Histórico Teatro Leopoldo Fróes é consumido pelas chamas

Raquel Morais

O histórico Teatro Leopoldo Fróes, no Centro de Niterói, foi atingido por um incêndio na noite de quarta-feira (10). O espaço, onde atualmente funcionava um brechó, fica na Praça da República e pertence à Arquidiocese de Niterói, que já se comprometeu em fazer um reparo no imóvel.

O Corpo de Bombeiros foi acionado às 23h56min e controlou As chamas. Ninguém ficou ferido.

De acordo com informações de populares o incêndio teria sido provocado por um morador de rua. No antigo teatro agora funciona um brechó beneficente no térreo e no segundo andar a Pastoral da Criança.

O tapume e parte da entrada foram destruídos pelo fogo. Parte das roupas e calçados do brechó também foi queimada. Um funcionário do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) que não quis se identificar, contou o que viu na noite de terça-feira pouco antes do incêndio.

“Parece que quem colocou fogo foi um usuário de drogas. Muitas pessoas que usam drogas moram na Praça da República e quando o tempo está chuvoso, ficam debaixo da marquise do antigo teatro.
Eles deitam e rolam quando a polícia não está passando. Eles roubam celulares das pessoas ou qualquer quantia em valor, principalmente de quem segue para o hospital”, relatou.

Quem recebeu a notícia com muita tristeza foi o cantor e compositor Marcos Sabino, presidente da Fundação de Artes de Niterói, que já se apresentou diversas vezes no Leopoldo Fróes.

“Eu tenho uma ligação muito profunda com o Teatro Leopoldo Fróes, pois comecei a minha carreira naquele palco, junto com muitos outros artistas. O teatro marcou a carreira de muita gente da cultura brasileira. Para a geração dos anos 70 e 80 tem uma representação afetiva muito grande. Eu quando fui presidente da FAN, em 2010, tentei uma conversa com a Arquidiocese de Niterói para a Prefeitura gerir o espaço, mas a Mitra não quis. Agora é precoce para falar isso novamente, mas eu pretendo ir lá ver o que o fogo consumiu do espaço. Fiquei muito triste”, contou Sabino.

A Arquidiocese de Niterói lamentou o ocorrido e informou que o incêndio atingiu o tapume de proteção na frente do prédio e não causou maiores danos. A administração da Mitra Arquidiocesana já lavrou o boletim de ocorrência e está providenciando o reparo.

SEGUNDO INCÊNDIO EM NITERÓI NESSA SEMANA

Na segunda-feira um incêndio de grandes proporções tomou conta da casa de festas infantis Gato Xadrez, em Itaipu, na Região Oceânica de Niterói. Ninguém ficou ferido e a Defesa Civil marcou de realizar uma análise da estrutura do prédio. A Secretaria Municipal de Defesa Civil e Geotecnia informou que, de acordo com a nova vistoria realizada na terça-feira (9), foi constatado que a casa de festa e um trecho do estacionamento do condomínio vizinho continuarão interditados até que sejam realizadas as intervenções necessárias. Sobre as intervenções a prefeitura não se manifestou.

