“Queremos ser a nova esperança”

Camilla Galeano e Alan Bittencourt

O mais novo candidato da corrida eleitoral à Prefeitura de São Gonçalo, Isaac Ricalde (PCdoB) se apresenta como o representante da nova política. Ele acredita que é possível transformar a realidade das pessoas a partir da política. Entre suas propostas, está a de criar uma empresa pública de lixo de coleta de lixo para oferecer um serviço de melhor qualidade. Na Educação, promete criar pelo menos 15 mil vagas em creches para atender uma demanda crescente no município. Isaac pretende ainda criar uma agência de desenvolvimento econômico com a finalidade de atrair novos negócios para a cidade e aquecer a economia. Na Saúde, se comprometeu a acabar com o que chama de loteamento dos postos de saúde pelos vereadores, o que prejudica o atendimento na ponta.

A TRIBUNA – O senhor é novo no meio político. Como se apresenta aos eleitores?

Isaac Ricalde – Sou de fato candidato pela primeira vez. O único candidato que concorre pela primeira vez e o mais jovem também, tenho 35 anos. Mas estou na política há muito tempo. Há 20 anos, comecei no movimento estudantil. Sou concursado da Prefeitura há 10 anos. Desde então faço movimento social. Conheço o serviço público, sei das dificuldades que a cidade tem. Elaboramos um plano de governo para enfrentar essas dificuldades e para fazer São Gonçalo andar para frente. Não tenho ninguém na família na política. Sou filho de pai lanterneiro e mãe do lar. Sempre estudei na escola pública. Eu faço política porque acredito que é possível a gente transformar a realidade das pessoas a partir da política.

AT – Por que, no meio de um cenário complicado na política, o senhor quer ser prefeito em São Gonçalo, uma cidade onde o que não faltam são problemas?

Isaac Ricalde – O que nos motiva é constatar que ao longo dos últimos anos a cidade não se desenvolveu, mas na verdade acumulou mais problemas. São Gonçalo é uma cidade importante, com mais de 1 milhão de habitantes e a segunda maior cidade do Estado do Rio de Janeiro. Pertence à segunda Região Metropolitana mais rica do país e que tem muito potencial para se desenvolver e oferecer uma maior qualidade de vida para sua população. Infelizmente a forma como se faz política em São Gonçalo impede que a cidade ande para frente e enfrente esses problemas.

AT – A disputa eleitoral em São Gonçalo costuma seguir para o segundo turno. Caso o senhor avance, há possibilidade de estabelecer alianças com adversários?
Isaac Ricalde – Sempre há a possibilidade. Mas há um critério para essas alianças. Apresentamos um programa de uma maneira muito colaborativa. Se a gente não precisar abrir mão desse programa, não há problema. Não aceitamos estabelecer um loteamento do governo, que faz parte do jeito velho de fazer política.

AT – O senhor fala em reduzir em pelo menos 50% o quadro de funcionários comissionados. Atualmente quantas pessoas ocupam cargos comissionados na prefeitura de são Gonçalo? O senhor pretende fazer concurso para preencher essas vagas?
Isaac Ricalde – Faremos concurso, sim. É muito difícil precisar esse número porque na verdade eu proponho reduzir o número de cargos comissionados, que gira em torno de 1.802 cargos, além dos RPA’s, que não sabemos quantos são. São indicações de vereador ou secretário. Precisamos recompor o quadro de servidores, que está defasado. Ao longo de 10 anos perdemos 2 mil servidores efetivos, o que compromete o serviço à população e a saúde do sistema da previdência. Temos carência de pessoal, precisamos recompor e vamos recompor.

AT – Devido à pandemia, a maioria dos alunos da rede municipal não teve o devido acesso ao conteúdo pedagógico por não ter acesso às aulas online. Qual o plano para que essas crianças não fiquem para trás no conteúdo e voltem à escola em segurança?
Isaac Ricalde – Não defendemos a volta às aulas na pandemia, só quando houver segurança. Existem vacinas sendo desenvolvidas e há expectativas de que sejam disponibilizadas num espaço curto de tempo. Enquanto não houver segurança não é adequado que a gente tenha o retorno. Precisamos proteger as crianças e suas famílias. A saúde das pessoas em primeiro lugar, inclusive dos profissionais de Educação. É preciso um planejamento a partir de um diálogo com os profissionais de Educação, sindicatos, com a comunidade escolar para que a gente possa repor essa perda do ponto de vista pedagógico.


AT – Seu plano de governo fala em oferecer, pelo menos, 50% da oferta de creches. É uma das maiores reivindicações das mães que precisam trabalhar e não têm com quem deixar seus filhos. Como seria essa oferta?

Isaac Ricalde –Temos uma defasagem muito grande. São Gonçalo oferece poucas vagas. O critério hoje não é de quem mais precisa, mas do vereador da base que indica. Queremos atender mais 15 mil vagas em creches. A gente não pode admitir que nenhuma mulher deixe de trabalhar ou estudar por não ter com quem tem deixar seus filhos. É uma questão de justiça social.

AT – Na saúde, a população de São Gonçalo reclama muito na demora do atendimento. É possível resolver essa questão na saúde de São Gonçalo?

