‘Temos de acabar com a panelinha’

Há cinco anos fora do meio político, Felipe Peixoto, candidato a prefeito de Niterói pelo Partido Social Democrático (PSD), assegura que agora chegou a sua hora. Com passagens pela vida pública como vereador mais votado da cidade, deputado estadual e secretário de Estado, o administrador niteroiense de 43 anos pretende transformar Niterói em uma verdadeira ‘smart city’, apostando na tecnologia, no enxugamento da máquina administrativa e mais transparência no uso do dinheiro público. Apaixonado pela cidade, onde nasceu e mora com esposa e duas filhas, o prefeitável foi o segundo entrevistado da série de lives promovidas pelo jornal A TRIBUNA em seu site e Facebook.

A TRIBUNA – Você está há cinco anos fora do meio político. Como pretende ganhar desta vez? O que apresentará de novo para atrair votos?

Felipe Peixoto – Após quase ganhar nas duas últimas eleições municipais, que foram disputadíssimas, sinto nas ruas um ambiente de que chegou a minha vez. Voltar para a iniciativa privada depois de ser vereador, deputado e secretário, fez com que eu enxergasse a sociedade como um cidadão comum. Eu gosto de Niterói e gosto da vida pública. Nasci aqui, minhas filhas também, e é onde quero dar um futuro para elas. Por isso, quero a oportunidade de fazer mais pela cidade e pela população.

AT – Você entrou e saiu da Secretaria de Estado de Saúde em meio a uma crise enorme do Governo do Estado. Acha que essa experiência pode atrapalhar sua campanha?

Felipe Peixoto – O tempo já mostrou que a crise econômica era imensa. Cada notícia que ainda sai sobre aquela época só mostra todas as dificuldades que enfrentei. O Estado deixou de gastar os 12% obrigatórios com Saúde, o que equivalem a R$ 1,2 bi. Tivemos quatro secretários estaduais de Saúde em quatro anos. Mas também foi a melhor experiência que tive em administração, porque foi muito complexa. Esse é um assunto encerrado, que já ficou pra trás. As duas delações de Sérgio Côrtes deixaram claras que na minha gestão me ofereceram privilégios dos quais eu não tive interesse.

AT – Como você avalia a atual gestão municipal?

Felipe Peixoto – Houve muitas realizações. Mas o orçamento triplicado desde a época de Jorge Roberto Silveira ajuda. Jorge fez muitas coisas pela cidade com verba de R$ 1,3 bi. Só de royalties, a cidade teve aumento de arrecadação de R$ 100 milhões para R$ 1,2 bi. É para a vida melhorar. Todas as obras de urbanização hoje em andamento, como do Engenho do Mato, Maravista, Várzea das Moças, Ingá e Rio do Ouro, serão concluídas na nossa gestão. A diferença é que faremos muito mais com o dinheiro disponível. Reduzirei pela metade o número de secretarias municipais. Teremos uma Corregedoria forte, com capacidade de fiscalizar qualquer tipo de desvio. O que falta nesse governo é ousadia e criatividade. Precisamos sair desse beabá de só recapeamento asfáltico. O dinheiro dos royalties pode ser muito melhor aplicado em obras para todas as regiões, como Pendotiba e zona norte, esta sempre esquecida.

AT – Você recebeu o apoio de Jorge Roberto Silveira, do PDT, que também está afastado do meio político. Acha que isso trará um impulso maior à sua candidatura?

Felipe Peixoto – Sim, pois foi um prefeito com vários mandatos que mudou a história dessa cidade. Niterói é uma antes e outra depois de Jorge. Ele colocou Niterói num alto patamar de autoestima e IDH. Fico grato pelo carinho dele por mim. Tenho certeza de que esse apoio é muito importante para nossa eleição. Estou muito preparado para o desafio de ser prefeito dessa cidade.

AT – Como você está dialogando com seus eleitores antigos estando agora em um partido com tantos membros de extrema direita?

Felipe Peixoto – Quando Rodrigo Neves migrou para o PDT, partido em que militei por 30 anos, eu tive que sair. Foi doído, mas era incompatível. Fui bem recebido pelo PSD. Continuo sendo centro-esquerda, com os mesmos ideais e sonhos.

AT – Os programas de auxílio emergencial criados pelo atual governo durante a pandemia continuarão caso você seja eleito?

