Segurança Presente admite aumento do número de pessoas vivendo nas ruas de Niterói

O caso de agressão a uma pedestre feita por moradores em situação de rua, no último sábado (14), chamou atenção para o aumento da população que ocupa as calçadas e praças de Icaraí, Zona Sul de Niterói. O fato foi admitido publicamente pela operação Segurança Presente. Na ocasião, uma mulher de 54 anos disse ter sido atacada a tapas e chineladas após reclamar do forte odor de maconha, na Praça Getúlio Vargas.

Ontem (16), a reportagem de A TRIBUNA percorreu o bairro e constatou vários pontos ocupados por pessoas em situação de rua. Além da própria Praça Getúlio Vargas, em frente à Praia de Icaraí, eles estão espalhados por lugares como a calçada do antigo Cinema Icaraí, na Rua Álvares de Azevedo, além da Rua Ator Paulo Gustavo, altura da Rua Lopes Trovão. Segundo pedestres, essa população costuma fazer abordagens de maneira hostil.

“Desde dezembro aumentou demais [a população de rua em Icaraí]. Eu estava lendo sobre esse caso agora mesmo. Fiquei impressionada. Realmente não tem mais a mesma segurança de antes”, disse uma mulher, que passeava com seu cachorro pela Rua Ator Paulo Gustavo. Ela preferiu manter sua identidade preservada.

A comerciante Isaura da Silva Pinto, de 44 anos, trabalha numa banca de jornal perto da esquina da Rua Ator Paulo Gustavo com a Lopes Trovão. Ela relatou que moradores de rua costumam se reunir em frente à agência do Banco do Brasil localizada a poucos metros dali. Ela também disse que, após a repercussão do caso de agressão, os suspeitos “se mudaram” para outro ponto do bairro.

“A situação está cada vez mais difícil. Aqui em frente é o dia inteiro. Eles tentam coagir a pessoa a dar dinheiro. Muitos também usam crianças. Uma conhecida estava de carro e foi abordada por um homem que pediu dinheiro. Ela não deu e ele começou a chutar e socar o carro dela. Alguns não fazem nada, mas outros são muito violentos”, afirmou a comerciante.

Segundo relato de moradores, diariamente no fim da tarde uma mulher usa crianças para pedir dinheiro na Rua Tavares de Macedo, perto do supermercado Nando. Um grupo, mais agressivo, costuma se reunir embaixo de uma marquise no número 74 da mesma rua.

Necessidade de integração

O Conselho Comunitário de Segurança Pública de Niterói tem abordado constantemente, em suas reuniões, a situação da população em situação de rua em Niterói. Para Francis Leonardo, presidente do Conselho, a principal estratégia para se solucionar os problemas é a integração das forças de segurança com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Economia Solidária.

Fotos: Vítor d’Avila

“Uma das principais características do conselho é fazer integrações. Na nossa última reunião conseguimos trazer o secretário de Assistência Social e Economia Solidária, assim como já integramos também a secretaria de Direitos Humanos. Sabemos que a Guarda Municipal, Polícia Civil e Polícia Militar. Hoje, estamos estreitando esse relacionamento para que possam haver ações conjuntas”, disse;

Francis afirmou que é necessário separar o “joio do trigo”. Ele pontua que boa parte das pessoas nessa situação vive nas ruas por questões econômicas. Estes não costumam causar incidentes. No entanto, a maior preocupação é com usuários de drogas que, além de usar as vias públicas como moradia, utilizam o espaço para cometer crimes, como furtos, a fim de sustentar o vício.

“Uma das coisas que o secretário passou é o recambiamento, ou seja, mandar essa pessoa em situação de rua de volta para seu município ou estado. O problema nisso tudo não são as pessoas que estão em situação de rua por situação econômica, mas sim dependentes químicos que usam a rua para praticar crimes como furtos e eles não querem ajuda. É oferecido o abrigo e assistência social, mas eles não querem”, prosseguiu.

Segurança Presente admite aumento da população

Em nota, a Operação Segurança Presente admitiu que o número de pessoas nesta condição social aumentou demasiadamente. O programa ainda destacou que “nossas assistentes sociais atuam diariamente para auxiliá-los”. A operação atua desde novembro com ações do tipo com foco na população em vulnerabilidade social da cidade.

No que diz respeito ao fato de sábado, o Segurança Presente afirmou ter tomado ciência, mas que “analisando as câmeras da localidade para saber a veracidade do ocorrido, visto que nenhuma equipe da operação informou ter sido acionada”. No entanto, segundo a vítima da agressão, uma viatura da PM teria ido ao local e apenas colheu o telefone dela e de seu marido.

Por fim, o comunicado enviado pela operação aventou a possibilidade de agentes de trânsito terem sido confundidos com policiais do programa.

“Os agentes do Segurança Presente e os agentes de trânsito da Prefeitura têm sido confundidos frequentemente, apesar dos coletes utilizados serem de cores distintas”, completou.

Procurada para falar sobre a situação dos moradores em situação de rua, a Prefeitura de Niterói não se manifestou até o fechamento desta edição.

A praça da agoniapor Luiz Antonio Mello

Em março, por volta das 17 horas, dois homens me abordaram, um deles com a mão direita sob a camisa.

Queriam dinheiro para fumar crack junto com o bando que mora amontoado ao lado de uma imobiliária na Rua Álvares de Azevedo, quase esquina com Praia de Icaraí.

Eu estava sem a carteira porque tinha dado uma saída rápida para passear com a minha cadela. Esqueci que passear por Icaraí, bairro onde cresci e vivo, virou crime contra os seus verdadeiros donos, chamados pela tecnocracia de “moradores em situação de rua”.

Quando eu disse “não tenho dinheiro…”, um deles se irritou, falou alto “mostra aí…mostra aí”. Eu temia que ele tivesse uma faca debaixo da camisa, mas felizmente o outro, que parecia mais sóbrio, o pegou pelo braço e o afastou. O mais agressivo saiu vociferando “fdp…fdp…”.

A Praça Getúlio Vargas, conhecida pelos moradores dali como Pracinha, era alegre, cheia de crianças, cachorros, vizinhos conversando. Tinha até feirinha de livros aos domingos e quermesse de São João.

Hoje é um lugar deserto, com uma ou outra ratazana atravessando e constantemente frequentada por meliantes que se misturam aos moradores de rua.

A agressão física sofrida pelo morador sábado foi um milagre porque poderia ter sido uma facada. Pior: uma vizinha dela disse que semana passada foi na rua Ator Paulo Gustavo chamar um guarda municipal. Conseguiu localizar um que, secamente disse que “nosso trabalho é proteger o patrimônio”.

Na minha opinião, não existe patrimônio mais valioso do que a vida humana. Mais valioso do que hidrantes, grades de jardins, postes. Mas, o que manda é a lei.

Esses guardas que hoje são 600, em breve serão mil.

Haja hidrantes!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.