Isaac Ricalde – Quem precisa ter acesso a um exame mais complexo ou uma consulta especializada morre na fila. Não é possível que a gestão da Saúde seja feita da mesma forma que é feita hoje. Todos os postos de saúde têm um vereador que indica um administrador e toda a equipe. Quando o vereador briga com o prefeito toda a equipe é trocado. Isso prejudica o serviço na ponta. É importante que a gente possa ter um sistema de marcação de consulta eletrônico. Usar a tecnologia para promover a justiça no atendimento à população e reduzir a interferência política.


AT – A população mais carente de São Gonçalo é a que mais sofre com as tributações de iluminação Pública e de Lixo. O senhor fala que, caso seja eleito, vai reduzir a contribuição de ambas as taxas. Como reduzir essa taxa e oferecer um serviço de qualidade nas áreas?

Isaac Ricalde – São Gonçalo arrecada R$ 40 milhões com o lixo e gasta R$ 100 milhões. Frequentemente existem denúncias de corrupção. A gente propõe a criação de uma empresa pública de coleta de lixo para oferecer um serviço de melhor qualidade. A coleta é muito irregular em diversos pontos da cidade. Com a empresa pública a gente reduz bastante o custo, oferecer um serviço de qualidade e, com isso, reduzir a taxa. A gente precisa, na outra ponta, melhorar a arrecadação de ISS. Arrecada-se pouco. Precisamos de um departamento na Secretaria de Fazenda que cuide de grandes contribuintes. Bancos e cartórios são grandes devedores. Precisamos promover também uma justiça tributária. Quem pode, paga mais, que não pode, paga menos. Em IPTU, o que estamos propondo é, em áreas de grandes vazios urbanos, que seja aumentado o valor. Quem tem muitos imóveis pode pagar mais do que quem tem apenas um.

AT – Alcântara tem um grande potencial para ser um centro de comércio popular. O que o senhor tem de projeto para Alcântara?
Isaac Ricalde – A gente propõe a revitalização do Alcântara. É um polo regional de comércio popular. Alcântara tem um trânsito caótico e uma desordem urbana muito grande. Muitas pessoas preferem comprar em Niterói por esses motivos. É um local sujo, à noite mal iluminado. Se a gente organiza, pode desenvolver a região. Precisamos de um terminal que possa organizar aquele trânsito. A gente pode substituir o viaduto por um túnel, uma praça grande. Precisamos começar até o meio do nosso mandato, é um compromisso que está no nosso programa. São Gonçalo precisa desenvolver a economia para gerar emprego na cidade para a população, que precisa deixar o município para trabalhar.

AT – Seu plano de governo fala em reconhecimento do direito dos animais. Qual seu projeto nessa área?
Isaac Ricalde – Eu adoro animais desde criança. Uma parte da população não condições de garantir a saúde dos seus animais. Não há um plano de castração para um controle populacional. A gente precisa garantir o mínimo de assistência aos animais, que precisam ser protegidos pelo poder público.


AT – Na questão da mobilidade o senhor chegou a falar que era inadmissível são Gonçalo só ter uma opção de transporte público, que são os ônibus. Seu plano de governo fala da construção de ciclovias e do terminal das barcas. Como conseguir recurso para colocar isso em prática?
Isaac Ricalde – A concessão das barcas é de responsabilidade do Governo do estado. Sempre que há licitação, e haverá no ano que vem, tem que investir nas estações. São Gonçalo não tem estação. Os últimos prefeitos não se posicionaram com uma liderança política. Temos que garantir que o investimento pela concessionária. Se não investir, que perca o monopólio. As empresas de ônibus exercem uma influência política muito grande. E exercem uma influência econômica nas campanhas eleitorais. O atual vice-prefeito, quando foi vereador, foi o maior defensor das empresas de ônibus. Inclusive, ele propôs uma lei que deu exclusividade para as empresas de ônibus. Em São Gonçalo, não pode ter nenhum outro tipo de transporte. Vamos rever esse contrato. Um exemplo: em São Gonçalo é proibida a dupla função de motoristas. Tem que ter cobrador, mas as empresas descumprem a lei e a Prefeitura não faz nada, sequer aplica multa. Poderia gerar 3 mil empregos na cidade. A gente precisa pensar um plano de mobilidade. A cidade não tem ciclovia. Andar de bicicleta em São Gonçalo é risco de vida. Até andar a pé é difícil, com as calçadas esburacadas, quando há calçada.

AT – A pandemia do coronavírus colocou em evidência um problema que afeta o país todo, que é o desemprego. Por quanto tempo você acredita que o município ainda vai sofrer as consequências na economia? E como retomar o crescimento?
Isaac Ricalde – A depender do projeto econômico do Governo Federal, vamos sofrer as consequências por muito tempo. Não existe nenhuma iniciativa ou estímulo à retomada da economia. O atual prefeito não apoiou a população que mais precisa na pandemia. O prefeito escolheu não ajudar. Temos que apoiar as empresas, sobretudo as pequenas. Estas, sem ajuda do Governo, acabam fechando as portas e postos de trabalho. A médio prazo, vamos estabelecer um plano de desenvolvimento econômico da cidade. Para isso, é preciso resolver problemas estruturais, como a mobilidade para criar um ambiente de negócios mais favorável. Vamos criar uma agência de desenvolvimento econômico, que vai atrair novos negócios para a cidade. Vamos reagir ao esvaziamento econômico, atrair os investidores chineses. Vamos apoiar os pequenos empreendedores. Faremos um plano de obras públicas.

