Um dos pais da bossa nova, Roberto Menescal lança livro antológico

Luiz Antonio Mello

Roberto Menescal é meu padrinho de estúdio. Nos anos 1980 ele me mostrou o monumental Estúdio 1 da gravadora Polygram (ele era diretor), disse “divirta-se”, e saiu. E foi assim, contando com o apoio dos engenheiros, que produzi o meu primeiro disco, “Som na Guitarra”, álbum de estreia de Celso Blues Boy.

Apaixonado por Niterói, onde sempre toca (de preferência no Teatro Municipal), Menescal foi um dos criadores da bossa nova, na virada dos anos 1950 para 60. Reuniões no apartamento dos pais de Nara leão, na avenida Atlântica, rodinhas na areia, ele, João Gilberto, Ronaldo Bôscoli, estava todo mundo lá.

A grande notícia é que, aos 82 anos, com mais de 400 músicas gravadas no mundo inteiro por diferentes vozes e instrumentistas, e um papel mais que relevante na música popular brasileira, Roberto Menescal acaba de ganhar um livro sobre sua vida, escrito pela jornalista, pesquisadora e historiadora Claudia Menescal, prima do artista.

A ideia surgiu há três anos, quando Claudia começou a ajudar Menescal a organizar seu acervo e descobriu raridades, entre fotos, gravações, discos, partituras, cartas e documentos antigos. O resultado poderá ser conferido a partir do dia 10 de junho, às 19h, quando “Roberto Menescal – Um Arquiteto Musical” será lançado vitualmente nas redes da Livraria da Travessa e da Futurama Editora.

A vida familiar, a juventude em Copacabana —quando morava no prédio em cima da Galeria Menescal, construída pelo tio engenheiro, Humberto Menescal — os primeiros encontros com a turma da bossa nova, as musas inspiradoras, os amigos, as parcerias inesquecíveis e — é claro! — as composições. Tudo isso está no livro, que não é uma biografia convencional, ou uma radiografia da carreira musical do autor de O Barquinho, mas, sim, uma coletânea de relatos biográficos, casos e fatos captados pelo olhar delicado de alguém que conheceu Roberto em um contexto mais íntimo.

“Nossa diferença de idade parecia muito maior quando eu era pequena. Mesmo assim, acompanhei a carreira dele desde o início. Meu pai me contava tudo. Com o tempo, ficamos mais próximos e amigos. O livro é uma homenagem”, revela Claudia.

Nascido em uma família de engenheiros e arquitetos, Menescal chegou a se matricular no curso de arquitetura para seguir os passos do pai, do tio e dos irmãos. Porém, a música o pegou de jeito, para desgosto de Francisco (o pai) que não via futuro na carreira de artista. Longe de erguer edifícios ou de projetar estradas, Roberto tornou-se, assim, um construtor de solos, acordes, harmonias e de grandes amizades, como sugere o título da obra.

“Além do acervo pessoal, pesquisei outras fontes: jornais, revistas, vídeos antigos, livros, entrevistas, acervos de museus e institutos culturais. E entrevistei informalmente pessoas que conviveram e trabalharam com ele”, explica a autora.

Para “amarrar” as pontas soltas de todas as informações que tinha em mãos, Claudia gravou horas de conversa com o primo, relembrando episódios, datas e acontecimentos marcantes. Como o dia em que ele conheceu a cantora Nara Leão, uma das melhores amigas e parceiras, cuja perda lhe causou profunda tristeza. Ou quando ensinou Luiz Carlos Miele, quase um hidrófobo, a nadar e mergulhar em mar aberto.

“Não vivo do passado. Tenho saudade é do futuro. Mas achei o máximo a ideia de organizar esses registros em livro para que a memória não se perca”, avaliza Menescal, que apoiou a iniciativa desde o início. A obra é ilustrada por 300 fotografias que remontam a época em que ele se reunia descontraidamente com Ronaldo Bôscoli, Nara, Tom Jobim, João Gilberto, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Carlos Lyra e outras feras da Bossa Nova, para tocar e compor canções que se tornaram eternas. Reúne, também, depoimentos de artistas, alguns deles apadrinhados por “Menesca”, como é carinhosamente chamado. Nelson Mota, Antonio Adolfo, Leila Pinheiro, Cris Delanno, Wanda Sá e Ruy Castro estão entre os que falam sobre amizade, generosidade, carreira, encontros e relação profissional com este que, além de compositor e músico, é produtor e arranjador.

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