Tiro no pé: escolha de Comte desagrada até aliados de Paes

Wellington Serrano –

A escolha do deputado Comte Bittencourt (PPS) como vice desagradou a maioria dos aliados mais próximos do candidato Eduardo Paes (DEM). A maior revolta foi entre os integrantes do PP, presidido no Rio pelo vice-governador Francisco Dornelles. A legenda pleiteava indicar o vice e só abriria mão se este viesse a ser preenchido por alguém do PDT ou do MDB. O PP oferecera nomes como os de Christino Áureo e Luiz Antônio Teixeira Júnior, respectivamente ex-secretários da Casa Civil e de Saúde do governo Pezão (MDB).

Em entrevista a um jornal carioca Luiz Antônio Teixeira confirmou o descontentamento do PP como a opção de Paes. Cotado para ser vice de Paes. A opção do ex-prefeito por Comte Bittencourt, não chegou a ser uma decepção para ele que foi um secretário exemplar à frente da Saúde.

“Ainda estou buscando espaço na política, esta será a primeira eleição que disputo. Mas certamente o PP, um dos maiores partidos do país, partido do vice-governador Francisco Dornelles, tinha essa expectativa de indicar o vice, por tudo o que o PP representa e pelo tempo de televisão que agrega. Com relação a mim, não. A vida é por etapas. Vou buscar ser um representante da Saúde e da população da Baixada Fluminense em Brasília”, disse Luiz Antônio.

Luiz Antônio tirou, até então, a combalida secretaria de Saúde das capas dos jornais e reorganizou
a secretaria, sem dinheiro e em meio a uma crise ética e moral e disse que isso foi um desafio enorme. “Hoje a Saúde está organizada, com os hospitais funcionando, com os equipamentos funcionando, com medicamento, com salários pagos. É outra realidade. Mas há distorções. A saúde do estado é penalizada pelo baixo investimento do governo federal. A União repassa anualmente R$ 3,5 bilhões para unidades federais no Rio. O estado recebe só R$ 550 milhões por ano”, realçou.

Sobre por que escolheu o PP, que é uma legenda grande, mas sobre a qual recaem numerosas denúncias na Lava Jato nacionalmente, Luiz Antônio disse possui uma relação muito boa com o vice-governador Francisco Dornelles, que faz uma política de diálogo. “Que é a política em que eu acredito. Não acredito em nenhum tipo de radicalismo, nem de direita nem de esquerda. Sou pré-candidato a deputado federal depois de dois anos comandando a Saúde do estado e quero lutar pela área em Brasília”, afirmou.

Já Comte tinha uma reeleição muito difícil de deputado pela frente e, segundo informações de especialistas, viu essa oportunidade e apadrinhado pelo Dornelles, embarcou. “Ele (Comte) já está com a imagem desgastada na educação pela ação dúbia que causou quando aceitou ser o vice-prefeito de Rodrigo Neves e ao mesmo tempo não assumir o município quando foi preciso e preferir continuar na Alerj. Com a reeleição do deputado Waldeck Carneiro (PT) e o lançamento da candidatura também a estadual do jovem Marcos Marins (PP), que é um candidato natural da UFF, ele (Comte) perdeu mais espaço na educação a ponto de não conseguir se reeleger se fosse o caso”, disse o cientista político Márcio Malta, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O cientista conta que Comte já vem num curva descendente de sua trajetória política. E que poderia ter encerrado a carreira de maneira mais digna.

“Tenho a hipótese que o Paes foi enganado pela conversa de muitos votos, coisa que não acontecerá. No entanto, a liderança de Paes, mesmo com tudo que ele fez no Rio, está ameaçada pelo continuísmo e o fato de que era afilhado político de Cabral, o que acabará com os últimos momentos da carreira do deputado niteroiense”, realçou Malta.

Segundo ele, Comte perdeu espaço no interior e não tem propostas para os problemas pontuais das cidades. “O candidato a governador, apesar de conhecer também o interior, se deixou influenciar”, ressaltou.

