‘Queremos governar para os trabalhadores’

Camilla Galeano e Alan Bittencourt

Na quarta-feira (28), o professor Sergio Perdigão, candidato pelo PSTU à Prefeitura da cidade, foi o entrevistado da série promovida A TRIBUNA. Sobre seus projetos, ele deseja a participação popular em um possível mandato. Para ele, a classe trabalhadora deve decidir o futuro da cidade através dos Conselhos Populares, que teriam mais poder que a Câmara dos Vereadores. Na área de Segurança Pública, o socialista criticou o Programa Niterói Presente. Para aumentar a capacidade de investimento, ele defende suspender o pagamento dos juros da dívida pública. Perdigão também afirmou que em seu governo as escolas permanecerão totalmente fechados enquanto a pandemia não for superada

A TRIBUNA – Inicialmente a candidata do PSTU seria a Danielle Bornia. Por que o partido fez essa substituição?
Sergio Perdigão – O que aconteceu foi uma das consequências da democracia falsa que a gente tem no Brasil e no mundo. Tivemos o atraso do envio de um documento. Não temos funcionário pago dedicado para isso. Faltava o registro de um advogado que a gente usava na campanha. Foi aberto um processo de indeferimento dos direitos políticos da companheira Danielle. A gente acha injusto, mas respeitamos o que a Justiça Eleitoral determina e nem entramos com recurso. Achamos estranho é que em Belford Roxo um miliciano que está preso é candidato e não teve a candidatura indeferida. Estamos mais concentrado em fazer é apresentar nossas propostas para a cidade, diferente de tudo que a gente vê por aí hoje.

AT – Já é a segunda vez que o senhor concorre pelo PSTU. Em 2016 concorreu para vereador, mas não foi eleito. Quais são as diretrizes e as ideologias do partido?
Sergio Perdigão –
Sou professor da rede estadual. Trabalho em Niterói, na Escola Macedo Soares, no Barreto. Comecei na militância em 1998. Estou na luta sindical já há bastante tempo. Optei pelo PSTU porque acho que tem a proposta mais equilibrada e consistente. Nossa linha principal é de mobilizar os trabalhadores para chegar ao poder através de suas lutas, não através das eleições, pois como já disse a eleição é injusta e não vão resolver os problemas dos trabalhadores. A vida só piora. Os trabalhadores só participam da democracia na hora do voto. Nas favelas a democracia não chega de jeito nenhum. Só chega a polícia, a repressão. Para nós, a democracia é muito mais que isso, de participação ampla dos trabalhadores. A gente quer implementar os conselhos populares, que são a organização dos trabalhadores por atividade profissional e por bairros. São eles que sabem as necessidades que precisam colocar em prática. Os trabalhadores do transporte sabem o que precisa. Já os da educação sabem melhor que ninguém, que qualquer ministro ou secretário de educação, o que a escola está precisando.

AT – Caso o senhor seja eleito, como será o diálogo com a Câmara dos Vereadores, já que provavelmente o senhor terá uma forte oposição?
Sergio Perdigão – A minha relação principal será com os Conselhos Populares, que estarão acima da Câmara dos Vereadores. Os trabalhadores organizados decidirão tudo sobre o orçamento.

AT – Caso eleito, sendo praticamente novo nesse meio político, sem representante tanto no município, como em Brasília, o que o senhor fará para buscar recursos públicos para investimentos na cidade?
Sergio Perdigão – Nossa linha de atuação política é falar bem claro. A solução para buscar recursos para investimentos é uma revolução socialista que tire das mãos das grandes empresas de decidir tudo. A gente tem que romper com todos os princípios capitalistas e fazer com que as verbas públicas sejam canalizadas para as necessidades dos trabalhadores. Temos que romper com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que na verdade é uma lei de irresponsabilidade social. Significa garantir para os banqueiros que a maior parte do orçamento público vá para eles. Tem que suspender o pagamento dos juros da dívida pública. O Brasil paga entre 40% e 45% do orçamento com os juros. Com esse percentual daria para construir muita escola, implementar a tarifa zero no transporte, valorização dos profissionais do serviço público para que a população pudesse ter um atendimento que ela merece e precisa. A gente não quer diminuir o Estado. A ideia de um Estado menor vá atender melhor às necessidades é um ideia falsa.


