Protetoras relatam experiências com acolhimento de animais abandonados

Se por um lado a pandemia deixou as ruas quase vazias, sem pessoas circulando, de outro, o número de animais em situação de rua cresceu muito, sejam eles já nascidos ao léu, ou abandonados pela crise financeira que as pessoas estão enfrentando. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que, no Brasil, existem cerca de 30 milhões de animais abandonados. Desse total, 10 milhões são gatos, e 20 milhões, cachorros. Mas para o bem – e sorte – de alguns deles, existem pessoas sobre-humanas, que os recolhem, dando-lhes abrigo e o tratamento necessário, até que possam encontrar um lar. Essas pessoas são conhecidas como protetoras.

A vendedora Mônica Nunes, que mora em São Gonçalo, tem um amor incondicional pelos animais e diz que isso está no sangue. Ela conta que desde criança tem essas afinidades com os bichos e os resgates foram acontecendo naturalmente ao longo do tempo.

“Nem sei precisar há quantos anos eu salvo animais. Só a promoção das campanhas de adoções são mais de 10 anos. Não consigo nem dizer a quantidade de animais que já resgatei. É um nicho de ações que vamos fazendo e de alguma maneira conseguimos ajudar os animais. Para você ter ideia, nas feiras de adoções dos shoppings, que acontecem mensalmente, conseguimos um lar para cerca de 40 animais. Além das campanhas de castração, de conscientização sobre maus tratos, luta por políticas públicas e por aí vai. Já tivemos até 100 adoções em uma feira. Mas com a pandemia ficou suspensa e só aumentou o abandono”, disse.

Mônica explicou que o trabalho é feito por amor, pois não existe salário para quem é protetor. Quando acontece um resgate, os gastos são todos de quem recolhe o animal e das pessoas que se sensibilizam e resolvem colaborar.

“Eu não saio procurando animais. Eles, literalmente, caem em nossa cabeça. Não posso virar as costas. Como moro aqui, vou fazendo o que posso em São Gonçalo mesmo. A maioria dos protetores não tem ajuda financeira e nem do governo, tudo é financiado do nosso bolso”, explica.

Mônica e o filho Rhamon Nunes, que é veterinário, criaram, há mais de 10 anos, o projeto ‘Leve um Anjo para Casa’ que promove feiras de adoções. “Ele praticamente cresceu nessa vida comigo, acabou se tornando veterinário, participou do Conselho de Proteção Animal e, por estar envolvido diariamente com o sofrimento dos nossos peludos, junto com outros protetores vamos promovendo todas as ações além da feira. Assim, tentamos amenizar essa crueldade com os animais”, diz.

Sobre a castração, algumas prefeituras promovem a cirurgia em determinados períodos do ano para que possa ser controlado a proliferação e a população de animais de rua. Para Mônica, muito mais poderia ser feito por parte do poder público.

“O ideal é que existissem políticas públicas sérias. Leis que tenham condições de ser cumpridas, e fazer cumprir as que já existem. As prefeituras deveriam promover mais campanhas de conscientização sobre maus tratos e abandono, de castração e de adoção”, desabafa Mônica.

Para Ivanete Ramos, também de São Gonçalo, que está ajudando os amiguinhos peludos há anos, a situação não é diferente. Ela usa recursos próprios para ajudar a salvar a vida dos animais que resgata. “Já tem uns 40 anos que estou nessa vida de protetora. Já resgatei mais de 300 animais. E nunca tive ajuda, sempre arquei com todos os custos”, relata.

Ivanete gostaria que o poder público gonçalense realizasse ações mais efetivas, como cobrar responsabilidade dos tutores, castração em massa, e recolhimento com amor e responsabilidade, fazendo campanhas de adoção para os resgatados.

Já a veterinária Milena Murillo, que é dona de uma clínica em Itaboraí, recebe uma média de 15 pessoas por semana que resgataram animais abandonados, querendo ajuda para salvar os bichinhos. “Aqui na clínica, chega gente o tempo todo. Tem muito tratamento que a gente faz de graça porque fica com pena. Mas não dá pra atender todo mundo” – diz.

Milena diz que a castração é fundamental para que o número de animais abandonados não cresça. “As campanhas de castração gratuita que a prefeitura oferece não são suficientes. As vagas são poucas e abandono aumenta a cada dia. Os animais que têm um lar procriam e a família não pode cuidar, então acaba abandonando na rua. E tem os que já vivem na rua que procriam sempre. A gente faz o que pode para ajudar”, relata Milena.

Ela se diz uma admiradora do trabalho que os protetores fazem e sempre que pode participa das feiras de adoções. Mas ela lembra que é preciso ter muita consciência, não agir por impulso na hora de pegar um bichinho.

“O animal não é um objeto, ele precisa de cuidados e atenção e, quando isso se tornou um peso, a solução foi devolver ao abrigo de animais ou soltar nas ruas. Os animais necessitam de cuidados diários e atenção, devem receber alimentação adequada, serem levados ao veterinário, receberem vacinação anual e castração. O planejamento deve incluir tempo para socializar com o animal, brincar, passear e ensinar. Os custos podem ser adaptados à situação financeira do tutor”, diz.

No Brasil, abandono de animais é crime federal

É crime praticar maus-tratos contra animais domésticos, silvestres, nativos ou exóticos, de acordo com a Lei 9.605/98, artigo 32. Existem várias condutas que podem caracterizar os crimes, tais como o abandono, ferir, mutilar, envenenar, manter em locais pequenos sem possibilidade de circulação e sem higiene, não abrigar do sol, chuva ou frio, não alimentar, não dar água, negar assistência veterinária se preciso, dentre outros.

Atualmente, a legislação prevê pena de três meses a um ano de detenção para quem pratica os atos contra animais. A pena é aumentada de um sexto a um terço se o crime causa a morte do animal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.