Em seu último discurso na Assembleia, Comte destacou sua atuação em Niterói e Friburgo ao criticar os governos anteriores.
“Depois do prefeito Pereira Passos que foi prefeito do Rio, só o nome de Paes está marcado”, disse ele ao depreciar os governos anteriores, que por acaso fez parte junto com Cabral e Pezão.

Comte ainda frisou que “todos passam profundas dificuldades porque foram entregues a um ciclo de governança que lamentavelmente não respondeu a sua obrigação frente aos cidadãos”, afirmou o deputado sobre seus antigos pares.

Entre vários eleitores em cidades lideradas pelo governo do PPS muitos reclamam. “Ele vendeu para Paes e o André Corrêa que tinha nas mãos os municípios de Campos, São Gonçalo e Mangaratiba coisa que não é verdade. Ele não sabe nem administrar as crises internas do PPS como a do prefeito gonçalense José Luiz Nancy que vira e mexe pede consultas para saber lidar com os deslizes de seu governo”, disse o morador gonçalense Willian Alves.

TRAJETÓRIA

Testemunha de defesa dos deputados da Alerj investigados na Lava Jato, Comte está no 3º mandato de deputado. Foi vice-prefeito na gestão de Godofredo Pinto (2005-2008) e secretário de Educação no segundo governo do prefeito Jorge Roberto Silveira (1999-2000). Em 2001, como vereador, presidiu a Câmara até 2002, quando foi eleito deputado. Foi vereador por três mandatos a partir de 1992.

Estreando na política, nos anos 80, pelo PSDB e apoiando a candidatura de Sérgio Cabral, a deputado, Comte Bittencourt foi candidato a vice-prefeito, em 1988, com muitas críticas a Jorge Roberto, na chapa de Adilson Lopes, sendo derrotado e quatro ano depois se elegeu vereador com 2.182 votos, sendo reeleito em 1996 com 3.564.
Pelo PSDB voltar à Câmara com 5.539 votos, em 2000, presidindo-a em 2001 e 2002, quando foi acusado de fechar as portas da Casa para a votação do PUR, sendo esta considerada a maior atitude antidemocrática da história de Niterói.
Eleito deputado pelo PPS, ainda em 2002, obteve 29.108 votos, renunciando para ser eleito vice-prefeito na chapa de Godofredo Pinto (PT). Obteve nova eleição em 2006 com 38.892 votos, em todo o Estado e se reelegeu em 2010, já na presidencia estadual do PPS, com 45.541 votos, dos quais um terço em Niterói.
Na gestão de Godofredo Pinto assumiu a coordenação dos setores de turismo, educação, esportes e residuo sólidos e no governo de Jorge Roberto, comandou os setores de educação, esporte e turismo, além de ter sido secretário de Governo por quatro meses.

BIOGRAFIA POLÍTICA

1988 — Candidato a vice-prefeito pelo PSDB, com criticas ao PDT é derrotado por Jorge Roberto

1992 e 1996 — Eleito vereador pelo PSDB

2000 — Mais uma vez eleito vereador pelo PSDB

2001/ 2002 — Como presidente da Câmara foi acusado de fechar a porta da Casa para votação do PUR

2002 — Muda de partido, vai para o PPS e é eleito deputado.

2004 — Renuncia o mandato de deputado para vir a candidato a vice de Godofredo (PT), que se elege.

2006 — Eleito deputado já na presidência Regional do PPS, participa ativamente do governo Godofredo.

2008 — Se aproxima de Jorge Roberto e não apoia o candidato do PT, Rodrigo Neves.

2008/2011 — Coordena várias Secretarias do governo Jorge Roberto.

2012 — Larga o mandato de deputado e vira secretário de Governo de Jorge Roberto, retornando à Alerj com críticas ao PDT.

2014 — Apoio ao Aezão, movimento do MDB no Rio com Picciani.

2016 — Larga o mandato pela terceira vez e vira vice-prefeito de Rodrigo Neves (PT), retornando à Alerj, sendo criticado por não tomar posse como vice.

2018 — Se aproxima de Eduardo Paes (DEM) candidato ao governo e tenta entrar na chapa como vice gerando revolta entre os aliados, principalmente nos integrantes do PP.

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