Felipe Peixoto – Com certeza. Não é possível interromper. A situação foi difícil, com desemprego e vidas perdidas. Meu compromisso é manter todos os programas. Mas os que não deram certo precisam ser corrigidos. Niterói perdeu dez mil postos de trabalho na pandemia, sendo o segundo pior índice do estado após a capital. Vamos ampliar as ações que possam ajudar na geração de empregos. Meu primeiro ato de governo será comprar o Hospital Oceânico, atualmente alugado pela Prefeitura, para continuar atendendo a população após a pandemia. Gosto muito dessa unidade. São 100 leitos e 4 centros cirúrgicos servindo à cidade.

AT – Seu plano de governo prevê a desapropriação do Hospital Oceânico, a reforma do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba (HPJ) e a construção de um centro de imagem municipal. Como pretende colocar tudo isso em prática?

Felipe Peixoto – O HPJ é uma novela, com obras que não acabam, assim como a Maternidade Alzira Reis, cuja reforma prometida na época da construção do túnel ainda não aconteceu. Aliás, discordo da localização das residências terapêuticas do HPJ, que precisam de tranquillidade. É preciso reorganizar o sistema hospitalar, talvez através de parcerias público-privada na área, algo que é preciso debater. O Hospital Carlos Tortelly, antes policlínica de especialidades, foi promovido a hospital no governo de Godofredo Pinto, mas acho que não atende a expectativa. Cardiologia e Oncologia, na minha visão, são prioridades na saúde, mas por serem caras é preciso cogitar consórcios. Niterói foi vanguarda na Saúde, com o programa Médico de Família e as UPAs, começando pelo hospital Mário Monteiro, mas tem cidade por aí com menos verbas e uma rede melhor. A atenção básica aqui é grande mas com pouca eficiência. Não há prontuário eletrônico. Os agendamentos são feitos no papel. É preciso tecnologia. Por isso defendo o modelo de ‘smart city’. É preciso olhar com carinho para a população que mais precisa da saúde pública.

AT – Os guardas municipais que estão no cadastro de reserva serão convocados no seu governo?

Felipe Peixoto – O contingente hoje é de 714 pessoas e há 220 esperando ser chamadas. Meu compromisso é ter em Niterói um efetivo de mil guardas, algo já sinalizado no próprio estatuto da categoria. No meu governo, a Guarda Municipal terá um papel mais importante. Sou particularmente contra o armamento, enquanto meu vice é a favor, mas percebo que várias cidades armaram e a Guarda assumiu um maior protagonismo. Acho que o assunto pode ser discutido novamente. Estou aberto a isso, ouvindo a experiência de outros municípios e posso levar a decisão à consulta pública de novo.

AT – No primeiro mandato de Rodrigo Neves você comentou que ele não havia sido muito feliz no quesito Segurança Pública. Você mudaria algo no CISP e no programa Niterói Presente?

Felipe Peixoto – Minha crítica em 2016 foi em relação aos indicadores. Rodrigo implementou boa parte das ideias que eu mesmo propus no meu programa de governo naquela eleição. Boa parte do que defendi a atual gestão incorporou. Só a forma como o Proeis está sendo executado é que precisa ser reformulada. Pretendo ampliar o Niterói Presente para todas as regiões da cidade. A mancha da criminalidade se movimenta, saindo de onde vigora o programa e migrando para outras regiões não cobertas. Vamos pegar o cerco eletrônico do CISP e levar para as divisas do município. Vamos botar câmeras que façam análise de comportamento. Hoje existem softwares inteligentes que detectam movimentação humana e reconhecimento facial por câmeras em locais de grande circulação de pedestres. Nosso mandato vai melhorar muito mais a segurança porque pretendemos trabalhar muito mais integrados com as polícias estaduais.

AT – Você criticou o número de administrações regionais. Pretende reduzi-las?

Felipe Peixoto – O modelo de administração regional é absurdo. Nada mais do que cabides de empregos. Precisamos de um conceito mais moderno na descentralização administrativa. É inadmissível alguém administrar 52 secretarias. Precisamos de uma estrutura que funcione e tenha condições de atender o usuário, e não os atuais lugares para acomodação política. Dá pra reduzir cargos e sobrar dinheiro para projetos e remédios.

AT – Muitos moradores reclamam do IPTU alto. Como pretende lidar com isso?

