Uma história de amizade e amor que nasceu nas ruas

Augusto Aguiar

Quem passa diariamente pela Rua Noronha Torrezão, em Santa Rosa, e vê Abraão Gomes da Silva, de 40 anos, vendendo paçoca e amendoim ao lado de seu cão, um vira-lata de cor preta, chamado carinhosamente de Hulk, não imagina que a amizade deles vai muito além da simpatia de ambos. É uma história de fidelidade e parceria, onde a vida de um já esteve nas mãos (ou patas) do outro.

Morando atualmente numa casa cedida por um comerciante, na Travessa Iara, no Cubango, Abrãao já foi morador de rua – embora tenha familiares no bairro. Há cerca de 15 anos, quando dormia e vagava pelas ruas do Rio, ele encontrou seu amigo fiel de quatro patas.

“Um dia eu estava caminhando pelas ruas, não me lembro em que bairro estava, quando vi numa esquina algo que me assustou. Dentro de uma vasilha havia um filhote de cachorro, que havia sido golpeado várias vezes com um punhal. Estava desacordado, sangrando muito. Ao lado havia uma garrafa de cachaça, como se o animal tivesse sido oferecido em sacrifício num ritual de magia”, lembra.

Abraão prosseguiu, dizendo que derramou o conteúdo da garrafa de aguardente sobre o animal e em seguida ele mesmo improvisou os pontos (sutura) nos vários ferimentos que o cão apresentava pelo corpo. O ambulante não soube explicar, mas o cãozinho sobreviveu àquela intervenção desesperada e ali nasceu uma duradoura relação de amizade e fidelidade entre ele e Hulk.

“Percebi na ocasião que antes tentarem sacrificar o cão, o animal ainda teria sido torturado, já que desenharam (provavelmente usando o mesmo punhal) vários símbolos, como chifres, além de cortes na orelha no seu corpinho. Embaixo do corpo do animal, havia uma foto e o nome de um homem. Deduzi que o Hulk teria sido oferecido numa espécie de sacrifício. Depois disso levei o cão comigo e passei a tratá-lo como se fosse um filho, uma criança. Ele só dorme agarrado comigo. Quando era novinho preparava mamadeira e tudo”, explicou.

Numa dessas surpresas que o destino apronta, Abraão diz que no período em que vagava e dormia nas ruas do Rio – mas já na companhia de Hulk, que havia crescido rapidamente – ganhou outro presente inesperado. Sensibilizada com sua situação como morador de rua, uma senhora lhe deu R$ 500, que ele guardou. Porém, um outro homem percebeu e, armado com uma faca, esperou que ele dormisse para atacá-lo e assim roubar o dinheiro.

“O Hulk, que sempre foi manso, jamais havia atacado ninguém, percebeu a situação e foi para cima do agressor. Assim, ele salvou minha vida. Eu acordei e briguei com o homem e consegui desarmá-lo. O Hulk ainda ficou ferido, com uma facada que o atingiu próximo de uma de suas patas. Mais uma vez cuidei dele”, narrou. Sempre junto com o cão, Abraão voltou para Niterói, onde passou a residir num imóvel na mesma localidade que alguns de seus familiares, mas outra fatalidade o esperava.

“Há cerca de dois meses um balão caiu sobre a casa e um incêndio destruiu tudo que havia dentro do imóvel. Perdi eletrodomésticos, móveis, tudo. Um conhecido meu, comerciante, então deixou que eu morasse numa casa que é dele e que fica na frente da minha, que foi destruída no incêndio. Tenho esperança que vou reconstruir tudo com trabalho. Vivo daquilo que vendo. Gosto de vender doces, como paçocas e amendoins. Trabalho todos os dias e também alimento os gatos que tem próximos de onde moro. Não são meus, mas ajudo. Os animais são serem indefesos e precisam de ajuda. Prefiro ter a companhia do cão do que de gente. Eu converso com meu cachorro”, afirmou, acrescentando que antes de Hulk teve um outro cachorro, chamado “Jogador”, que segundo Abraão morreu com 24 anos.

“Ensinei meu cão a transmitir carinho e a respeitar o ser humano. É a coisa mais importante que tem. Hulk gosta de usar óculos escuros, boné, touca, e roupas. Tem gente que usa os cães de raça como um objeto. O cão, independente da raça é um amigo. Meu cachorro não tem preço que pague”, ensina

Campanha de doação pelas redes sociais

A recepcionista Mayra Lara Torres, de 20 anos, que trabalha na Rua Noronha Torrezão, aprendeu a conviver com a simpatia da dupla e organizou uma campanha nas redes sociais, que já arrecadou várias doações para Abraão e Hulk nos últimos dias.

“Conheço eles e os vejo aqui desde 2018. Eu disse para Abraão que realizaria uma campanha em prol deles. Abraão disse aceitaria se arrecadássemos principalmente ração e outras coisas para o cão. Ele é muito simático e carinhoso, sobretudo com o animal. Ele não pede dinheiro”, afirmou Mayra, que na última quinta-feira (19) entregou as doações recebidas: ração e sacolas de roupas.

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