Tradicional sapataria em São Domingos resiste ao tempo e à pandemia

Quando se trata da crise econômica provocada pela covid, muitos donos de comércio tiveram que fechar as portas por não resistirem aos impactos financeiros causados desde que a pandemia chegou ao Brasil. Mas para o sapateiro Carmine Rizzo, de 82 anos, nem a atual situação sanitária foi capaz de fazê-lo parar com seu negócio que já dura há praticamente seis décadas.

O italiano residente há 63 anos no Brasil segue atendendo os clientes no comércio localizado à Rua José Bonifácio, próximo à Praça Leoni Ramos, em frente ao campus da UFF do Gragoatá. Contando com o apoio da esposa, Vitina (também italiana), e do filho Antônio (brasileiro), o comerciante admite que viu a clientela praticamente sumir, mas que não pensou em desistir do trabalho em momento nenhum. Mas nada que o fizesse perder a esperança

“Realmente a pandemia nos afetou. Chegamos a ter uma perda de 80% na movimentação dos clientes, mas nada que me preocupasse. Conquistei muita coisa na vida e só posso agradecer a Deus por estar aqui, trabalhando neste momento”, conta Carmine.

Já Antônio é um pouco mais cético e explica que o comércio precisou ficar fechado por um período. E mesmo após a reabertura gradual foram muitos dias “sem fazer nada”. Mas os clientes estão voltando aos poucos e, no momento, o ritmo de trabalho já lembra um pouco ao que era antes da pandemia.

“No início não foi fácil. Chegamos a ficar com a loja fechada por três meses. E mesmo depois que houve a reabertura também houve dificuldades, pois tinha muito dia que eu ficava sem fazer nada. Absolutamente nada mesmo. O motivo da queda é porque boa parte dos clientes não ficam aqui no bairro. A maioria é da Região Oceânica. Só não fechamos porque a loja é própria e meu pai tem a aposentadoria dele. Se tivéssemos que pagar aluguel, certamente teríamos encerrado as atividades”, admite Antônio.

Apesar das declarações do filho, Carmine reafirma que não se preocupou e salienta que “apesar de alguns clientes terem saído, outros surgiram”.

Sapatos sem donos

Mesmo com o momento difícil, pai e filho contam uma situação curiosa. Há uma estante com os sapatos reformados que estão aguardando serem buscados desde o início da pandemia pelos donos.

“Gozado que, mesmo com a retomada, tem muita gente que não veio buscar os sapatos. Tem social, de bico fino, de diferentes tipos de confecção que estão aí, sem donos. Estamos esperando até agora que alguém apareça. Até agora está tudo encalhado”, conta Antônio aos risos.

Carmine fala que procura os clientes através de ligações informando que o calçado já pode ser retirado e conta que tem “até mala que está esperando o dono há mais de um ano”.

Saída da Enel pode impactar movimentação

Antônio revela que outra situação pode prejudicar a movimentação da sapataria. A saída da Enel, concessionária responsável pelo serviço de Energia, para a cidade do Rio. Localizada em um prédio em frente à concha acústica, a empresa está de mudança para a região portuária e vai ocupar um dos imóveis do Porto Maravilha, próximo ao Aqua Rio. E a desocupação do prédio niteroiense já começou em julho.

“Infelizmente a gente deve perder uma clientela certa com a saída da Enel daqui para o Rio. Nós tínhamos muitos clientes, principalmente mulheres, que pediam para consertar os sapatos de salto alto, principalmente os de salto fino. Só que desde a chegada da pandemia que perdemos essa clientela. Agora com essa mudança é que não sabemos como vai ficar”, revela Antônio.

Já Carmine, um otimista convicto, volta a dizer que é grato por seguir trabalhando e falar de maneira categórica que não pensa em parar.

“Como te falei, já passei por muita coisa. Só posso agradecer a Deus por estar trabalhando. Tive a oportunidade de voltar para a Itália e não quis. Se tivesse que passar por tudo novamente, passaria sem medo”, afirma em tom esperançoso.

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