Um século de heroísmo

Anderson Carvalho –

Encarados como verdadeiros heróis pela população pelos seus resgates em incêndios no alto de prédios, em enchentes e deslizamentos de terra, os bombeiros, além de coragem acima da média, precisam de muito sangue frio, principalmente para encarar os próprios medos e lidar com a frustração de não resgatar alguém com vida e lidar com a dor alheia e, muitas vezes, a própria. Que o diga o major Ronzei, de 35 anos, subcomandante do 3º Grupamento dos Bombeiros Militares de Niterói (3º GBM), que completa 100 anos no próximo dia 24. Ele atuou no resgate das vítimas do desabamento do Morro do Bumba, em 5 de abril de 2010, onde morreram 260 pessoas.

“Durante os resgates vimos corpos de muitas pessoas mortas nos deslizamentos de terra. Parentes chorando a perda de seus entes queridos. No final do dia, chorávamos em um canto. Como eles, também perdemos pessoas conhecidas. Bombeiro é gente de carne e osso”, lembrou Ronzei, há 11 anos no batalhão.

Bombeiros

“Na época, muitos bombeiros recorreram ao setor de Psicologia do quartel. Sentimos a dor das pessoas que perdem seus amigos e parentes. Os escoteiros da cidade fizeram a nossa comida, pois não tínhamos tempo de ir para a cozinha. Aprendemos a enfrentar os nossos medos. Eu mesmo tive que enfrentar fobia de altura no meu dia a dia. Não temos folga direito. Mesmo quando estou com a minha família tenho que atender o telefone operacional, que sempre toca quando algo acontece. Bombeiro geralmente não dorme muito”, relatou o tenente-coronel Renato Grigoroviski, de 38 anos e 20 de corporação.

O 3º GBM tem efetivo de 105 bombeiros e ainda inclui os destacamentos de Charitas (24), Maricá (38) e Itaipu (33). O 4º Gmar, também em Itaipu, é referente apenas aos bombeiros que atuam nos salvamentos marítimos. Entre as maiores ocorrências registradas nos últimos dois anos estão colisões de veículos – alguns que resultaram em incêndios – e fogo em matagal, devido ao clima quente e vegetação seca. “O que vem aumentando muito é a fiscalização. Estamos melhorando o nosso trabalho preventivo”, contou Grigorovski. Em 2016 foram registrados 157 casos de fogo em vegetação. Em 2015 tinham sido 342 e em 2014, o mesmo número. Já o fogo em veículos foram 72 casos em 2016, 65 em 2015 e 2014. Em relação aos trotes aplicados aos bombeiros, foram registrados 15 no ano passado, 10 em 2015 e em 2014.

Comemorações
Os festejos do centenário começam neste domingo, com simulado na Ponte Rio-Niterói, às 6h30min. O exercício, que vai encenar o socorro a múltiplas vítimas de um acidente, deve durar cerca de 20 minutos. Participam da ação, além do quartel de Niterói, o 1º Grupamento Marítimo (1º GMar), a Coordenadoria de Veículos Aéreos Não Tripulados, o Grupamento de Socorro de Emergência e o Centro de Educação Profissional em Atendimento Pré-Hospitalar da corporação, a Defesa Civil de Niterói, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a equipe operacional da Ecoponte.

Do dia 10 ao 25 haverá exposição no Plaza Shopping com acervo histórico e materiais operacionais. No dia 20, às 8h30min, corrida e caminhada de cinco quilômetros pela orla da Praia das Flechas. No dia 24, o quartel fará evento com autoridades, ex-comandantes e militares que atuaram na corporação. No dia 25, apresentação da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros no MAC. Do dia 29 ao dia 31, o Seminário de Segurança Contra Incêndio e Pânico, no Centro Universitário La Salle.

História
Em 1913, o então prefeito de Niterói, Feliciano Sodré, comprou estrutura da Alemanha para montar o quartel dos bombeiros. A cidade tinha apenas uma companhia de combate ao fogo, instalada em 1889. Devido à 1ª Guerra Mundial e às relações rompidas entre Brasil e Alemanha, a estrutura chegou apenas em 1917. Em 1959, durante a Revolta das Barcas, contra os péssimos serviços prestados pelo Grupo Carreteiro, bombeiros chegaram a ser linchados quando foram apagar o incêndio na antiga estação da Cantareira. Os populares ainda furaram a mangueira para impedir que as chamas fossem apagadas.

Dois anos depois, os bombeiros tiveram que resgatar as vítimas do incêndio do Grand Circo Americano, em que morreram mais de 500 pessoas. Vieram reforços de São Gonçalo, Rio e Petrópolis. Um vídeo está sendo feito por estudantes de Cinema da UFF sobre o centenário do quartel, que deverá ser apresentado no dia 24.

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