Uma rua sem saída?

Augusto Aguiar –

Com cerca de 1,6 quilômetro de extensão, a Rua Dr. Mário Viana, no “coração” da Zona Sul de Niterói, no bairro de Santa Rosa, continua sendo apontada pelos próprios moradores da região como uma das áreas mais tensas do município. Durante anos, quem reside, trabalha, estuda, ou até mesmo esteja de passagem, trafegando (de carro ou de ônibus) pelo local, sabe que todo cuidado é pouco. Ao longo e paralelamente à Rua Dr. Mário Viana – por referência entre as imediações da Avenida Sete de Setembro e Rua Nossa Senhora das Graças, em direção ao Largo da Batalha (trajeto para a Região Oceânica) – está o chamado Complexo de Santa Rosa, formado por comunidades como: Souza Soares, Beco dos 600, Beltrão, Viradouro, Zulu, Vital Brazil e Igrejinha, entre outras localidades. A ação de traficantes, que teriam se fixado nessas áreas, acabou virando pesadelo para a população, tornando a mobilização policial na região uma triste rotina.

“Moro aqui na Rua Dr. Mário Viana há cerca de 25 anos e não me lembro a última vez em que ficamos pelo menos um mês sem alguma ocorrência de tiroteio na área. É uma pena. Esse endereço deixa de ser um bom lugar para se viver por causa disso. Pode notar que aqui existem vários prédios residenciais, estabelecimentos comerciais de todos os tipos, escolas, igrejas. Porém, tem o tráfico ao nosso lado. Nossa rotina é de muita tensão diariamente. Não sabemos o que pode acontecer de uma hora para outra”, afirmou um morador, que assim como diversos outros teme até mesmo ser identificado por causa de possíveis represálias.

Segundo um levantamento, ao longo da via o lado com numeração par possui uma média de mais de 1.200 domicílios, com cerca de 14% deles constituídos de casas e sobrados e mais de 85% de apartamentos. Já o lado ímpar tem 11% de estabelecimentos comerciais e mais de 130 domicílios e 83% de edifícios.

Operação na Viradouro

No último dia 11 de setembro mais uma vez a população da região enfrentou a triste rotina da insegurança, quando traficantes ordenaram o fechamento de comércio e escolas situadas ao longo da via. Vários tiros foram disparados por criminosos fortemente armados das comunidades que margeiam a Rua Dr. Mário Viana em direção a essa via principal. A PM mais uma vez foi acionada para a região e o risco de balas perdidas foi grande. O motivo do conflito, segundo informações policiais, foi o luto imposto por traficantes devido a morte de um parente de traficante.

“Nesse dia, mais uma vez ficamos como reféns dentro de nossas próprias casas. Crianças não puderam ir para a escola e outros não conseguiram nem sair de suas residências para seguir para o trabalho. Teve apartamento e casas atingidos por tiros. Me disseram que viram tiros batendo no muro do Guilherme Briggs (Colégio Estadual). Muito triste. Sei que nas comunidades também mora muita gente do bem e trabalhadora. Até quando nós vamos viver dessa forma?”, indagou um comerciante, que manteve o anonimato.

175 ações na região
Outro levantamento confirma a rotina de “pesadelo” ao longo da Rua Dr. Mário Viana. O 12º Batalhão (Niterói) informou que antes mesmo do fim de setembro, pelo menos 140 operações (do tipo blitz) foram montadas na via como ações preventivas e outras 35 operações (incursões), nas quais os policiais enfrentaram os criminosos vasculhando as comunidades do Complexo de Santa Rosa, inclusive com uso de blindados (caveirão). Os números representam uma operação a cada 48 horas na região. Outras operações nas cominidades também foram desencadeadas por agentes do grupo de elite das polícias Civil (Coordenadoria de Recursos Especiais/Core) e Militar (Batalhão de Operações Especiais/Bope). Em dezembro do ano passado, uma mulher foi atingida por uma bala perdida quando estava num ônibus que passava pela Rua Mário Viana, nas imediações da subida da Estrada da Garganta. Na ocasião, estava ocorrendo um confronto na comunidade da Viradouro. A vítima, empregada doméstica, foi atingida na perna. Por sorte o dano não foi pior, porque o tiro teria sido de fuzil, mas o projétil teria atingido inicialmente a bolsa que a doméstica carregava, o que diminuiu o impacto e consequentemente a gravidade do ferimento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quinze − dois =