Surfando na Memória

Luiz Antonio Mello

Há uns meses, A TRIBUNA criou uma coluna chamada “Memória”, em sua página no Facebook. São postadas fotos de Niterói no passado, seu cotidiano, sua cultura e, para a nossa surpresa o Facebook informou que estamos com mais de 2 milhões e 100 mil acessos a cada 28 dias. Ou seja, “Memória” explodiu.

Todos os dias (inclusive nos fins de semana e feriados), 7 da manhã, uma foto é postada com um pequeno texto. Para ver basta acessar https://www.facebook.com/atribunarj e ir descendo. O material está espalhado no noticiário e a cada dia ganha mais leitores e comentários.

A pergunta que me ronda é por que? Por que o passado exerce um poder fulminante na maioria das pessoas que, segundo pesquisas, se sentiam mais felizes anos atrás?

Não me refiro aos saudosistas, mas as pessoas comuns como nós que, por razões que desisti de entender, acham que o hoje é sempre pior do que o ontem.

Mas há casos concretos.

Lá na minha adolescência costumava cortar o cabelo num barbeiro no começo da rua Moreira Cesar, que felizmente mudou de nome para Ator Paulo Gustavo, quase esquina com Miguel de Frias.

O salão era uma portinha com todos os ingredientes de cidade acolhedora e bucólica. Tinha revistas “Fatos e Fotos” e “O Cruzeiro” (quase destruídas de tanta manipulação), jornais da época (no Rio e Niterói eram mais de 30 jornais), potentes ventiladores

Ao lado, uma chácara cheia de árvores, galinhas, passarinhos (cheguei a ver uma raridade, por sinal em extinção, um tiê sangue pousado num ingazeiro).

A área era ocupada por uma finada figura chamada garrafeiro, que passava o dia pegando garrafas de vidro pela cidade para depois revender para a indústria.

Garrafeiro, vendedor de triguilim, carrocinha de sorvete percorrendo as ruas faziam parte da paisagem.

Numa tarde, fui cortar o cabelo e quando cheguei o salão não estava mais lá. Demoliram tudo.

O salão, a área do garrafeiro e, evidentemente, acabaram com as galinhas, árvores, passarinhos.

Construíram um barraco envidraçado chamado de estande de vendas. Um enorme tapume cercava a área, como se quisesse esconder o que estavam fazendo lá dentro.

Não adiantava porque os caminhões saíam lotados de árvores cortadas.

Puderam a imponente e iluminada placa “Mais um empreendimento…”.

Adoraria ver uma foto daquela área, antes de ser dizimada.

Num país onde o progresso anda para trás, gosto de ver em “Memória”, fotos de troleibus e bondes mostrando que lá nos anos 1940/50 o transporte coletivo aqui na cidade era movido por veículos elétricos, sem barulho, sem fumaça.

Eli em cima, na foto, um belo troleibus (apelidado de Chifrudo). Toda frota de Niterói foi fabricada na França.

Mas, na cara de pau, à luz do dia, os governantes se venderam para o cartel do óleo diesel e sucatearam bondes e troleibus. Deu no que deu. Tentaram emplacar o VLT, que é o bonde pós moderno, fazer tudo de novo, mas parece que abandonaram.

Como não gostar de ver fotos desses bólidos elétricos, por sinal campeões de visibilidade lá em “Memória”?

Como se sabe, com a inauguração da ponte Rio-Niterói as moreias da indústria imobiliária, com anuência absoluta do poder público, invadiram a cidade e destruíram boa parte de Icaraí.

A rua Ator Paulo Gustavo é o maior exemplo de como o bando do cimento era desprezível.

A rua virou um corredor sem sol com prédios de até 18 andares colados uns nos outros. A insana muralha impede a passagem do vento do mar.

Nos arredores, o inchaço das ocupações irregulares nos morros, efeito colateral, mas isso é tema para outro artigo, que não escreverei.

Por acaso, eu e centenas de milhares de pessoas conhecemos aquela rua em tempos bucólicos e, certamente, diante de uma foto da época, é natural que bata uma enorme saudade.

Também por isso, “Memória” é tão procurada.

A ruína da Niterói pós ponte foi muito rápida. Os cupins da especulação imobiliária passaram o rodo na Zona Sul da cidade (agora querem devorar a Região Oceânica) e, insaciáveis como todo isóptero, massacram a cidade.

A antiga aldeia do “como vai, meu chapa?” de 10 em 10 metros virou uma horda de estátuas em movimento, onde ninguém conhece ninguém

Não sou um lamuriante saudosista. Não gosto de disco de vinil, nem de fita K7, gosto de vacinas, antibiótico, ansiolítico, bicicleta elétrica, robótica na medicina. Sou fã da Nasa, da estação espacial, adoro aviões, ar condicionado, internet, curto o celular (de preferência no modo avião), o streaming…mas sabem o que é? Eu só queria a minha cidade de volta.

Já que é impossível, como milhões de pessoas mergulho em “Memória” que, acho, vocês vão gostar. Como escrevi ali em cima é só acessar https://www.facebook.com/atribunarj .

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