovens crescendo em meio a tiroteios entre quadrilhas de traficantes e operações policiais na área. Não bastasse a escassez de oportunidades, a tentação do tráfico de drogas. A jogadora de futebol Juliana Conceição dos Santos, conhecida também como Juju, de 17 anos, encontrou no esporte um caminho para um futuro melhor. E já começou a colher os frutos. No último dia 5 tornou-se campeã mundial de Futebol Social, na 15ª edição do Homeless World Cup (Copa do Mundo dos Sem Teto), disputada na cidade de Oslo, na Noruega.

Ela foi uma das artilheiras da Seleção Brasileira de Futebol Social, um time misto com oito jogadores, sendo seis garotos e duas garotas, com idade entre 17 e 21 anos e oriundos de diversas partes do país. Juliana, que é atacante, marcou nove gols na competição. Foi a única representante de Niterói e uma das três do estado do Rio, incluindo dois rapazes moradores da capital fluminense, sendo um na Cidade de Deus e outro no Complexo do Alemão. “Foi incrível participar da competição. Muitas pessoas não acreditavam que a gente chegaria lá. Graças a Deus deu tudo certo. Uma experiência que vou carregar para o resto da vida”, contou a atacante. “Oslo é uma cidade limpa e bonita. Lá é tudo bem cuidado. O povo é muito educado e nos acolheu”, relatou Juliana, que entrou para a seleção através de um processo seletivo realizado há três meses em São Paulo.

A garota cursa o 9º ano do Colégio Estadual Dr. Luciano Pestre, no Caramujo. O sonho dela é ser jogadora profissional e atuar em um grande clube, como o Flamengo, pelo qual torce. Não à toa, deu seus primeiros passos na escolinha de futebol do time rubro-negro, no bairro do Fonseca. “Comecei aos sete anos. Sempre tive como referências o Neymar e a Cristiane, que joga na seleção feminina. Alguns anos depois saí da escolinha e fui para o Colégio Odete São Paio, em São Gonçalo, onde fiquei até 2014, graças a uma bolsa”, contou Juliana, que tem a Educação Física como disciplina favorita.

A estudante quer ir mais além na carreira. “O título na Noruega pode me abrir portas. Estou conversando com o time do Cruzeiro, da Vila Vintém, no Rio, e o time de futebol de sete do Botafogo”, contou a jogadora.

Juliana tem mais três irmãos, mais velhos, de 29, 26 e 24 anos, e uma irmã mais nova, com 14, que estuda no mesmo colégio que ela. Todos filhos da doméstica Ana Lúcia Conceição dos Santos, de 52 anos. “Quando ela me disse pela primeira vez que queria jogar futebol, me desesperei. Falei: ‘Filha, isso é coisa de homem’. Mas ela insistiu e eu apoiei. A minha patroa se ofereceu para pagar a escolinha. Um dia, ela disse que não podia mais arcar com a despesa e procurei o treinador para dizer que a Juliana não iria mais. O treinador conseguiu uma bolsa para ela. Quando eu não podia ir junto, pedia para um dos irmãos a levarem. Quando ela fez dez anos, passou a ir sozinha. Alguns anos depois, obteve uma bolsa integral no Colégio Odete São Paio. Saiu porque o projeto esportivo deles já não compensava”, recordou Ana Lúcia.

Torneio
Ao vencer a competição na Noruega, o Brasil tornou-se tricampeão mundial na modalidade. Conquistou o título ao vencer por 4 a 3 a seleção do México, que havia vencido as duas últimas edições do torneio. Assim, com o terceiro troféu, após ter sido campeão em 2010 e em 2013, o Brasil é o maior vencedor da competição, à frente de Chile, Itália, Escócia e o México, os quatro com dois títulos cada. A equipe treinada por Pupo Fernandes conquistou ainda os prêmios Fair Play e Melhor Goleiro, para Leonel.

A seleção ainda foi vice-campeã na edição anterior da Copa do Mundo de Futebol Social, em Glasgow (Escócia), em 2016. Além de ter sido terceiro colocado em três oportunidades, 2009 (Milão), 2011 (Paris) e 2012 (Cidade do México), e quarto colocado em 2014 (Santiago) e 2015 (Amsterdã). O último torneio foi disputado entre os dias 29 de agosto e 5 de setembro entre 50 seleções.

Os oito jogadores selecionados para competir pelo Brasil passaram por diversas seletivas realizadas pelos projetos parceiros da ONG Futebol Social. A seleção brasileira é ainda a atual campeã da Copa América da modalidade. No país não há um torneio nacional e sim campeonatos regionais.

Regras
No futebol social, a quadra é reduzida, tem apenas 22 metros de comprimento e 16 de largura. O time vencedor ganha três pontos no campeonato. Em caso de empate, disputa alternada de pênaltis, com dois pontos para o vencedor e um para o time que perder. São dois tempos de sete minutos, com intervalo de um minuto. Os goleiros não podem sair da área, marcar gols, ou fazer cera. Os jogadores de linha também não estão permitidos a invadir a área dos goleiros, sob a pena de um pênalti do time adversário.

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