A IMPORTÂNCIA DO TEATRO LEOPOLDO FRÓES

Mário Sousa*

Fevereiro de 2021: um incêndio acabou com uma das maiores referências culturais de Niterói, o Teatro Leopoldo Fróes. A classe artística chora e lamenta esta perda, principalmente, os que participaram e viveram, ativamente, sonhos e realidades neste palco.
Desde que foi fechado pelo Departamento de Censura, passou a ser um centro de assistência social da Mitra Arquidiocesana. Na realidade, desde que o prédio foi doado pelo Estado para a Mitra, em 1947, o prédio sempre foi desta instituição e com esta finalidade. O conflito com a igreja começou 19 anos depois, quando a Associação Recreativa Comércio e Navegação, do Sindicato dos Operários Navais, arrendou o prédio para construir um auditório e assumiu a direção do Teatro o metalúrgico e desenhista Albino Santos. Na época, o Teatro tinha o nome de Alvorada. As apresentações culturais e as reuniões sindicais que passaram a acontecer ali incomodavam muito à censura, por este motivo, o diretor Albino Santos foi suspenso do Estaleiro onde trabalhava e o Teatro foi fechado pelo DOPS em 1973.
Porém, ainda em 1973, o Teatro Alvorada foi reaberto somente para as atividades culturais e, passou a se chamar Teatro Leopoldo Fróes, através de uma parceria entre a Prefeitura de Niterói e o INDC (Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural). No início dos anos de 1970, e na década de 1980, o Teatro Leopoldo Fróes passou a ser o maior laboratório cultural do Estado do Rio de Janeiro, com uma explosão de atividades artísticas. Música, dança, teatro, festivais, cursos, poesia, era uma intensa ebulição que preenchia o dia e a noite das programações. Grandes nomes se apresentaram ali tais como: Procópio Ferreira, Paulo Autran,Yoná Magalhães, Glória Menezes. Grandes festivais de teatro infantil e adulto aconteceram naquele palco, a maioria sob o comando de Sohail Saud, com a presença de Paschoal Carlos Magno, e apoio do Jornal A Tribuna.
Na música, vários nomes se destacaram nacionalmente com o selo do Teatro Leopoldo Fróes, dentre eles: o grupo MPB 4, Zélia Duncan, Almir Satter, Zizi Possi, Pepeu Gomes, Jards Macalé e o atual presidente da FAN, o músico Marcos Sabino.
Toda a classe de teatro se reunia e se apresentava no Teatro Leopoldo Fróes, tais como: o diretor Hipólito Heraldes, uma figura que ainda não recebeu a homenagem merecida pela sua atuação no teatro da cidade; a teatróloga Maria Lina Rabelo e o ator e diretor Marcos Hazec. Marcelo Caridade, Eduardo Roesseler, Felice Pirro, Ronaldo Mendonça, Carlos Adib, Carlos Fracho e Cristina Fracho, Leonardo Simões, Elyzio Falcato, Antonio Carlos De Caz e tantos outros.
Mas este boom cultural foi desfeito no início da década de 1990, quando a Mitra (proprietária do imóvel) resolveu fechar o Teatro Leopoldo Fróes. Na época, aconteceram várias manifestações contra o fechamento sob o título “SOS Leopoldo Froes”. A disputa entre a Prefeitura e a Arquidiocese foi parar na justiça; porém, a batalha foi ganha pelo Arcebispo. Na ocasião, a Prefeitura poderia tornar o Teatro Leopoldo Fróes num bem público municipal, mas preferiu não contrariar a Igreja.
Na década de 1970, a censura era pesada nas artes e em todos os setores culturais. Das inúmeras intervenções policiais, a mais curiosa, foi durante a apresentação de teatro da Companhia de Zé Gamela, com uma peça sobre a vida de Cristo. Pouco antes da apresentação, os atores já prontos para entrar em cena, chegou um policial e deu uma “carteirada” para assistir à peça. O bilheteiro disse que ele não podia entrar com a carteira policial. Ocorreu uma discussão, e o policial abandonou o local, retornando a seguir com mais cinco policiais. Foi quando o bilheteiro chamou Zé Gamela, já personificado de Cristo, e disse para os policiais: “O teatro é o nosso ganha pão. Vocês só podem entrar se comprarem ingresso”. Naquele instante, o policial deu voz de prisão a Zé Gamela e a todo o elenco da peça. Não se fazendo de rogado, Zé Gamela chamou o elenco e saíram todos com os figurinos da peça, inclusive, sua mulher Dety, vestida de Nossa Senhora. Ao chegarem na Avenida Amaral Peixoto, sob o espanto da população, imediatamente, a cena ganhou pauta no maior noticiário da época, o Repórter Esso, que deu a notícia da seguinte forma: “Noticia extraordinária: acaba de ser preso, em plena Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, Jesus Cristo e Nossa Senhora!”.
Dentre outras lembranças, tenho orgulho de ter apresentado, como ator e diretor, várias peças no Teatro Leopoldo Fróes, dentre elas, a mais marcante foi “Festival do Reencontro”, com o elenco composto apenas por pessoas em situação de moradia nas ruas (mendigos), cada um revelando sua possibilidade artística, dentre eles, um ex-artista de circo e cantor pertencente a uma família conhecida de Niterói. Alcoólatra, passou a morar na rua e depois num abrigo. Sua voz era espetacular e o convidei para abrir o espetáculo cantando Ave Maria. No entanto, antes da apresentação, ele conversou comigo e pediu: “Mario, eu não posso aparecer, pode ser que tenha alguém na plateia que me conheça, isto seria uma grande vergonha para mim”. Na mesma hora, mudei as marcas e a iluminação, deixando-o apenas na penumbra. Porém, logo na abertura do espetáculo, ele percebeu que a TV Globo iria filmar e me chamou novamente: “Diretor, a Globo taí, o meu sonho sempre foi aparecer na Globo cantando. Vou deixar a vergonha da família para lá. Você pode mudar a cena para eu aparecer?”. Tive que mudar a cena novamente, colocando-o na frente do palco e com boa iluminação. A reportagem da TV começou com ele cantando Ave Maria e extraindo lágrimas de todos.
Das cinzas: as emoções e as memórias, falou emocionado o presidente da FAN, Marcos Sabino, sobre o amor e o respeito por tudo que viveu no Teatro Leopoldo Fróes.

*Mário Sousa é jornalista, escritor e diretor de teatro

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