Um ano de pandemia: pouca coisa mudou, algumas para pior

Raquel Morais, Vitor d’Ávila e Marcelo Almeida

Em dezembro de 2019, no exterior, já se falava do coronavírus. Em Janeiro e fevereiro de 2020 já se comentava sobre um vírus mortal que se espalhava rapidamente e gerava consequências muitas vezes irreparáveis. Mas foi no dia 11 de março de 2020 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia da Covid-19, e na quinta-feira (11), essa triste realidade completou um ano. Aniversário sem festa, sem comemorações e ao contrário, com pesar, tristeza, falta de esperança e 2.621.944 mortes em todo o mundo.

Os casos da Covid-19 já tinham sido anunciados e algumas mortes registradas, mas somente em março de 2020 o mundo teve noção da gravidade da doença. O anúncio da pandemia, feito pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, pegou todos de surpresa e gerou muita expectativa e incerteza. O que era uma pandemia? Quantos tempo dura? Qual a potência? O que fazer para se proteger?

Na época Tedros declarou que o mundo vivia uma pandemia e não uma epidemia como até então era tratada. No discurso ele afirmou que infectados fora da China tinham se “multiplicado por 13”. Além da China a Itália, Irã, Estados Unidos e outros tantos países os casos e mortes estavam em patamares assustadores.

E no Brasil não seria diferente. O primeiro caso da doença tinha sido confirmado no dia 26 de fevereiro pelo Ministério da Saúde. Um homem, morador de São Paulo que viajou para a Itália entre 9 e 21 daquele mês. Ele foi atendido no Hospital Israelita Albert Einstein e fez o tratamento em isolamento respiratório domiciliar. Já a primeira morte no país aconteceu há exato um ano, em 12 de março, uma mulher de 57 anos em São Paulo e estava internada no Hospital Municipal Doutor Carmino Cariccio.

No Rio de Janeiro a Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirmou o primeiro caso em 5 de março, uma mulher de 27 anos, em Barra Mansa, no Sul do Rio. Ela também esteve na Itália entre os dias 9 e 23 de fevereiro. Já a primeira morte no Estado aconteceu em Miguel Pereira, uma senhora de 63 anos, que trabalhava como empregada doméstica e teve contato com a patroa que também foi na Itália e se contaminou.

Um ano depois, o ano de 2021 vive uma segunda onda da pandemia que tem se mostrado ainda pior que a primeira. Desde janeiro, o país vem batendo recordes atrás de recordes no número de mortes, o que obrigou estados e municípios a adotarem novamente medidas de restrição para conter o avanço da doença que trouxe uma nova alta na ocupação dos leitos dos hospitais.

Nessa última semana o número de mortes alcançou seguidos recordes, alcançando 1.972 óbitos na terça-feira (9), e passando as duas mil mortes na quarta-feira (10), quando se chegou a 2,349 vidas perdidas em 24h. Ontem, o país voltou a superar duas mil mortes e registrou 2.207 óbitos. Com essas marcas, o Brasil ultrapassou 270 mil vítimas da doença, contabilizando ao todo 273.124 brasileiros mortos em decorrência da infecção e se consolidou como o segundo maior número de mortes no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

O INÍCIO DA PANDEMIA

Para Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) os primeiros meses da pandemia foram de muitas incertezas, além de muitas informações que foram se aprimorando até hoje, um ano após o anúncio da OMS.

“Não sabíamos sobre os resultados de oxigenação e também não sabíamos muito sobre sintomas. A doença enganava muito. E hoje sabemos que acompanhar precocemente o paciente e ter atenção para oximetria é fundamental. Outra melhora no entendimento é em relação como a doença se manifesta no corpo humano”, explicou.

Além disso o especialista pontuou que o uso de medicamentos no início, como a cloroquina, azitromicina e ivermectina não funcionam.

“Nenhuma dessas drogas mostrou o avanço da doença. Hoje usamos corticoides para tentar reduzir os impactos e a necessidade de ventilação mecânica. No início a entubação precoce era importante e hoje tentamos evitar o máximo e retardar a entubação. Hoje temos como aliadas as vacinas e não tínhamos essas tratativas no início”, completou Alberto.

