Quase duas horas na fila do banco

Luiz Antonio Mello

Icaraí. Vamos dar um voo até terça-feira, dia 10, povo lânguido cruzando a rua transformista que faz a calçada virar uma espécie de trampolim de clube; estreito, banhado de filtro solar, logo escorregadio, com a macabra diferença: quem vacila não cai n’água mas debaixo dos ônibus que tiram fininho em alta velocidade.

O gado a la Zé Ramalho (êêêê ôôôô vida de gado, povo marcado, povo feliz) estava amontoado dentro de uma agência bancária, todos com senhas nas mãos. Lembrava o início da gloriosa Revolta das Barcas, 1959, odor de vingança, injúria e indignação do gado prestes a perder a cabeça. Ou sessão de cinema do extinto Central, cravado ao lado da extinta Hidrovita e da extinta Padaria Pão Quente defronte ao extinto Snoopy. Sessão dupla: “Apocalype Now”, de Francis Ford Coppola e “Black Emmanuelle”, de Bito Albertini, clássico do baixo clero dos cinéfilos. Terror e êxtase.

No suplício da fila, senhoras com várias décadas nas costas estavam a quase duas horas tentando chegar ao caixa, que fica escondido atrás de uma parede. Um senhor de bengala, em pé (todas as cadeiras estavam ocupadas) comentava, voz quase alta, que “é por isso que cometemos um ilícito”, popular quebra quebra. A anciã com uma bolsa azul marinho se indignava: “e ainda dizem que existe uma lei que proíbe filas com mais de 15 minutos em banco”. Um senhor franzino, levemente esverdeado, olhando para o chão resmungou “Lei Municipal no. 2312, de 30/03/2006”. “O senhor é advogado?”, perguntou uma anciã”; “não, sou vítima da sociedade”, rebateu o franzino sempre olhando para o chão, clone de Wilson Grey. “Sabia que essa Lei foi derrubada pela 2624/2008?, indagou a anciã. Breve mutismo.

De vez e quando um segurança branco e gordo, com aquele rebolado de miliciano de filme mexicano, fazia cara de mau e desfilava por ali com a mão no coldre. “Eu sou professora aposentada, 70 anos”, revelou uma bem-apessoada senhora de cabelos grisalhos, voz doce. “O senhor não pode chamar uma pessoa de gorda e muito menos inserir diálogos na mesma linha. No máximo pode se referir a pessoa como adiposa. Nem obesa pode, entendeu?”. “Diálogos na mesma linha são para economizar espaço no jornal e mesmo assim não configuram erro”.

Quando a temperatura começou a subir (temperatura ambiente porque a emocional do gado já havia entrado em ebulição) um homem de macacão anunciou: “desligaram o ar condicionado”. No fundo do estabelecimento existe uma espécie de curral para idosos, e o homem tinha vindo de lá. Esperou duas horas e cinco para ser atendido. “Para economizar luz eles reduziram o ar condicionado, tem senhoras se abanando lá atrás.” O segurança adiposo-rebolador-carinha de mau deu outra desfilada como se dissesse “melhor calar a boca senão viro macho”.

“Ele até lembra aquele filho do presidente que só faz merda”, disparou um motorista de ônibus. “Qual deles?”, perguntou uma enfermeira, “ahhh, ali tanto faz. O franzino, olhando para o chão: “Não odeio nada nessa vida, nada. Só uma coisa: segurança de banco”. Achei que, na sequencia, ele ia puxar uma Uzer e detonar tudo, mas ele voltou a ruminar o ódio contido, ódio de gado. Parecia O Cobrador, personagem de Rubem Fonseca.

Um homem com roupa de Papai Noel, suado, gorro e barba nas mãos, saiu de trás da parede e falou para a multidão: “a caixa disse que é assim mesmo porque hoje é dia 10”. A multidão gemeu “ahh, bom, está explicado”. Vida de gado que segue, chorando sem sentir dor.

Post scriptum – O professor Luiz Carlos Lessa frequenta a minha galeria de heróis. Nos anos 1990, tornou-se o meu mentor no tema Arariboia graças ao seu livro “O Cobra da Tempestade”. Vou procurá-lo para atualizar meu parco saber sobre os bravos temiminós.

Post scriptum – A imagem que desse artigo é meramente ilustrativa.

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