Quando essa ´gente esverdeada` mostrou o seu valor

Quatro horas da manhã do dia 1º. de março de 1982. Duas horas depois a Rádio Fluminense FM entraria no ar, após uns oito meses de muito, muito, muito, muito trabalho que compartilhei com dois caras sensacionais: Sergio Vasconcellos e Amaury Santos.

Virando mais uma noite, a mais especial de todos aqueles meses, nós três nos abraçamos e pedimos para o operador de áudio gravar. Falamos “Fluminense FM, Maldita!”. Foi assim que nasceu o codinome Maldita.

Por que? Tocávamos Frank Zappa, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Devo, Sergio Sampaio, muitos malditos, mas acima de tudo as ideias, fala, o texto da rádio também era maldito. Por isso gravamos e o apelido pegou.

Nós três levamos nossos discos pessoais para a rádio. Todos eles, milhares de vinis. Sergio me apresentou ao Dexy´s Midnight Runners, ao XTC, Amaury me mostrou o grupo Rumo e a todo o bando da Lira Paulistana. Retribuí tocando para eles o Neu, Van Der Graaf Generator e a uns artistas brasileiros ultra alternativos que conheci através de Marcos Kilzer e Jorge Davidson na Rádio Federal (que também era rock) onde comecei no rádio.

Dessa mistura eu fiz uma brincadeira com “Brasil Pandeiro”, de Assis Valente que os Novos Baianos gravaram e fez o maior sucesso. Substituí “chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor” por “chegou a hora dessa gente esverdeada mostrar seu valor”.

O rock naqueles tempos era tratado no Brasil como supra sumo do esterco cultural e antes mesmo da Fluminense FM entrar no ar eu me senti acolhido por centenas de milhares de pessoas. Quando a Fluminense FM fuzilou o jabá, esses reacionários desejaram o fim do mundo.

Bom, como escrevi lá em cima, nós três passamos meses costurando a programação, faixa por faixa, introdução por introdução. Na madrugada de 1 de março, escrevi o texto de apresentação da rádio que o Amaury gravou e o Sergio produziu com uma trilha sinistra do Deep Purple.

Selma Boiron, treinada por Amaury (que treinou todas as locutoras que não tinham experiência), disse, acho, “Bom dia, são seis horas. The Who”, a Fluminense FM nasceu. E logo na primeira meia hora cravamos pela primeira vez o sabre, tocando a vinheta “chegou a hora dessa gente esverdeada mostrar seu valor”.

Fomos para casa. Ouvindo a rádio, claro. No final do dia, nós três mais o saudoso amigo Alex Mariano, que produzia música brasileira, concluímos que a rádio estava muito ruim, muito cerebral, muito prêt-à-porter. E fizemos outra, em horas, mais emotiva, mais visceral, extravasando sentimentos e não apenas reflexões. Ou seja, em 24 horas a Fluminense FM foi duas rádios.

Uma lenda que é maior do que todos nós.

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