AT – Em um debate que a Danielle Bórnia participou recentemente, ela chegou a dizer que não governaria para todos, mas sim para os trabalhadores. O senhor concorda com essa afirmação dela e também vai seguir esse pensamento caso eleito?
Sergio Perdigão – Concordo e reforço. Quem diz que governa para todos no mínimo está mentindo ou está enganado. Já tivemos um governo que dizia governo dos trabalhadores, o do PT, cujo slogan era “Brasil, um país de todos”. Isso é impossível, pois existe uma contradição do capitalismo, que coloca de um lado a classe exploradora, a burguesia, e de outro a classe trabalhadora, que é a que produz a riqueza. O bem estrar de um significa o mal estar de outro. O prefeito é, portanto, um administrador que vai colocar a decisão dos conselhos, que terão poder acima da Câmara e do prefeito.

AT – Quais as tuas propostas para a mobilidade urbana?

Sergio Perdigão – Sabemos que o transporte público em Niterói é caótico, caro e de má qualidade. Não atende a todos, principalmente nas áreas mais periféricas da cidade. Por que não existe um plano equilibrado de transporte público? Porque na verdade o que faz a organização das linhas de ônibus é a necessidade de lucro das empresas. Na Câmara não existe um plano que atenda de fato às necessidades dos trabalhadores. Atende às necessidades dos empresários. O transporte tem que ter o dia inteiro, com qualidade, sem muita espera, principalmente para as mulheres que sofrem violência nessa espera. Queremos valorizar as ciclovias, melhorar o serviço de barcas. Esse modelo de administração do transporte público não pode ficar nas mãos dos empresários.

AT – Caso eleito, em janeiro o senhor assume. E a gente sabe que é um mês conhecido por fortes chuvas. Muitas obras de contenção foram feitas no município para evitar novas tragédias, mas ainda há uma grande expansão de comunidades em áreas de risco. Como evitar isso?
Sergio Perdigão – Primeiro temos que garantir casa própria para todos os trabalhadores. A gente propõe que todo mundo que mora em área de risco e todo mundo que mora nas ruas precisa, para ontem, morar em casas ou apartamentos. Nossa proposta é retirar os imóveis das grandes imobiliárias e garantir para todo mundo que precisa. Urbanizar as favelas onde isso for possível. Tem que construir casas e apartamentos para toda a população. Tudo isso é muito importante, pois atende às necessidades dos trabalhadores de moradia segura, o que gera empregos. A gente propõe a criação de uma empresa pública de obras, controlada pelos trabalhadores, que tenha como objetivo construir tudo que a classe trabalhadora precisa. A gente fala de moradias, escolas, postos de saúde, hospitais.

AT – Como o senhor pretende resolver o problema da falta de vagas em creches no município?

Sergio Perdigão – Esse é um problema que afeta muito as mulheres, principalmente as trabalhadoras, que não sabem onde deixar seus filhos. Há uma carência enorme de creches públicas e a gente precisa investir na construção dessas creches para garantir que essas mulheres possam deixar seus filhos em segurança e poder trabalhar com tranquilidade. A gente precisa investir na libertação da escravidão doméstica que as mulheres sofrem. Então vamos investir em restaurantes populares, lavanderias públicas para garantir essa libertação. A gente pretende acabar com a dupla jornada e até mesmo com a tripla jornada que as mulheres sofrem.

AT – Em uma entrevista aqui mesmo em A TRIBUNA, a Danielle disse que acabaria com o cabide de empregos na Prefeitura. Qual a sua opinião sobre a estrutura de gestão da prefeitura e como o senhor montaria a sua estrutura?
Sergio Perdigão – Tem que ter as secretarias que são necessárias, como Educação, Saúde, Transporte, geração de empregos. Os trabalhadores das escolas se reunirão para definir o que for melhor para as escolas. Essas pessoas seriam eleitas pelos Conselhos Populares para implementar nas políticas públicas definidas pelos Conselhos. Teriam salário de uma professora do Ensino Fundamental, inclusive os vereadores. Pela nossa proposta, o cabide de empregos torna-se desnecessário. Nossa proposta é emprego pleno. Com a redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais, o que vai aumentar a oferta de emprego.

