Vítima de estupro passa por necessidades em São Gonçalo

A jovem de 21 anos moradora do bairro do Coelho, em São Gonçalo, que acusa o próprio pai de a ter estuprado desde os seus cinco anos e a engravidado quando ela tinha 16, compareceu na manhã de ontem (26) na Delegacia Especial de Atendimento a Mulher (DEAM-SG) ao lado do irmão também vítimas dos abusos, segundo ele mesmo. A segunda vítima hoje tem 17 anos e na época em que sofreu a violência tinha apenas oito anos de idade. O caso vem sendo investigado desde 2017 pela especializada. Passando por dificuldades, a jovem pede por ajuda. Morando com os irmãos e o filho/irmão em uma casa simples no bairro do Coelho, ela conta com a ajuda de vizinhos para sobreviver. A vítima relata que tentou buscar ajuda antes, mas teve que enfrentar até mesmo uma surra depois da diretora de uma escola contar ao seu pai sobre ela ter relatado a violência que sofria. O exame de DNA que provaria a paternidade do seu filho ainda não foi realizado. O acusado segue em liberdade e ainda dará maiores esclarecimentos à Justiça.

“Eu não trabalho hoje, eu parei os meus estudos na 7ª série por causa do meu pai. Eu sustento o meu irmão de 17 anos e outro de 20. Eu me viro pedindo ajuda aos meus vizinhos, um feijão, o meu gás está acabando. Eu não tenho nem dinheiro para voltar para casa. Eu vou pedir carona. Infelizmente o meu pai me deixou nessa situação. A casa que eu estou é alugada e eu não tenho pago aluguel. Ela é bem simples. Todos estamos sem emprego. Eu tenho 21, não terminei os estudos, o de 17 anos parou na 5ª e o de 20 na 6ª. O meu filho frequentava a escola, mas eu sem condições tive que tirar ele”, lamentou a jovem.

Sem medo de enfrentar desafios e com vontade de cumprir uma promessa feita a mãe antes dela morrer, a vítima relata a área em que ainda sonha atuar no mercado de trabalho.

“Eu sou uma pessoa muito inteligente. Eu sei mexer em celular, eu acho que se alguém parar para me ouvir vai até me dar uma oportunidade de emprego. Sei recuperar arquivo perdido, com uma chavinha eu sei até trocar tela de celular. Eu gosto muito da área de internet. Eu tinha um celular e mexia nele. Acho que vim com esse dom mesmo. Sei recuperar senha do Facebook… Eu preciso de um emprego, eu preciso matricular o meu irmão na escola. Eu quero poder cuidar dos meus irmãos e conceder o pedido da minha mãe”, contou emocionada.

A jovem órfã de mãe, conta que a sua genitora contraiu uma pneumonia em uma época em que a família vivia na rua. Chegou a ser levada para o Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca, mas não resistiu aos sintomas contraídos após pegar uma forte chuva.

“A minha mãe é falecida. Morreu de pneumonia porque pegou muita chuva. Nós éramos moradores de rua. Em uma casa a minha mãe chegou a pegar ele mexendo em mim, mas ele é muito bom de lábia, disse que só estava me dando banho. Ela estranhou aquilo, ficou desconfiada, e mandou ele embora. Nós moramos então por um tempo na rua. Nisso ele mudou de vida, progrediu. Nos encontrou no Centro de Niterói vendendo mariola e nos levou ainda menores de idade para viver com ele em uma casa, foi quando tudo começou. Ele começou a mexer em mim. Já estava junto da minha madrasta. A gente achava que seria um paraíso sair da rua, mas não foi. Eu preferia mil vezes estar ainda na rua com ela do que passando por aquilo”, enfatizou a vítima.

Hoje adulta, ela contou que não passou pelos abusos sozinha. Um dos irmãos era constantemente humilhado e molestado pelo pai que o levava para um quarto para cometer o crime.

