Sobrevivente da Segunda Guerra Mundial

O caminhar está limitado e os movimentos não são mais os mesmos. Mas a memória e a condição mental estão excelentes para o segundo-tenente reformado, José Custódio de Menezes, de 96 anos, gonçalense de coração e ex-combatente da Segunda Guerra Mundial pela Força Expedicionária Brasileira (Feb). O sobrevivente da guerra passou por muitas emoções e lembra com detalhes dos momentos a bordo do navio ‘Almirante Jaceguay’, que partiu do Brasil rumo a Itália, no auge do conflito entre 1943 e 1944.

A expressão ‘nome de guerra’ nunca teve tanto sentido na vida do soldado Menezes que se alistou, voluntariamente, no Exército em Alagoas e logo depois, com 20 anos, foi enviado para lutar em nome do Brasil. Em entrevista para A TRIBUNA o morador do bairro Camarão, em São Gonçalo, lembra com riqueza de detalhes tudo que passou a bordo do navio até a Itália. Entre as lembranças ele se emociona e recorda com orgulho dos amigos e das sensações que a guerra provocou.

“Lembro que não morri por muito pouco em várias ocasiões. Vi colegas de farda morrerem no meu lado. Minha farda tinha cheiro muito ruim de sangue dos colegas mortos que eu tinha que carregar por grandes distâncias. O medo era o pior dos sentimentos naquela época. Um pânico o tempo todo. Não conseguia dormir e nem relaxar por nenhum momento. E confesso que fiquei sem conseguir relaxar por muitos anos mesmo depois do final da guerra. Quando fechava o olho o barulho das rajadas de tiros e das bombas dentro da minha cabeça me assustavam. Foi um período muito difícil”, lembrou emocionado.

Além dos oponentes da guerra a fome e o frio também eram inimigos diários.

“A gente se alimentava de acordo com o bom humor da pessoa que dava a comida nos alojamentos. Eles davam a quantidade que eles queriam, as vezes um caldo ralo de feijão com uma colher de arroz. Não podíamos reclamar, repetir e nem mostrar insatisfação”, frisou.

Sobre o frio, o depoimento também foi engasgado pelo choro e emoção.

“Tínhamos que dormir juntos para esquentar o corpo e os amigos mortos também eram colocados entre a gente. Mas em vez de esquentar eles iam ficando frios e era horrível essa sensação. Não tínhamos escola”, completou.

Quando a tropa regressou para o Brasil o soldado Menezes, também conhecido por “58”, que é alagoano, escolheu São Gonçalo para fixar moradia.

“Trabalhei como motorista de uma empresa de construção e consegui montar minha vida depois de passar por isso tudo. Tenho dois filhos, cinco netos e seis bisnetos do primeiro casamento. Agora só quero ler meu jornal, cuidar da minha vida e não me meter na vida de ninguém e é claro tomar minha cervejinha de vez em quando”, brincou.

Depois de mais de 70 anos o ex-combatente foi reconhecido pelo Exército Brasileiro em maio desse ano, com a entrega da Medalha da Vitória pelas mãos do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, popularmente conhecido como Monumento aos Pracinhas.

“Andei nos carros oficiais, recebi a medalha e um diploma. Foi muito emocionante e meu corpo todo tremia nessa homenagem. Outros quatro guerreiros também receberam as medalhas e realmente passou um filme na minha cabeça”, contou.

E o enteado Alexandre Guerra, 33 anos, teve participação direta nesse momento.

“Eu conheci uma pessoa responsável no Ministério da Defesa pelos ex-combatentes de guerra e comentei que meu padrasto tinha 96 anos e muita história para contar. Eles proporcionaram um momento único na vida dele e da minha família”, explicou o universitário filho da segunda esposa do Sr. José, Maria Elita Menezes, de 61 anos.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
A Segunda Guerra Mundial durou seis anos, entre 1939 e 1945, e dois grupos se enfrentaram: Aliados (Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos) e o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Conta-se que a morte de 60 a 70 milhões de pessoas durante a guerra que começou na Europa e chegou até a África, Ásia e Oceania. Também teve envolvimento de muitas nações e o Brasil não ficou de fora disso. Segundo o Portal Brasil Escola a Guerra pode ser organizada em três fases distintas: a fase da supremacia alemã, a fase em que as forças estavam equilibradas e a fase que marcou a derrota do Eixo. Lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, Holocausto e Massacre de Babi Yar são alguns dos acontecimentos marcantes desse período que terminou, oficialmente, em 2 de setembro de 1945.

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