AT – O governador em exercício, Claudio Castro, publicou em sua rede social que se reuniu com o presidente da Alerj e do STF para pedir o adiamento do julgamento sobre a proposta que altera a distribuição dos royalties do petróleo entre os estados e municípios. Caso a decisão do STF seja pela redistribuição, como Niterói fica no próximo ano com esse corte de verba?
Sergio Perdigão – Em Niterói, os royalties representam pouco mais de um terço do orçamento, que paro ano que vem é de R$ 3,6 bilhões, um dos mais ricos do estado, e uma parte dele vem dos royalties. Vamos lutar pela manutenção e uma melhor distribuição das riquezas.

AT – Até agora não temos nenhuma data com certeza de que a vacina chegará. No próximo ano ainda estaremos vivendo uma pandemia. Sobre a volta às aulas, esse ano somente os alunos do 3º ano do ensino médio retornaram por causa do Enem. Mas as outras crianças não podem ficar sem estudar. E sabemos que muitas crianças não estão tendo acesso que deveriam ter ao material pedagógico, por causa da falta de acesso à internet. Como o senhor pretende tratar essa questão do retorno às aulas para todas as crianças?
Sergio Perdigão – A gente quer manter as escolas totalmente fechadas até o final da pandemia. O retorno precipitado sem vacina ou testagem para todos é ampliar a capacidade da pandemia se manter. A reabertura das escolas significa colocar na rua milhares de pessoas. Isso é muito sério. A pandemia foi criada pelo interesse do grande capital. As madeireiras derrubaram as florestas e fizeram com que o vírus chegasse ao ser humano. O capital não garantiu quarentena para todo mundo e nem vacina de forma acelerada.

AT – O ISP divulgou alguns dados apontando a diminuição da violência no município. O senhor acha que o Niterói Presente e o monitoramento feito no CISP têm influência direta nessa queda ? Qual seria o seu plano para a área de segurança pública?
Sergio Perdigão – Esse programa é uma reprodução de que se conseguirá mais segurança com mais polícia nas ruas. O policiais que fazem parte estão fazendo hora extra. A violência é uma questão de melhores condições para a população, com mais emprego, melhores salários, mais educação. Assim se combate a violência urbana. A polícia é necessária, mas tem que ter outro perfil. A ideia do enfrentamento só existe para manter a dominação da classe burguesa sobre a trabalhadora.

AT – A indústria naval já foi muito forte no município. A prefeitura conseguiu a licença para a dragagem do Canal de São Lourenço, que é esperada há 40 anos. O senhor acha que essa obra é a solução para reaquecer essa área no município?

Sergio Perdigão – Para reaquecer a economia e gerar empregos precisamos construir mais pontos de barcas, mais escolas. A recuperação da indústria naval tem que estar a serviço dos interesses da classe trabalhadora. Uma navegação que barateia a chegada de alimentos produzidos do interior do estado, a gente pode fazer em vez de produzir em petroleiros, mais barcas para ter uma conexão entre os municípios da Baía. Temos que pensar em pessoas que são totalmente alijadas do emprego, que são as pessoas LGBT, principalmente as mulheres trans, por causa do preconceito. Mais de 90% das mulheres trans não têm acesso ao emprego. Temos que garantir uma cota de empregos para as transsexuais.

AT – Hoje (dia 28), o presidente Jair Bolsonaro anunciou um decreto que permitiria a privatização das Unidades Básicas de Saúde. Devido à repercussão negativa ele voltou atrás. O que senhor pensa dessa questão? E quais são as tuas propostas para a Saúde?

Sergio Perdigão – Essa revogação é perene. Recuou por conta da repercussão negativa. A privatização é um projeto geral. A Saúde pública está privatizada em grande parte do país. Acabar com essa promiscuidade do que é público com o privado. As OS’s têm que ser retiradas do serviço de Saúde. A Saúde não pode ser uma mercadoria. Não podemos deixar que só quem tem acesso à Saúde privada tenham acessoas a exames e internação. Temos que garantir verba pública para a Saúde. Precisamos ampliar a oferta de Saúde e garantir que os trabalhadores da Saúde tenham segurança nos trabalhos. Hoje, menos de um terço dos trabalhadores da saúde são servidores efeitos. Isso gera distorções. Vamos fazer concurso público para que tenham condições de atender a população.


AT – Qual mensagem o senhor gostaria de deixar para os eleitores?
Sergio Perdigão – Agradeço à TRIBUNA a oportunidade de mostrar nosso programa. Faço um chamado a todos os trabalhadores a participar e construir junto com a gente esse projeto. O PSTU está propondo, mas não vai tocar esse projeto sozinho para que a gente vire essa sociedade a nosso favor.

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