Sohail Saud: Niterói perde o seu eterno Papai Noel

Morreu aos 81 anos por problemas cardiovasculares provocados pela Covid 19 o nosso Sohail Saud, uma das figuras mais queridas, importantes, interessantes e folclóricas da história de Niterói.

Não veremos mais o baixinho, gordinho, de bigodes fartos, calças impecavelmente brancas, camisas discretamente estampadas, circulando a pé por toda a cidade, principalmente em sua Icaraí.

O descendente de libaneses era uma figura querida, uma das mais engraçadas e populares com quem tive o prazer de conviver há pelo menos 40 anos. Ele gargalhava quando diziam que era mais famoso do que Arariboia, que um dia seria o Barão de Niterói, mas não me perdoaria por estar como estou. Estou triste, Sohail. Apesar de, uma vez, tomando café no Plaza você ter dito “não quero choradeira quando eu morrer; aliás, vamos mudar de assunto, meu negócio é viver, viver, viver”.

Pior: eu nem sabia que você estava doente o que mostra que você estava certo quando dizia que “Niterói inchou demais, as pessoas já não sabem mais quem é quem, quem mora onde, quem está bem, quem está mal”.

Amigo de Procópio Ferreira, Mário Lago, Bibi Ferreira, apaixonado por teatro, entre 1967 e 1971 Sohail Saud criou o Festival de Teatro Jovem Fluminense, uma promoção desta A TRIBUNA que superlotou as plateias. Eram encenadas peças por 17 dias seguidos e o sucesso o levou ao cargo de Secretário Estadual de Teatro, além de ter sido diretor do Teatro Municipal de Niterói sucessivas vezes.

Apesar da sua intensa vida dedicada ao teatro, para muitos Sohail Saud será lembrado como o Papai Noel oficial de Niterói. Ao longo de toda a vida (“uma missão que recebi”, me disse) ele vestia a roupa de Papai Noel e durante todo o mês de dezembro fazia uma turnê por hospitais, asilos, orfanatos levando abraços, sorrisos, conforto, presentes e era recebido com sorrisos e lágrimas de emoção.

– Me dá muita vontade de chorar vendo aquela gente bonita tocando em mim como Papai Noel, mas eu tinha que me segurar…chorava muito em casa depois. Há muitas décadas não sei o que é passar a noite de Natal em casa, estou sempre por aí, vagando por Niterói com a roupa vermelha autêntica, a barba italiana original do Bom Velhinho.

Sohail Saud tinha um coração enorme, um temperamento forte, mas dizia que “nenhuma briga entre amigos deve durar mais do que um dia porque é burrice perder as pessoas que amamos”. No entanto quem foi próximo sabe que ele morreu com uma única e profunda mágoa. A primeira infestação de petistas que tomou a prefeitura da cidade em 2002 teve a crueldade de defenestrar Sohail Saud da “função” de Papai Noel oficial da cidade porque ele não era filiado ao partido. “Foi uma punhalada…uma punhalada”, me disse com o olhar lacrimoso. Foi quando dei para ele um CD com diversas versões de “Bichos Escrotos”, dos Titãs, com um longo bilhete. Mesmo com a punhalada, com a ajuda de amigos, Sohail seguiu em sua missão, levando conforto aos necessitados no mês de dezembro.

Sambista apaixonado vivia a sua Escola, a Viradouro, e o Carnaval 365 dias por ano. De acordo com esta A TRIBUNA “a escola de samba Unidos do Viradouro, onde Saud fundou a Ala dos Artistas, se manifestou em suas redes sociais. ‘Sohail que, ao lado de sua esposa Suely, dispensou toda energia e dedicação à escola, principalmente nos momentos mais difíceis pelos quais a nossa agremiação passou, sempre foi motivo de orgulho para toda a nossa comunidade. A diretoria e componentes da Viradouro desejam força à companheira Suely, aos demais membros da família, e à imensa legião de amigos de Sohail`.

Acima de tudo, Sohail Saud era puro alto astral e adorava um bom papo, mas foi também um diplomata. Em 1984, durante um evento na extinta Vila Olímpica (hoje, Caminho Niemeyer), houve forte pressão para que a Rádio Fluminense FM (que produziu um show) cedesse seu equipamento de som e luz para outras produções. Com muita diplomacia, o gerente de promoções da Rádio, Alvaro Luiz Fernandes, explicou que o equipamento não pertencia a rádio e por isso não poderia ceder. Os ânimos se exaltaram e lá pelas tantas alguém puxou um revólver. Foi quando apareceu Sohail, que estava na assessoria do evento, e com aquela sua lábia única serenou os ânimos.

Niterói perde mais um de seus filhos ilustres, um homem a prova de rancores. “Com exceção da punhalada petista, que me doeu na alma porque envolvia caridade, todos os contratempos de minha vida passaram”, comentou em 2011, de volta como diretor geral do Teatro Municipal para ser demitido de novo em 2013. “Não tem problema, o importante é que graças aos amigos o Papai Noel sobrevive e é isso o que importa”, comentou sorrindo.

Ao Sohail Saud, o nosso aplauso.

P.S.- Agradeço ao médico Hekel Silva pela ajuda e solidariedade esta semana. Mais do que um excelente e renomado profissional, ele mostrou a sua reconhecida generosidade e solidariedade.

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