Todo mundo detesta jornalistas

Luiz Antonio Mello

Sinto muito orgulho de ser jornalista, profissão que me pegou pelo pescoço cedo, nos meus 15, 16 anos e não me largou mais.

Eu ia estudar medicina, cheguei a fazer cursinho pré vestibular, mas já estava escrevendo no semanário Jornal de Icaraí, aqui desta casa, o primeiro jornal de bairro de Niterói. Precisei sair porque na época trabalhar sem diploma dava problema para todo mundo, principalmente para o dono do jornal.

Em 1969, a junta militar que governava o Brasil, conhecida como os três patetas, decretou que jornalista era obrigado a fazer curso superior. Até então, bastava ter talento, astúcia, ser bem informado, escrever direito e obter um registro profissional no sindicato.

Levei ferro no vestibular, mas a amiga Elaine Lima viu no jornal o anúncio de um outro, de uma faculdade independente, a Estácio. Estava mordido com a derrota no vestibular anterior e por isso passei em sexto lugar. Posso falar? Tirei o único 10 em redação.

Fiz o curso na Estácio, (aliás, ótimo), me formei, tirei o registro, pensei em fazer mestrado, mas na época não havia. Sempre quis dar aulas de prática do jornalismo, mas a exigência do mestrado me pegou. Ao longo do tempo fui trabalhando num monte de lugares e ao mesmo tempo e não havia tempo para estudar nada.

Em 2009 o STF acabou com a obrigatoriedade do curso superior para o exercício da profissão. E o atual governo simplesmente destruiu a profissão ao decretar que não é mais preciso, sequer, registro profissional para ser jornalista. Qualquer um pode acordar de ovo virado e começar a escrever.

As boas empresas só contratam jornalistas com curso superior. Afinal a faculdade é importante porque o mundo acadêmico, por si só, já acrescenta muito e temos, sim, ótimas faculdades. Se eu fosse empresário do ramo também só iria buscar profissionais nas universidades. São referências muito fortes.

Mas não é um mar de leite de rosas. Quase todo mundo detesta jornalista. Todo mundo. Juízes, promotores, advogados, desembargadores do mal nos detestam, políticos, sindicalistas larápios idem, assim como artistas medíocres, escritores pífios, bem como motoristas assassinos, jogadores de futebol moleques, capos da CBF, Fifa e similares flagrados com a mão nos cofres. Claro, também somos odiados por outros jornalistas que, pagos ou não, fazem o jogo dos poderosos de todos os setores (lícitos ou não) através de blogs, colunas em jornais, sites, TVs, rádios. Esses pelegos talvez sejam piores do que o mais cruel dos carrascos.

Todos os presidentes da República odiaram e odeiam jornalistas porque nós somos pagos para ficar em cima, questionar, fazer perguntas desagradáveis, provocar saia justa, criticar, bater.

Até Getúlio Vargas, dono de uma paciência infinita, quando foi ejetado da presidência em 1945 estava lambendo as feridas em sua fazenda em São Borja (RS). Alguém chegou e disse “presidente, estão chamando o senhor”. Ele respondeu “se for jornalista eu mando enforcar”, e sorriu. Quem conta é o colega Lira Neto, autor da magistral biografia de Getúlio em três volumes. Lira diz que ele estava brincando.

Já levei coice de jogador de futebol, mágico, médico, pipoqueiro, morador de rua, PM, guarda municipal, professor…………………………… (preencha você mesmo) e até de colegas.

Por exemplo, Millor Fernandes (1923-2012), escritor, jornalista, grande intelectual tem duas definições sobre a imprensa:

“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

“A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime”.

As gerações de jornalistas anteriores a minha eram basicamente de bêbados, boêmios, intelectuais, alguns anarquistas, e 98% de esquerda.

A minha geração já é bem mais família, mesmo assim os mais novos nos acham vândalos. O índice continua: 98% de esquerda. As gerações atuais, bem mais assépticas, altamente tecnológicas, vão seguindo em frente. O índice? Se mantém: 98% de esquerda. No Brasil e no mundo inteiro.

No passado alguns me chamavam de Lacerdinha, mas esse é outro papo.

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