Saguis do Nordeste ocupam Niterói, exterminam passarinhos, transmitem herpes, raiva e sua reprodução está fora de controle

Em março, o jornalista e escritor Edney Silvestre escreveu no Facebook: “Muito estranho: todos os passarinhos – todos – desapareceram da vizinhança desde ontem. Isto não é uma metáfora. Repito: isto não é uma metáfora.” Não sei se lá na área dele os passarinhos voltaram, mas em Niterói a impressão é de sumiço. Repararam que os pardais sumiram? E também as rolinhas, o bem-te-vis são raros?

Voltei ao Campo de São Bento. Numa rua próxima, mais uma vez, vários ninhos de sabiás foram destruídos por saguis (semelhantes a micos). Na Região Oceânica, um amigo que já havia recebido um casal de sabiás três vezes, que fez ninho e teve filhotes num canto perto da garagem de sua casa, conta que os pássaros foram comidos pelos saguis. Havia canários da terra em profusão, mas também andam sumindo. Em Icaraí, Ingá e São Francisco não vejo um pardal há muito tempo.

O jornalista e ambientalista Emanuel Alencar explicou em matéria no Globo em 2013:

– Cobiçados nos anos 1970 e 80 no mercado ilegal de animais silvestres, os saguis de tufos-brancos (Callithrix jacchus) e de tufos-pretos (Callithrix penicillata), ambos popularmente conhecidos como micos-estrela, são originários das regiões Nordeste e Centro-Oeste. Eles se espalharam pelo Rio de Janeiro e por outros estados do Sudeste e do Sul do país levados pelo homem. Décadas depois a população explodiu e ameaça a sobrevivência das espécies nativas. Agora, especialistas defendem a erradicação dos bichos e causam polêmica.

A praga dos saguis se espalha por Icaraí, São Francisco e Ingá e outros bairros de Niterói. Pior: muita gente dá comida e a população em Niterói (me informam veterinários) já passou das quatro mil espécies. No Rio, mais de 25 mil. Tentando a salvação, os passarinhos pedem socorro ao mesmo ser humano que teve a boçal ideia de, mais uma vez, detonar o equilíbrio ambiental. Estão fazendo ninhos dentro de apartamentos, garagens, varandas, de preferência em áreas densamente urbanas para tentar escapar dos predadores.

A Lei de Crimes Ambientais abre espaço para a possibilidade de extermínio do animal em seu artigo 37. Não é crime eliminar espécies consideradas nocivas, desde que sejam classificadas dessa forma por órgãos competentes. Mas, como não há pesquisas suficientes sobre o impacto causado pelos símios, a polêmica pode durar anos. Enquanto isso, os passarinhos vão sendo eliminados.

Por isso, ouvimos sabiás cantando em plena Icaraí. Em determinado momento, comemorei. Erro! O canto é de desespero. Sabiás vem para a cidade fugindo dos algozes símios do Nordeste que alguns bípedes ditos inteligentes trouxeram de lá.

A situação pode ser mais grave. Falando com o Emanuel, André Ilha, na época diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), observou que os saguis também representam risco para os micos-leões-dourados (Leontopithecus rosalia) e outros primatas. Por terem contato prolongado com o homem, eles podem levar para a floresta doenças humanas. E também são uma potencial ameaça à saúde humana por levarem para as cidades microrganismos silvestres como o vírus da herpes, fatal para micos e macacos, e a transmissão do vírus da raiva para seres humanos.

O Laboratório de Ecologia de Mamíferos da Uerj castra quimicamente os saguis machos. O processo é o mais rápido, mas não o mais eficiente, diz Helena Bergallo, pesquisadora responsável pelo trabalho.

—Injetamos uma química para que o macho não reproduza. Esse processo é mais barato, porque não precisamos colocar o bicho em quarentena, prescindindo de uma estrutura de cativeiro para o acompanhamento das cirurgias. Se deixarmos de castrar um macho apenas, ele copula e todo o trabalho é perdido — explica.

E agora?

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