Romance policial que discute intolerância religiosa, ambientado em São Gonçalo, ganha mini documentário

Intolerância religiosa em São Gonçalo discutida em diferentes plataformas. Um romance policial, que trata sobre o tema, está prestes a se tornar capítulo de uma série documental que irá abordar livros que mostram o que cada localidade tem para oferecer.

O mini documentário “Lugares que Inspiram Livros”, produzido pelo coletivo audiovisual Moinhos de Vento (uma referência literária, a Dom Quixote), estreou na última segunda-feira (22), no canal Aerolivros Brasil, do YouTube, e terá a obra “Macumba”, lançada há quatro anos, do autor gonçalense Rodrigo Santos, como primeiro livro a ser explorado.

Segundo Santos, que também é professor da rede pública niteroiense e morador de São Gonçalo, a ideia para escrever “Macumba” surgiu após uma aluna preferir afirmar que raspou os cabelos por conta de uma suposta leucemia que dizer que se tratava de um ritual relacionado ao Candomblé. O objetivo do livro é discutir sobre intolerância religiosa.

“Além de escritor, sou professor da rede pública. Uma vez, fui fazer um trabalho em uma escola e soube do caso de uma menina que havia passado por um ritual de iniciação do Candomblé em que o adepto precisa raspar a cabeça; essa menina então preferiu dizer na escola que estava com leucemia para não sofrer preconceito religioso em forma de bullying. Isso me chocou de uma forma muito violenta; uma criança  de 12, 13 anos preferir simular uma doença fatal a assumir a sua própria ancestralidade, manifestada através de sua religiosidade. Daí pensei: ‘O que posso fazer?’ – e decidi fazer o meu melhor, que é escrever. Escrever sobre, trazer à luz um tema tão ignorado, e por isso tratado com desdém e preconceito. Minha primeira intenção é sempre contar uma boa história, e acho que fui muito feliz no ‘Macumba’ por isso: não é um livro didático que ensina sobre religiões afro-ameríndias; é um romance policial, com elementos dessas religiões”, contou o escritor, que também explica um pouco sobre o tema da obra.

“Macumba” é um romance policial sobre um detetive evangélico, que descobre os próprios preconceitos, ambientado em São Gonçalo. Com isso, o autor buscou referências de seu dia a dia para conceber a obra. Ele também traça um paralelo com cidades de todo o mundo, retratada em outras peças literárias, de autores consagrados.

“Ah, o escritor sempre busca referências eu seu repertório, né? Seja de vivências ou de ‘ouvivências’ (sic). Mas o principal, pra mim, é ambientar a minha história em minha cidade. Em lugares reais, onde cresci e por onde passo todos os dias. Eu sou um leitor voraz, cresci lendo e conhecendo a Londres de Arthur Conan Doyle, a New Orleans de Anne Rice, a Bahia de Jorge Amado. Então agora é hora de conhecerem a São Gonçalo de Rodrigo Santos”, enfatizou.

Além de discutir sobre temas relativos à religião, o autor revela que um dos objetivos do livro é fazer com que o gonçalense entenda que a cidade onde vive é um lugar vivo. Rodrigo Santos também destaca que o fato de a história ser ambientada em São Gonçalo teve repercussão muito positiva.

“Um dos maiores problemas do gonçalense é a autoestima, tanto é que muitos preferem, na descrição de suas redes sociais, dizer que moram em Niterói. Acredito que, para além da questão do racismo religioso, o livro possa servir de espelho, para que as pessoas ali se vejam e percebam que a sua cidade é matéria de literatura sim, e que mesmo com suas mazelas, é um lugar vivo. Eu recebo muitos feedbacks positivos sobre o livro, e o melhor: de pessoas de todas as religiões. Outro ponto acertado é a ambientação na cidade, muitos vêm me dizer: ‘puxa, nunca imaginei que leria uma história passada na Praça do Mutuá, ou no Pita’. É importante a referência, ver-se representado, e creio que o ‘Macumba’ cumpra bem esse papel”, orgulhou-se.

Projeto é financiado pela Lei Aldir Blanc

O mini documentário “Lugares que Inspiram Livros” é inteiramente financiado pela Lei Aldir Blanc, com repasse feito pela Prefeitura de São Gonçalo, através da Secretaria Municipal de Cultura. Wemerson Peu, produtor e editor do documentário, explica como surgiu a proposta de iniciar a produção.

“Eu recebi uma proposta do Rennan (Rebello, idealizador do canal Aerolivros Brasil), que ultimamente tem trabalhado com livros. Surgiu essa possibilidade do edital da Lei Aldir Blanc e nós já fazemos projetos audiovisuais, ele perguntou se eu participar na parte de edição, direção e tudo mais”, contou.

“Ele já tinha lido o livro do Rodrigo Santos e percebeu que se enquadrava perfeitamente nas suas propostas. Nós conversamos muitos sobre como seria o processo. É um livro de ficção, um romance policial, em que o personagem é um detetive evangélico que, ao decorrer da história, vai descobrindo o próprio preconceito que ele tem. A gente vai tendo uma lição a respeito do que são as religiões de matrizes africanas. É um livro de ficção que conta muito sobre história e cultura”, explicou.

Os produtores não querem parar por aí. Segundo Wemerson, a ideia é expandir para outros livros que retratem a identidade de outras localidades. “A ideia é fazer uma série, com outros episódios. Esse foi o piloto, então pretendemos trazer outros autores, em outros lugares e até outros estados. Depois vamos estudar a repercussão que vai ter esse primeiro. A gente não sabe se vai ser viável, mas a pretensão nós temos”, concluiu.

Vítor d’Avila

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