“Ele colocava a saia da minha madrasta no meu irmão e o deixava nu por baixo. Esfregava as partes íntimas nele. Colocava ele dentro do quarto. Meu irmão pedia para o nosso pai soltar ele quando percebia que ele estava passando dos limites. Ele tinha uns oito anos. Hoje ele tem 17, não estuda. Quando a minha mãe foi me ver, ela me orientou a não ficar com ele sozinha. Eu não sabia se deveria acreditar porque a família do meu pai falava muito mal da minha mãe para mim. Uma semana antes dela morrer, ela procurou nós três e se despediu da gente. Ela disse assim: ‘*****, cuida dos seus irmãos e nunca fica perto do seu pai sozinha’. Eu não sabia se acreditava porque a família do meu pai falava muito mal dela para mim por ela ter sido usuária de drogas. Nós até usamos também por um tempo quando estávamos nas ruas. Depois não mais. Hoje eu entendo tudo com os olhos mais abertos”, relembrou.

Sem apoio, a jovem só conseguiu contar sobre os abusos que sofria quando já era adolescente. Em uma das ocasiões, ela afirma que apanhou ao confiar em uma diretora de escola que traiu a sua confiança e a denunciou ao pai agressor, disse a vítima.

“Eu tentei contar antes para duas pessoas. A primeira foi a diretora da escola em que eu estudava. Cheguei na diretora e tentei conversar com ela só que ela não entendeu direito e eu já estava nervosa porque eu lembrava da voz dele dizendo: ‘Se você contar para alguém. Eu vou te bater, eu vou te deixar irreconhecível’. Aí eu disse que eu não queria falar mais não. Ela, olha só! Ela ligou para o meu pai e disse que eu estava falando umas coisas estranhas sobre ele. Quando eu cheguei em casa eu apanhei muito mais. Foi quando ele me tirou da escola e me colocou cuidando dos meus irmãos e do meu filho em casa. A segunda vez foi para os meus pastores, quando eu tive forças, coragem para contar. Eles chamaram o meu pai, conversaram com ele junto da minha madrasta na sala. Ele ficou nervoso e negou . O pastor disse que tinha dois jeitos: ou levar para os meninos da firma (criminosos) ou para registra na delegacia. Foi então que ele confessou e disse o meu filho era também filho dele. A minha madrasta chorou na hora porque até então ela não sabia. Depois ela disse que a culpa era minha”, informou a jovem.

A ida a um templo religioso também foi motivo para a vítima ser agredida pelo pai, ainda de acordo com o seu relato acerca da situação. A jovem conta sobre ter tido conhecimento sobre outras possíveis vítimas.

“Eu comecei a ir para a igreja, ele não gostava com medo de que tudo fosse revelado. Antes do meu batismo ele pegou uma conversa minha com a minha pastora. Ele me deu um tapa na cara. Eu disfarcei, disse que iria buscar um copo de água e fui procurar os meus pastores. Aí eu pedi para me tirarem de lá. E eles foram lá na casa. O meu pastor pediu o meu filho dizendo que eu passaria um dia com eles e eu nunca mais voltei. Eu vi mensagens do meu pai no celular com outras meninas, mas eu não podia fazer nada porque eu era uma outra vítima. Eu dizia que Deus não existia, mas hoje vejo que essa força de hoje vem dele”, declarou a mulher.

A garota sonha hoje com um futuro melhor e segue na busca por uma oportunidade de emprego e de provar sobre os abusos que acusa o pai de ter cometido diante da sua condição de vulnerabilidade.

“Como eu não tinha mãe, o meu pai não era meu companheiro, eu nem sabia que estava grávida. Eu fui descobrir já com oito meses. Eu fui fazer um ultrassom e o médico me disse que eu já estava ‘parindo’. Foi muito rápido. Não aparentava, eu era mais gordinha. A menstruação parou, ele ficou preocupado, já sentia, mas não quis me falar com medo de eu contar para alguém. Quando eu descobri, ele me ameaçou, disse para eu falar que eu tinha engravidado de um garoto lá da escola, que o menino teria namorado comigo e me abandonado. Só que ninguém lá acreditou nisso porque ninguém me via namorando, de conversa. Era da escola para casa. Eu andava de cabeça baixa. Se eu tivesse encontrado um apoio eu poderia ter denunciado tudo isso antes. O meu pai me colocava tanta pressão psicológica que eu só via ele como o meu sustento, se eu denunciasse o meu o pai eu não teria leite para o meu filho. Querendo ou não eu sinto um sentimento pelo meu filho. Quem comprava as coisas era o meu pai”, contou a jovem. As investigações sobre o caso ainda estão em andamento. Quem quiser ajudar a família pode entrar em contato através do número 21 991996682.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis − doze =