O infectologista Paulo César Guimarães, diretor da Faculdade de Medicina de Petrópolis, confessa que em 45 anos de medicina nunca viu algo tão grave e também teve que lidar com sensações que todo o mundo sentia.

“No início o vírus era chamado de vírus duro e ele não se disseminava com facilidade e provocava uma epidemia, não uma pandemia. Depois viram a possibilidade de disseminação de maneira terrível no Brasil. No momento as coisas estão mais claras e não existem UTIs para as pessoas. Por exemplo em Manaus vimos pacientes morrerem por falta de oxigênio hospitalar. Precisamos ficar atentos, esquecer a politica e pensar na vida. A população precisa colaborar. Foi o momento mais difícil da minha profissão. Também tive medo e fiquei em quarentena”, frisou.

Para o futuro os especialistas estão otimistas, mas acreditam que apenas em 2022 deverá ser decretado o fim da pandemia, mas isso não significa o fim da doença.

“Teremos o controle dos próximos meses e nos países que conseguirem avançar na vacinação terão a redução da mortalidade da doença. E depois a redução da transmissão com a aplicação de vacinas com maior capacidade de reduzir o risco de infecção. Devemos ter algumas vacinas novas no mercado”, almejou Dr. Alberto Chebabo.

Região Metropolitana – Em Niterói o primeiro caso confirmado foi no dia 9 de março do ano passado, um homem de 27 anos, e a primeira morte no dia 17 no mesmo mês. A vítima, também do sexo masculino, de 69 anos, que estava internado em um hospital particular. Atualmente a cidade contabilizava, até ontem, 29.860 casos e 858 óbitos. São Gonçalo teve o primeiro no dia 23 de março de 2020 através de transmissão comunitária. Em 31 de março foi confirmado o primeiro óbito, uma professora de 58 anos que morava no bairro Coelho. Até ontem a cidade tinha 89.988 casos e 1.473 mortes provocadas pela Covid.

Vacinas – O Brasil tem, atualmente, duas vacinas diferentes, aplicadas em todo o país. São elas a CoronaVac, desenvolvida numa parceria entre o Instituto Butantan e o laboratório chinês SinoVac, e a vacina Oxford-AstraZeneca, elaborada pela universidade britânica e o conglomerado farmacêutico sueco.

Ao longo de um ano da pandemia do coronavírus, os imunizantes foram testados no país, ao mesmo tempo em que outros também foram experimentados. Entretanto, apenas a CoronaVac e a Oxford-Astrazeneca tinham acordo de compra pelo Ministério da Saúde.

CoronaVac: começou a ser desenvolvida por uma parceria entre centros de pesquisa na China, em Janeiro de 2020. No mês de junho, o Instituto Butantan, que fica em São Paulo, assinou parceria para que testes fossem desenvolvidos em centros de pesquisa espalhados pelo Brasil. Os resultados da fase final de testes foram divulgados no dia 7 de janeiro de 2021, com 50,8% de eficácia global. Em de 17 de janeiro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou o uso emergencial do imunizante no país. A campanha de vacinação no Brasil foi iniciada com a CoronaVac, tendo a enfermeira Mônica Calazans, do instituto de Infectologia Emílio Ribas, recebido a primeira dose. As primeiras doses foram importadas da China. Entretanto, após a chegada do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), também vindo do país asiático, a fabricação foi iniciada em solo nacional, no próprio Butantan.

Oxford-Astrazeneca: no Brasil é distribuída e fabricada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). No dia 23 de abril de 2020, o primeiro ensaio clínico do imunizante foi iniciado na Europa. As primeiras doses que chegaram ao país também foram importadas, vindo da Índia, produzidas pelo laboratório Serum. Assim como a CoronaVac, seu uso emergencial foi aprovado pela Anvisa no dia 17 de janeiro. Ambas são aplicadas em duas doses. A vacina de Oxford-Astrazeneca possui eficácia de 76%.

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