AT – Na segurança do município. Qual o seu projeto? O senhor é a favor do armamento da Guarda Municipal?
Isaac Ricalde – Sou contra o armamento da Guarda Municipal. Em Niterói houve um plebiscito e a população votou contra. Em São Gonçalo não houve plebiscito porque não há interesse em consultar a população. Eu entendo que essa não é a vocação da Guarda Municipal. É oferecer patrulhamento ostensivo, estar presente nas áreas de grande circulação da cidade, ser referência positiva para a população. Além disso, o efetivo é muito pequeno e com problemas operacionais. A remuneração também precisa ser vista. Quando um guarda se afasta por problema de saúde, ele perde grande parte da remuneração, que são gratificações. Isso desestimula o profissional. Queremos criar um centro integrado para reunir a Guarda e as polícias.

AT – O senhor fala no plano de governo em construir um novo teatro com capacidade maior que a do teatro que já existe. Por que construir outro teatro? Ampliar a capacidade do que já existe não seria mais econômico?
Isaac Ricalde – O último grande investimento antes desse teatro foi a lona cultural do Jardim Catarina através de uma emenda da deputada federal Jandira Feghalli, que é do meu partido. O orçamento da Cultura hoje é para pagamento de pessoal. Do cerca de R$ 1 milhão, pouco mais de 80% é para pagamento. Não se investe em Cultura em São Gonçalo. Vamos viabilizar 1% do orçamento da cidade para a Cultura. A população precisa consumir cultura. O atual teatro teve indícios de superfaturamento na obra. A atual gestão tem uma visão de que a Cultura é uma futilidade. E não é. Agrega valor ao indivíduo. Tem uma dimensão econômica. A Cultura é responsável por 2% do PIB nacional. A gente pretende construir um novo teatro porque o existente tem a capacidade muito limitada, de apenas 250 lugares. Além disso, São Gonçalo comporta mais de um teatro público porque a demanda é muito grande. O atual torna muito difícil trazer espetáculos maiores.

AT – É possível desenvolver uma política de turismo que dê retorno financeiro ao município?
Isaac Ricalde – É possível. A gente acha que tem muito potencial. São Gonçalo é uma cidade muito bonita, com belezas escondidas. Temos uma orla muito bonita, as Praias da Pedrinhas e da Beira, a Ilha de Itaoca, que infelizmente hoje enfrenta uma situação de violência muito séria. Temos o Alto do Gaia, que é o ponto mais alto da cidade e pode ser usado para a prática do salto de parapente. Temos as áreas de proteção ambiental que são belíssimas. Uma área para fazer ecoturismo. Temos ainda a Fazenda Colubandê, do século XVI, cujas origens da cidade estão ligadas. Precisamos explorar esse potencial turístico.

AT – Em 2013 foi anunciado que seria construído um estádio de futebol no Jardim Catarina. Mas já estamos em 2020 e até agora nada. O que o senhor tem de projeto nessa área?
Isaac Ricalde – São Gonçalo é a única cidade com mais de 1 milhão de habitantes do Brasil que não tem um estádio de futebol e um ginásio público. Não é possível que todas as outras cidades estejam erradas e São Gonçalo certa. Temos um grande potencial de formação de atleta em nível profissional. Já fomos a base da Seleção Brasileira de handebol. Faremos a manutenção dos campos de várzea para garantir qualidade de vida para as pessoas. Investir em esporte é investir em Saúde também.

AT – De maneira geral, onde o senhor acha que a gestão atual errou? O que fará diferente?

Isaac Ricalde – O governo atual errou porque não tem um projeto de desenvolvimento para a cidade. Não sabe o que quer para São Gonçalo, o que é uma característica dos governos anteriores. Eles fazem o governo do caos. São Gonçalo é uma cidade que não dá para ligar o piloto automático. Não é Niterói e Maricá, que têm arrecadação de royalties. Nossa cidade tem uma arrecadação muito baixa, a mais baixa do Estado do Rio. É necessário estabelecer novas relações políticas. Tem que ter projeto e a mudar a forma de fazer política. O governo de José Luiz Nanci não tem um nem outro.

AT – Qual recado gostaria de deixar para seus eleitores?

Isaac Ricalde – Quero mais uma vez agradecer ao jornal A TRIBUNA pela oportunidade. Nesse momento a gente precisa garantir o debate democrático. O fato de eu ser o mais novo candidato é simbólico. Nossa candidatura se propõe a ser mensageira da esperança. Quero pedir ao eleitor que reflita. Ou continuamos no rumo de andar para trás ou decidimos mudar. E mudar não pode ser com quem ajudou a construir o caos, mas sim que se propõe a construir o novo.

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