Felipe Peixoto – Os cidadãos não veem o resultado do investimento. Falta transparente. Não conseguimos ver efetivamente como o dinheiro é gasto. O IPTU não é do prefeito, e sim dinheiro da cidade, fruto do trabalho de todos nós. A partir do momento em que apresentamos isso à população, ela verá o cuidado com as áreas públicas e a iluminação. Desde 2012 falo em modernizar parque de iluminação pública da cidade, que está ultrapassado. Falei em Parceria Público-Privada (PPP) pra isso e a gestão atual disse que era inviável. Iluminação de LED significa economia de energia e maior segurança. Vamos revolucionar nisso.

AT – Diante da expectativa de julgamento pelo STF de redistribuição dos royalties entre os municípios fluminenses, como pretende enfrentar essa redução de receita?

Felipe Peixoto – Houve um evento recente na Alerj para discutir o assunto, que não contou com a presença do prefeito. Se eu soubesse que ele não iria, eu teria ido defender os interesses do estado inteiro! Falo disso direto no meu blog. A Prefeitura aumentou o gasto com pessoal, de meio bilhão para R$ 1,2 bi. Não podemos deixar acontecer com Niterói a crise que aconteceu com o Estado. Vi de perto essa história. Corremos o risco de perder os royalties no fim do ano., mas estou acostumado com desafios.

AT – Você preconiza o projeto de escola em tempo integral. Acha que o quadro de professores é suficiente ou será necessário concurso?

Felipe Peixoto – Os indicadores de Niterói são péssimos. Dos 92 municípios, é o 64º no ranking do Ideb. A Prefeitura não vem cumprindo o que manda o Ministério da Educação. Há mil crianças fora de creches por falta de vagas na cidade. Nosso compromisso é colocar todas elas nas salas de aula. E tudo isso sendo o município que mais gasta com aluno: R$ 16.879,42 por ano ou R$ 1.406 por mês com cada estudante. Uma Prefeitura com tanto dinheiro tinha que ter essa posição tão ruim no Ideb? Algo está errado. O setor tá comandado por políticos e não técnicos. Se este governo em outras áreas acertou, na Educação errou. Minha mãe e irmã são educadoras da rede pública. Conheço pessoas comprometidas. Falta gestão e coragem.

AT – Mães de alunos reclamam da educação inclusiva, com a falta de profissionais capacitados para lidar com crianças com deficiência. Qual o seu projeto nessa área?

Felipe Peixoto – A lei diz que criança especial tem que ter atendimento diferenciado. No meu governo, darei esse suporte. Professor precisa de treinamento específico, mesmo com formação.

AT – Apesar de a cidade ter alto nível de IDH, ainda já muitas pessoas em situação de vulnerabilidade. Como pretende resolver a questão habitacional e evitar a expansão em áreas de risco?

Felipe Peixoto – É preciso um programa habitacional efetivo. O governo federal é parceiro, mas os conjuntos construídos são afastados da área central da cidade e tira o interesse das pessoas em ficar lá. O Centro tem espaços para isso. É possível erguer moradia popular de qualidade no meio da cidade. Não adianta a Prefeitura ser só um intermediário entre construtoras e donos de terrenos: precisa gerir isso e atender de fato a população vulnerável em moradias dignas.

AT – O atual governo implantou 40km de ciclovias na cidade e promete mais 60km na Região Oceânica, mas pela falta de hábito dos niteroienses em usar bicicleta e transporte público, os engarrafamentos continuam. Qual a solução para isso?

Felipe Peixoto – Mobilidade é a dor de cabeça do niteroiense. Esse assunto me aflige muito. Temos muitas ideias, mas o mais importante é concluir o que foi iniciado, como a Transoceânica, que levaremos até o Centro. O Projeto Jayme Lerner prevê terminais em Pendotiba e regiões Leste e Norte. Vamos modernizar o corredor viário da Alameda São Boaventura. Vamos investir em tecnologia, como no plano semafórico que hoje é ultrapassado. Precisamos de contagem de fluxo com reprogramação automática. Ah, e ar-condicionado em todos os ônibus. Sou o autor do Estatuto da Bicicleta quando ainda nem era moda, e sim coisa de estudante. O hábito de bicicleta ainda não é nosso. Mas investiremos na segurança do ciclista. Gastaram quase meio bilhão de reais e não fizeram a ciclovia segregada. A transoceânica podia ter ganhado uma ciclovia decente.

AT – O que os atletas e os artistas do município podem esperar da sua gestão?

Felipe Peixoto – Teremos editais abertos dos quais todos poderão participar. Tem que acabar com essa história da panelinha, onde só o ‘amigo do rei’ é contemplado. É preciso transparência nesse processo. Devemos tratar nosso artista e atleta de forma diferenciada e igualitária.

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