Superação através da canoa havaiana

Raquel Morais –

“Me senti livre e igual a todas as pessoas”. Esse foi o depoimento emocionado do aposentado Roberto Sampaio, de 48 anos, após praticar pela primeira vez a remada na Canoa Havaiana, na Praia de Icaraí. O depoimento seria comum se o morador de Cabo Frio não fosse deficiente visual, cego de uma vista e com baixa visão na outra. Ele participou do projeto piloto desenvolvido pelo Icarahy Canoa Clube, que vai oferecer aulas gratuitas do esporte para a primeira turma de deficientes visuais na cidade, no mês que vem. O primeiro grupo já tem 18 alunos matriculados com muita garra e vontade de aprender mais sobre o esporte.

A ideia do projeto foi desenvolvido ainda em 2005 pelo niteroiense Douglas Moura, de 37 anos, técnico e fundador do clube, quando começou a remar. O atleta fundou em 2015 a própria escola e sempre levou o lema que aprendeu com um professor: ‘Remar não é ver, remar é sentir’.

“A canoa havaiana tem uma conexão com o oceano, liberdade, natureza e com o bem-estar. O projeto piloto aconteceu esse ano e reunimos pessoas que não enxergavam com pessoas que enxergavam normalmente. Em um trecho, parte do grupo vendava os olhos e orientava o restante do grupo e depois trocamos os papéis. Foi algo emocionante e apaixonante. Levei esse projeto na Secretaria de Acessibilidade e foi aprovado”, explicou o professor.

Assim foi formada a primeira turma, cujas aulas começarão em meados de agosto, sempre de quinze em quinze dias, com início às 8h na Praia de Icaraí, na altura da Rua Belisário Augusto. Ele explicou que os alunos serão guiados para remar através de três sinais: voz, palma e tambor.

“Sempre gostei do mar, mas nunca pensei em fazer um esporte no mar. Tenho dificuldade de locomoção, como todos que têm essa deficiência, mas o projeto foi tão pensado nesse problema que eu me senti igual a todas as pessoas. É algo emocionante saber que alguém pensou na gente com tanto carinho e sentir a liberdade do mar e o vento batendo na gente não teve preço”, lembrou emocionado Roberto.

Roberto Sampaio (2)

A terapeuta ocupacional da Associação Fluminense de Amparo ao Cego (Afac), Patrícia Valesca, trabalha há 21 anos com deficiência visual e aprovou a iniciativa do clube.

“Trabalho no programa de orientação e mobilidade para proporcionar autonomia e independência para o deficientes. O esporte ajuda através da socialização, autoestima, independência e além disso a canoagem trabalha toda a questão da orientação espacial, amplitude gesticular e parte psicomotora como o equilíbrio”, pontuou a técnica.

O Icarahy Canoa Clube tem parceria com a Afac, que indica os participantes que se encaixam no perfil para remada, e da Coordenadoria Municipal de Acessibilidade de Niterói.

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