Protesto pela morte de vendedor de pães

Augusto Aguiar –

As principais vias de acesso ao bairro de Maria Paula, limite entre os municípios de Niterói e São Gonçalo, amanheceram ocupadas por policiais militares depois que um morador da localidade do Campo Novo, identificado como Felipe Silva de Souza, foi baleado durante uma incursão policial na região. Ainda na noite de quarta-feira (30), em represália à morte de Felipe, conhecido “Dylan do pão”, dois ônibus foram incendiados numa ponte na saída do Campo Novo e na RJ-100. Felipe deixou mulher e duas filhas pequenas, uma delas de 2 anos. Moradores disseram que Felipe não teria sido vítima de bala perdida durante confronto. Caso essa versão seja confirmada, “Dylan do pão” teria sido a terceira vítima num intervalo de 48 horas. Em clima de revolta, foi sepultado no fim da tarde de ontem, no cemitério Maruí, no Barreto.

Pela manhã, o clima ainda estava muito tenso no local e cerca de 80 moradores, que conheciam Felipe, portando cartazes improvisados, foram para a RJ-100 realizar uma manifestação. Policiais militares do 7º (São Gonçalo), 12º BPM (Niterói) e Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv) foram acionados para que o trânsito na via não fosse interrompido. A tensão no local levou diversos comerciantes a não abrirem as portas pela manhã no entorno da Praça de Maria Paula. Farmácia, lojas de roupas, de magazine e centros comerciais não funcionaram, apesar do reforço policial. A exceção ficou por conta de um supermercado e um posto de combustíveis.

“Na tarde de ontem (quarta-feira) teve muito tiro no local. O rapaz estaria saindo de uma padaria próximo de sua casa, quando foi baleado. Não foram policiais militares. Eram policiais civis que atiraram contra ele de longe. Dylon era trabalhador, tinha uma filha pra criar”, protestou uma jovem que conhecia a vítima. Policiais militares, que não quiseram se identificar, confirmaram que na tarde de quarta-feira não houve operação no local.
“Dois ônibus foram incendiados e se as guarnições não chegassem rápido aqui no local um terceiro também seria queimado. Os policiais permaneceram no local durante toda a madrugada e pela manhã ainda receberam reforços para garantir o direito de ir e vir das pessoas e motoristas”, explicou um militar. Ainda na manhã desta quinta-feira (31), por volta das 10 horas policiais do BPRv prenderam duas pessoas acusadas de tentar incendiar mais um coletivo. Os acusados foram conduzidos para a 75ª DP (Rio do Ouro). Vários moradores culpavam policiais da distrital de participar da ação que resultou na morte de Felipe. O fato não foi confirmado. Outros manifestantes também tentaram bloquear o trânsito na Estrada Velha de Maricá.

“Um só tiro no coração matou meu filho. Não é o filho de um prefeito, de um governador que morreu. É de um trabalhador. Estamos revoltados. A mãe dele chegou a desmaiar em casa. A polícia não chega para prender, chega para achacar bandido. Quando não acham nada, fazem isso. Meu filho era casado e deixou duas filhas pequenas”, desabafou Jeferson Rocha de Souza, pai de Felipe. Agentes da Divisão de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG) informaram que os fuzis dos policiais que teriam participado da incursão no Campo Novo foram apreendidos, assim como o projétil que atingiu e matou a vítima. O objetivo é realizar um exame de “confronto balístico” para identificar de onde partiu o tiro para matou Felipe.

Sepultamento
Em meio a muitas palmas, choro, desespero e gritos de pedidos por justiça, cerca de 300 pessoas, entre amigos e familiares, fretaram três ônibus e se encaminharam para o cemitério do Maruí, no Barreto, Zona Norte da cidade, para se despedir de Felipe Silva de Souza. O enterro ocorreu às 17h e o que se viu foi uma emicionada despedida ao “Dylan do pão”, como era conhecido.

“Ver o meu amigo sendo levado dessa forma é destruídor para todos nós. Era um ótimo amigo, a alegria de todos e principalmente: um trabalhador exemplar. O que fizeram foi uma covardia, pedimos justiça”, lamenta um amigo.

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