Quando a obstinação ultrapassa todas as barreiras

Wellington Serrano –

“Atenção senhores passageiros, sejam bem-vindos…”, a comandante da Barca US2000, Fabricia dos Santos Dias Cavaleiro, de 36 anos, é a dona da voz que anuncia, orienta e cativa os passageiros que circulam pelas estações dos catamarãs na travessia entre Rio e Niterói. Mas, quem escuta sua locução carismática não imagina que por trás de sua bela voz há uma boa história de superação na área marítima, que teve início em 2003.
Moradora do bairro Galo Branco, em São Gonçalo, ela recorda os 19 anos de idade, quando começou a trabalhar na então empresa de navegação Transtur (Aerobarcos Brasil), como auxiliar de limpeza e se encantou pela profissão de comandante da navegação, que hoje a vive em sua realidade. “Sempre pensei em entrar na limpeza com objetivo de crescer. Não queria me acomodar, então depois passei para bilheteria e comecei a me interessar, conversar com os amigos do trabalho, que eram marítimos e resolvi estudar e me preparar ao fazer o curso pela Ciaga (Escola Centro de Instruções Almirante Graça Aranha), na Avenida Brasil”, disse.

Fabricia, que é casada e tem a pequena Manuela, de 1 ano e 5 meses, disse que logo ao entrar na área marítima já sabia o que queria ser na carreira. “Em 2009, cheguei para trabalhar como moça de convés na CCR Barcas. Amo a minha profissão, que é uma terapia para mim. Navegar na Baía de Guanabara é tudo de bom”, ressaltou.

Segundo a comandante, o preconceito por ser mulher à frente da embarcação existe, sim. No entanto, isso nunca foi colocado como barreira para impedi-la de conquistar seu objetivo. “O preconceito existe um pouco, até mesmo na hora do trabalho. Tipo, as pessoas indagam: será que ela é capaz de estar nesse posto? É o mesmo preconceito de uma mulher quando dirige um carro, isso não é justo”, lamentou.

O carinho especial no trato com os usuários, segundo Fabricia, é essencial para trazer ainda mais a humanização para o relacionamento dos colaboradores com os passageiros. “Procuro me colocar no lugar do passageiro, essa é uma forma de entendê-los melhor”, avalia.

A equipe de A Tribuna acompanhou a viagem da barca e para muitos a voz da locutora é simpática. De cara, quase todos a elogiavam, com adjetivos como “agradável” e “bonita”. “Não tem a locução da famosa Íris Lettieri, no aeroporto do Galeão, que é tudo de bom para os cariocas? A voz da comandante, que nos ajuda no dia a dia da travessia, é a mesma coisa entre nós niteroienses”, afirmou a advogada Marcia Aguda Ferreira Gomes, de 26 anos, moradora de Icaraí.

Hoje, em seu quadro de colaboradores marítimos, a CCR Barcas possui um total de 57 tripulantes mulheres, das quais 14 pilotam embarcações. Segundo a empresa, todas passam por um processo de seleção, sendo avaliadas por suas qualificações técnicas e curriculares. “Toda capacitação marítima dos tripulantes é realizada através de cursos ministrados pela Marinha do Brasil, que fornece a Carteira de Inscrição e Registro (CIR) – documento obrigatório para desempenhar a função”, avalia a empresa.

A CCR ressalta que não existe preferência por sexo de colaborador. “Além disso, temos mulheres ocupando os cargos de supervisores e de gestora de Operações. A empresa está extremamente satisfeita com as suas colaboradoras, elas possuem uma organização diferenciada para o ambiente de trabalho”, concluiu.

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