Um estranho no próprio ninho

Por Luiz Antonio Mello

Foi de propósito.

No começo do ano, peguei a minha cadela num fim de tarde de sábado e caminhamos na calçada da rua Moreira César – que agora se chama Ator Paulo Gustavo – do começo, ali na Padaria Colonial até a esquina de Mariz e Barros, onde está pousada a Bibi Sucos. Sabe quantas pessoas conhecidas encontrei pelo caminho?

Nenhuma.

Vou soletrar: NE – NHU- MA.

Um amigo meu, que por sinal não vejo há uns três anos, tinha feito esse teste e acabou se deprimindo, tipo “quando olho no espelho, estou ficando velho e acabado”, texto da bela e negativíssima canção “A lua e eu”, de Cassiano.

Um clássico da dor de corno lancinante, de fazer muita gente lamber cachorro suado, um poderoso hit do saudoso programa Good Times 98, o número um nos motéis de todas as cidades, nos tempos em que os motéis eram empórios de vastas emoções e pensamentos imperfeitos, chupando o título de um livraço de Rubem Fonseca.

Até recentemente (?) para qualquer habitante nativo de Icaraí, atravessar a Moreira César (Ator Paulo Gustavo) era como Gandhi caminhando em Mumbai, entre vacas, camelôs, hare krishnas, parando de 10 em 10 segundos para cumprimentar uns, ou 10, ou 20. Por exemplo, era impossível sair do Shopping Icaraí e ir até o Trade Center sem dar um alô para pelo menos 10 pessoas. Hoje, a impressão que tenho é que estou perambulando no Casaquistão, com o agravante das máscaras que tornam mais difícil a odisseia de reconhecer um conhecido.

Desde a sua Terceira Guerra particular, Icaraí virou um E.T. urbano. Explico. Terceira Guerra particular foi o apelido que o mestre Jajá, jornalista de ponta, ex-correspondente no Vietnã, etc. que lá nos anos 1970, à bordo do jornal Lig, onde eu era editor, escreveu que só a Terceira Guerra Mundial livraria Icaraí da especulação imobiliária.

Depois da fusão do antigo Estado do Rio com a Guanabara (1975) o bairro se transformou num perverso paliteiro de espigões que transformaram a Moreira Cesar (Ator Paulo Gustavo), por exemplo, num insano corredor de umidade, sombra, onde para enxergar o céu só entrando num prédio e subindo até o décimo sexto, décimo oitavo andar. Jajá escreveu sobre a Terceira Guerra particular do bairro, dolorida e libertadora, dentro do enxoval de absurdos que envolve a insanidade urbanística.

Icaraí trouxe muita gente de outras regiões do estado do Rio, enquanto que milhares de nativos fugiram para a Região Oceânica para escapar da sanguinolência representada por bate estacas, tratores, ferro e concreto.

Um sociólogo me garantiu que essa é a explicação mais clara para esse deserto de conhecidos em que se transformou boa parte da cidade. Ele mesmo, o sociólogo, também sofreu da síndrome da Moreira César (Ator Paulo Gustavo) quando, sábado passado, foi a um bar assistir a final do Flamengo na Libertadores e encontrou…, não encontrou um único conhecido naquela massa rubro negra. Flamenguista de incendiar cueca, chorou sozinho sentado no meio fio, não sabe bem se pela derrota do time ou pela amarga sensação de “ninguém me ama, ninguém me quer”.

Se a leitora ou o leitor andam em crise de autoestima, essa escalavrada coluna sugere que não façam o teste da Moreira César (Ator Paulo Gustavo). É extremamente desagradável, como uma pomba num ninho de gambás, uma girafa em cima da árvore, um jaboti pendurado num orelhão, um tubarão dando voo rasante na inclemente Álvares de Azevedo.

Agora, se você quer levar uma ducha de desprezo puro sangue, levanta, anda e caminhe a Moreira César (Ator Paulo Gustavo) de ponta a ponta. Na certeza de que no final dessa estrada vai estar tocando “A lua e eu” de Cassiano: “Mais um ano se passou, e nem sequer ouvi falar seu nome. A lua e eu”.

P.S. Escrevi Ator Paulo Gustavo algumas vezes para lembrar que o escroque do Moreira César levou um pé na bunda e em seu lugar entrou o Paulo, que tanto amou e divulgou a nossa Niterói, que na intimidade de Memphis, Tennessee, gosto de chamar de Nikityland.

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