Sementes da China: 19 encomendas entregues em Niterói

Raquel Morais

Bioterrorismo, ataque químico, contaminação ou simplesmente uma técnica de e-commerce conhecida como “brushing“? Muito se especula sobre as sementes que estão sendo entregues pelos Correios com origem da China. Ao todo já foram registradas 25 encomendas com as misteriosas sementes e 19 dessas chegaram para moradores de Niterói. Houve um registro na cidade de Resende, um em Cantagalo e quatro na Capital (RJ). Enquanto essa história não é desvendada esses materiais ainda estão em análise em um laboratório do Ministério da Agricultura, em Goiás. A recomendação da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento (Seappa) é clara: não coloquem as mãos, não plantem e não joguem fora no lixo comum.

A Seappa, por meio da Defesa Agropecuária, informou que orienta sobre o perigo de recebimento de sementes não solicitadas pelos destinatários. A princípio, até que se tenha informações relativas às análises das amostras recolhidas, o grande risco é a possibilidade real de introdução de espécies vegetais exóticas que possam promover algum tipo de desequilíbrio em um novo ambiente, ou ainda a introdução de pragas e doenças inexistentes no território brasileiro, podendo comprometer toda uma cadeia produtiva de inúmeras espécies vegetais, impactando também o meio ambiente.

A vendedora Iracema da Silva, 38 anos, mora em São Gonçalo e está no aguardo do resultado da análise das sementes que ela plantou. No mês passado ela comprou sementes da planta ‘suculenta’ em um site da China. A encomenda chegou normalmente e ela plantou em uma mini estufa. “Na mesma semana fiquei sabendo das sementes que estavam sendo enviadas para pessoas aleatórias. Eu fiquei apavorada. Por mais que eu tenha comprado a minha semente, ela veio da China e eu fiquei com muito medo de ser algo para o mal. Liguei para a secretaria e eles vieram na minha casa e levaram a estufa para análise. Eu nem quero mais saber dessa planta”, desabafou.

“As sementes não devem ser manuseadas, plantadas e descartadas no lixo comum. É preciso contatar o MAPA ou a Defesa Agropecuária estadual para realizarem o recolhimento do material e envio ao laboratório para análise. É fundamental estar atento aos possíveis riscos oferecidos, especialmente por materiais de propagação vegetal. Não podemos deixar que ameaças fitossanitárias prejudiquem a produção fluminense”, explicou o secretário de Agricultura, Marcelo Queiroz. A chefe da Divisão de Defesa Agropecuária da Superintendência Federal de Agricultura no RJ, Jamyle Vianna, completou. “ Por se tratar de produto que entrou no Brasil sem nenhum tipo de inspeção, pode representar riscos à saúde humana, animal e também ao meio ambiente”, frisou.

Mas além dessa possibilidade de contaminação outra possível explicação do aparecimento desses materiais é a tática chamada de “brushing” no meio digital. Consiste na utilização de contas falsas que são criadas em sites, através do roubo de dados de usuários, que funcionam para “marketplace”. Os vendedores desses sites internacionais registram um código de rastreamento de envio de algum objeto, no caso as sementes, e com isso eles são avaliados positivamente e ganham quantidade de vendas no sistema. As sementes são itens leves e com isso o frete é barateado.

A Embaixada da China no Brasil informou que soube por nota do Ministério da Agricultura e pela imprensa que brasileiros de diferentes partes do país têm recebido pacotes contendo sementes de plantas e que alguns desses pacotes trazem etiquetas com ideogramas chineses. Sementes são artigos de envio proibido ou restrito para os países membros da União Postal Universal (UPU). Os Correios da China seguem rigorosamente as disposições da UPU e vetam o transporte postal de sementes. Uma verificação preliminar constatou que as etiquetas de endereçamento apresentam indícios de fraude, com erros no código de rastreamento e em outros dados. A Embaixada está disposta a cooperar com a investigação das autoridades brasileiras.

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