Setor naval e offshore de Niterói pede socorro

Há cerca de 10 anos os estaleiros de Niterói figuravam como os principais geradores de emprego da cidade e de toda a região Leste Fluminense, com cerca de 12 mil metalúrgicos trabalhando. Contudo, hoje isso é visto como um passado de glória frente ao atual cenário em que a indústria naval fluminense se encontra, principalmente após o agravamento do quadro devido a pandemia do novo Coronavírus. De acordo com os dados do início de 2020, antes da crise sanitária, havia apenas cerca de dois mil funcionários nos estaleiros niteroienses. Hoje este o cenário pode ser ainda pior.

A afirmação é do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval). Os estaleiros localizados na orla de Niterói fabricavam embarcações, navios plataformas e faziam reparos para atender a demanda, principalmente, da Petrobras. A estatal brasileira era a principal cliente dos serviços que sustentavam a indústria naval em todo o Estado. Navios e plataformas feitos e montados na cidade eram utilizados, principalmente, na captação de petróleo na bacia de Campos, no norte do estado, assim como em outros pontos do litoral fluminense. Contudo, nos últimos anos o setor foi declinando até atingir a inércia em que se encontra hoje.

Sergio Leal, secretário-executivo do Sinaval, afirma que para mudar essa realidade é preciso que haja uma política de governo priorizando os estaleiros nacionais em detrimento da concorrência aberta. Segundo ele, na época de ouro dos estaleiros, a Petrobras tinha por política empresarial comprar dos estaleiros brasileiros com o objetivo de gerar empregos no país. Contudo, isso foi abandonado devido ao impacto da crise que atingiu o país após 2014 e a estatal passou a optar por comprar no mercado internacional pelo menor preço possível.

“Foi em 2016, no governo Michel Temer, que a Petrobras começou a trazer algumas coisas de fora do país. No ano passado, Bolsonaro resolveu que não ia comprar mais nada de estaleiros brasileiros. Com isso todo mundo perdeu, porque, para fazer um navio os estaleiros comparavam muitos materiais de fornecedores da indústria nacional. Assim esses fornecedores foram migrando para fornecer materiais para outras atividades que compram e pagam menos”, afirmou.

Para Leal, a mudança de política adotada pela Petrobras tem que ser antes de tudo política, não econômica. Isso porque comprar no mercado nacional não significa, necessariamente, que será mais barato que comprar de estaleiros estrangeiros.

“Comprar de estaleiros brasileiros era uma opção do Governo Federal para aquecer a indústria naval e gerar empregos no setor, o que foi abandonado a partir do governo Michel Temer para optar pelo mais barato. A mesma medida vem sendo adotada e ampliada por Jair Bolsonaro”, explicou.

O economista Alexis Dantas, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), aponta a boa fase da indústria naval coincide com a guinada da Petrobras no governo Lula (203-2010) e sua Política de Conteúdo Nacional. Nesse período a estatal deixou de ser uma empresa de petróleo para ser entendida como uma empresa de energia, fazendo toda a cadeia de produção, desde a perfuração do poço de petróleo, até a distribuição da gasolina.

“A partir de 2003, a Petrobras adotou a Política de Conteúdo Nacional, reservando parte de seus investimentos para adquirir produtos na indústria brasileira. Isso servia de fomento à indústria de petróleo e gás e seus fornecedores, nesse conjunto está a indústria naval. Com a mudança, a partir de 2016, a perda não foi apenas dos estaleiros, mas de todas as empresas que tinham seus negócios mantidos por essa reserva de investimento mínimo em conteúdo nacional”, afirmou.

1,5 milhão de ex-funcionários se reinventam após demissões

Com os estaleiros em declínio, milhares de trabalhadores foram demitidos. Desta forma, muitos profissionais especializados acabaram sendo obrigados a migrar para outros empregos. Alguns se recolocaram em outras profissões, mas muitos trabalham hoje em subempregos ou como autônomos. Esse é o caso de Jorge Luiz da Silva Costa, 53, um dos milhares de demitidos do Estaleiro Mauá.

Costa afirma que quando foi demitido não recebeu a verba indenizatória da rescisão, estava com três meses de salário atrasados e a empresa não tinha depositado algumas parcelas do seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Hoje, cerca de cinco anos depois, ele ainda não recebeu o dinheiro a quem tem direito. “Hoje eu sou mais um que engrossa a camada de desempregados desse Brasil. Eu aproveito o que sei para aceitar alguns trabalhos de serralharia para tentar sobreviver trabalhando como autônomo”, desabafou.

Ele não é o único a estar nesta situação e, por conta disso, ele montou uma associação para lutar coletivamente pelos direitos dos ex-funcionários dos estaleiros de Niterói, a SOS Empregos RJ, que tem hoje 5 milhões de associados, não apenas metalúrgicos, mas pessoas que trabalhavam em empregos indiretos, como motoristas, porteiros, e outros trabalhadores de outros setores.

De acordo com um levantamento feito pela SOS Empregos RJ, apenas as cidades do Leste Fluminense possuem mais de 1,5 milhão de pessoas aptas a trabalhar nos serviços especializados que a indústria naval demanda, mas que hoje estão em outros empregos.

Marcelo Almeida

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