São Francisco poderia servir de bairro modelo

Ótima coincidência. Caminhava pensando nesse artigo quando encontrei com Luiz Carlos Gallo, primo de primeiro grau. Conversamos rapidamente e vieram muitas lembranças.

Quando eu tinha três anos minha família morou um ano em São Francisco antes de mudarmos para Angra dos Reis. Na volta de lá, sete anos depois, fomos morar na Rua Goitacazes, em São Francisco. Anos 60, o bairro era um belo areal, com mangues e brejos, moradores que curtiam muito o ambiente natural e bucólico. Entre eles o saudoso amigo e médico Edgard Lopes Porto. Os Gallo (Luiz Carlos, pais e irmãos) moravam mais perto da praia.

Meu irmão Fernando de Farias Mello, dois anos mais novo e eu, passamos muitos dias enfiados naqueles brejos com nossos primos caçando rã. Meus pais decidiram por São Francisco para que nós, meu irmão e eu, nos adaptássemos aos poucos a “cidade grande” já que lá em Angra vivemos num paraíso que era a vila de oficiais do Colégio Naval, da Marinha. Meu único problema em Angra foi contrair ofidiofobia, moléstia que trago até hoje. Nada é perfeito.

Gosto de ver esta A Tribuna pendurada nas bancas de São Francisco, bairro que jamais deixou o meu planeta afetivo e por isso acompanho de perto a vida do bairro. Compacto, com muitas casas, o sentimento comunitário sempre se mostrou muito forte por lá. Nos anos 1970 e 1980, a especulação imobiliária tentou meter o pé na porta, mas não conseguiu passar por cima da postura guerreira e apaixonada dos moradores do bairro. Moradores como, por exemplo, o saudoso Seu Tarquínio (Claudio Tarquínio), que confrontava o poder público com manifestações ruidosas que contavam com o apoio da imprensa, para que o bairro fosse poupado. Não fosse isso, poderia ter virado uma nova Icaraí, como viraram Santa Rosa, Ingá, Jardim Icaraí.

Em 2010, o bairro tinha 21 mil habitantes (censo do IBGE), foi o pioneiro no serviço de coleta de lixo seletivo usando um pequeno trator, tem escolas, clubes, mercados, todos os serviços básicos, com exceção de um hospital público.

O Centro Comunitário de São Francisco, muito ativo, está em contato permanente com o poder público para resolver suas questões e volta e meia convida os moradores para conversas com os responsáveis por diversas áreas como segurança e trânsito.

Por que a prefeitura não utiliza esse exemplo de bairro equilibrado como modelo para movas ações? Quando o Rio tinha prefeito, alguns pontos da cidade serviam de modelos para ações urbanísticas como tipos de paradas de ônibus, projetos de ciclovias, sinalizações de trânsito, novos sistemas de varredura e coletas de lixo, muita coisa foi testada e aprovada. Lembro de uma experiência dessa há uns 20 anos em parte da Ilha do Governador.

Hoje muita gente se mudou de São Francisco. Com a construção dos novos prédios que lá estão, houve uma nítida substituição dos “bairristas nativos” por novos moradores que, em muitos casos (eu conheço vários), viviam no Rio e arredores. O seja, nenhum vínculo nativo com o bairro como ocorre, também, com um niteroiense que se muda para, por exemplo, Nova Iorque. Afeto zero. Depois, quem sabe? Mesmo assim, cresce a participação dos moradores nas reuniões convocadas pelo Centro Comunitário de São Francisco

Muitos não conheceram o bairro no apogeu de seu exercício de cidadania, já pegaram o balão caindo, as casas esvaziando, os nativos partindo, os prédios chegando. Por isso, devem achar normal o inchaço do morro do Preventório continuar se alastrando, ver como natural o insuportável barulho de centenas de motocicletas sem silenciosos atormentando as noites e os dias, bares e restaurantes que até telões instalam na calçada da praia.

Para muitos isso é normal porque na maior parte do Rio o esculacho urbano é “coisa do cotidiano”, “charme de carioca”, “alegre irreverência do povo”. Mal comparando, é normal ver vacas defecando em ruas da índia, gente tomando sopa de morcego e comendo churrasco de rato na China, dançar funk em capota de carro no sempre alegre Rio de Janeiro.

Seria muito importante fazer de São Francisco um bairro modelo. Sua beleza, os seus moradores e Niterói como um todo merecem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *