Vendedores de bala retornam às Barcas e revelam rotina difícil

Após a morte de Hyago Macedo, supostamente por um policial militar à paisana, na última segunda-feira (14), e do sepultamento na terça-feira (15), os vendedores de balas retornaram à estação das barcas, na Praça Arariboia, em Niterói.

Desempregados, os ambulantes precisaram voltar à cena da tragédia com o jovem de 21 anos, para garantir o sustento de cada um deles. Dos cinco trabalhadores informais, três aceitaram falar com A Tribuna sobre a rotina na Praça Arariboia que, além disso, denunciaram preconceito racial, assédio, repressão da guarda municipal de Niterói e negaram abordagens agressivas aos passageiros.

Uma das vendedoras, a transexual Nicole, de 27 anos, explicou que costuma lucrar R$ 85 reais por dia, tirando o gasto de R$ 31,50 do preço de três caixas. Cada uma custa R$ 10,50 reais, e são adquiridas ali perto, em uma banca de jornal, com detalhes amarelos. Desempregada, a vendedora disse que atua no local desde 2015, mas ali costumava ser o ponto de Hyago Macedo, por estar a mais tempo. A ambulante afirmou que os passageiros podem ter considerado as abordagens do jovem agressivas, porque ele era morador de comunidade. Sobre isso, a trans revelou que também já sofreu todo tipo de preconceito, e denunciou a repressão da Guarda Municipal de Niterói

“Sofri preconceito por ser da rua, por ser preta, por ser trans. Querer julgar a pessoa porque ela é preta e favelada, não cabe. A Guarda Municipal vem e revista os vendedores, é diferente de qualquer outra do Rio de Janeiro. É muito autoritária, são abusados, truculentos. Eles acham que são policiais”, contou a jovem que atualmente mora na Rua da Conceição, mas já morou em Belford Roxo e vendia balas no Largo do Machado e na Lapa.

Nicole também falou como os vendedores de bala costumam oferecer o produto.

“A nossa abordagem é: estamos vendendo nossa bala. Um é dois(sic), três por cinco; a pessoa pode ou não aceitar. Quando não aceitam, a gente pergunta se pode ajudar com cinco ou dez centavos. Dizer que a gente xingou alguém, é mentira. Antes, não podíamos ficar nas filas, precisávamos ficar atrás e oferecer ali. Por causa da nossa forma de oferecer o produto, conseguimos se (sic) aproximar mais dos passageiros”, complementou.

Outra vendedora, Jhennifer, tem a mesma idade de Hyago Macedo, e concilia as vendas com as aulas do supletivo à noite no CIEP 309 Zuzu Angel, no Arsenal em São Gonçalo. A estudante disse que assim como a Guarda Municipal, a repressão parte também de passageiros.

“Faz duas semanas um passageiro nos ameaçou por causa de uma brincadeira. Falamos que recebemos pagamentos por PIX, o cliente não gostou e ameaçou a gente”, disse.

Dayanna, 33, no entanto, relatou que existe uma boa relação entre os vendedores de bala e os seguranças da estação das Barcas de Niterói, também confirmado por um funcionário à reportagem. Porém, a vendedora relatou que houve um episódio, há duas semanas atrás, de um segurança das barcas que jogou as balas de Hyago no chão. O funcionário é do Rio de Janeiro e não costuma trabalhar em Niterói, apenas estava naquele dia para cobriu a ausência de um colega. Contudo, a ambulante afirma que nunca viu o jovem gritar com ninguém ali.

-Ele nunca abordou gritando. Dos 8 meses, nunca o vi gritar ou xingar ninguém. Porém, os guardas já tinham implicância com ele”, disse a moradora de São Gonçalo, mãe de seis filhos, que expressou indignação quando os passageiros falam para os vendedores arrumarem um emprego.

“A gente aborda eles oferecendo o produto. Por causa do desemprego, tiramos o nosso sustento daqui. Foi daqui que consegui comprar o presente de Natal da minha filha. Não sei mais se vai ter a festa da filha do Hyago por causa do que aconteceu”, completou.

Passageiros disseram à reportagem que os vendedores anunciam o produto normalmente, e nunca ouviram alguma abordagem mais agressiva. Até mesmo quando recusavam o doce, o tratamento não mudava. Às vezes, alguns passageiros revelaram que colocam o fone de ouvido e seguem viagem, quando se sentem incomodados. Na bilheteria, os vendedores costumam ajudar na organização das filas em cada guichê, de acordo com os passageiros das barcas e, além das balas, perguntam se podem receber o troco da passagem para ter algum tipo de auxílio. É o que ressalta o estudante de Direito José Amauri, de 26 anos.

“Eu falo com esses vendedores quase todos os dias. Eles ficam com o pacotinho de bala na mão e ajudando na orientação das filas. Ali, eles direcionam e aproveitam para pedir o troco ou oferecer a bala. Eles dão uma distância do passageiro, não ficam observando quanto dinheiro eu pego para pagar a passagem, e nunca me senti coagido por ninguém. Nuca me faltaram com respeito, me intimidando. Só otimizaram o meu tempo quando surge um guichê vazio”, descreveu o estudante, que apenas viu passageiros reagindo de forma agressiva aos vendedores.

INFORMALIDADE E DESEMPREGO

Realidade de muitos brasileiros recentemente, a última atualização do IBGE, de novembro de 2021, apontou para uma taxa de desemprego de 11,6% no Brasil, além da estabilidade na taxa do trabalho informal, em 40,6%.

“HOMICÍDIO DOLOSO POR MOTIVO TORPE”

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG) optou pelo indiciamento por homicídio doloso por motivo torpe do policial militar acusado de matar o vendedor de doces, após verificar as gravações das imagens de câmeras de segurança.

PM diz que vendedor de balas foi morto nas barcas porque tentou roubar

O comando da Polícia Militar, em nota ao jornal A TRIBUNA, disse que “no início da tarde da última segunda-feira (14/2), um policial militar de folga reagiu a uma tentativa de roubo na Praça Arariboia, em frente ao Terminal das Barcas de Niterói. O militar interveio na ação e um dos envolvidos teria investido contra sua integridade, sendo atingido por disparo de arma de fogo. O ferido não resistiu.”

Segundo a nota, “o policial que participou da ação e um homem, que seria a vítima da tentativa de roubo, prestaram depoimento na Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, onde o delegado optou pela prisão do militar. O homem atingido pelo disparo possuía diversas passagens policiais por crimes como tentativa e homicídio, furto e lesão corporal, e estava em liberdade condicional. A 4ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) acompanha todos os trâmites sobre o caso e instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar as circunstâncias do fato.”

Acrescentou que “após a ocorrência inicial, um grupo de pessoas realizou uma manifestação na região. Um homem atirou pedras em guardas municipais e policiais civis que realizavam a perícia e foi preso por equipes do 12° BPM (Niterói), sendo conduzido também à DHNSI. Ao longo da tarde, indivíduos tentaram coagir comerciantes impondo que houvesse o fechamento dos estabelecimentos naquele perímetro. Dois deles foram detidos por policiais do 12° BPM e conduzidos à 76ª DP, onde um permaneceu preso por possuir um mandado de prisão em aberto em seu desfavor. Ambos vão responder por ameaça e constrangimento ilegal.”, encerrou.

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