Profissionais vivem a experiência dos testes da vacina contra a Covid-19

Raquel Morais

Começaram nesta semana os testes clínicos da vacina Coronavac nos profissionais da saúde e esses trabalhadores de Niterói já começaram a receber a imunização. A aplicação é a fase 3 do ensaio clínico e a dose está sendo aplicada na Policlínica Dr. Sérgio Arouca, com hora marcada e agendamento prévio. A ação faz parte de uma parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Butantan e a Prefeitura de Niterói. Quem já tomou a dose garante não ter tido reação e terá monitoramento dos pesquisadores por um ano.

Segundo a Fiocruz o ensaio clínico de fase 3, coordenado em todo o Brasil pelo Instituto Butantan, de São Paulo, avalia a eficácia e a segurança da vacina contra o novo coronavírus. O médico infectologista e pesquisador da Fiocruz André Siqueira está coordenando os trabalhosem Niterói. A expectativa é recrutar cerca de 850 voluntários. A participação é restrita a profissionais de saúde, que atuem diretamente no cuidado de pacientes infectados pela Covid-19 e cumpram os seguintes critérios: ter mais de 18 anos; não ter sido contaminado pelo novo coronavírus previamente; não participar de outros experimentos; não estar grávida ou ter intenção de engravidar nos próximos meses; não apresentar doenças crônicas não-controladas; e ter registro ativo no conselho profissional de seu ofício.

A enfermeira Jamille Mohamed é uma das voluntárias e afirma que não teve medo da aplicação e nem das reações.

“Acredito na ciência e contribuo para a busca da cura. Serei monitorada por um ano e não senti nada e nenhuma reação até o momento. A vacina é inativada. A participação dos profissionais de saúde é extremamente importante para que estudos científicos sejam feitos e fique pronto o mais rápido possível”, resumiu Jamile, que trabalha no CTI de Covid do Hospital Municipal Carlos Tortelly, no Centro de Niterói. A amiga de trabalho, a enfermeira Juliana Thomáz, de 23 anos, se imunizou na última segunda-feira (24) e disse que leu com atenção o termo de compromisso e responsabilidade que teve que assinar ao fazer parte do processo da pesquisa.

“Não tive medo e acho que o risco é o mesmo de qualquer vacina. Não tive reação nenhuma e estou trabalhando normalmente. Quis ser voluntária pois estamos ajudando o próximo de alguma maneira. Sem voluntário nunca vai ter vacina”, contou Juliana que também trabalha na Policlínica Comunitária da Engenhoca, na Zona Norte. “Eu passei por uma consulta médica além de ter feito exame de sangue e o teste do coronavírus. Estou confiante e esperançosa que vai dar tudo certo”, completou.

O estudo contempla duas doses da vacina e a segunda será aplicada com 14 dias de intervalo.

“Seguimos uma legislação de pesquisa clínica rigorosa, que assegura todos os direitos e a segurança dos participantes. Essas pessoas estão contribuindo para o avanço do conhecimento científico, com a perspectiva de que tenhamos uma vacina que possa ser aplicada ao público de forma ampla”, explica André Siqueira.

A Prefeitura de Niterói foi questionada sobre o assunto mas até o fechamento dessa edição não se manifestou. No entanto, o prefeito Rodrigo Neves, na semana passada, usou suas redes sociais para comentar o experimento.

“Nessa semana os primeiros profissionais de saúde de Niterói que se inscreveram como voluntários da Fase 3 dos testes receberam a primeira dose da vacina em nossa cidade. Em oração e trabalhando para que a ciência tenha êxito nessa importante conquista na guerra contra o coronavírus”, dizia a publicação.

Fiocruz e Anvisa definem produção

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) definiram como será a produção da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford. O encontro dos principais dirigentes das duas instituições ocorreu de modo virtual, no último dia 19, mas só foi tornado público ontem.

De acordo com a assessoria da Fiocruz, que teve acesso às informações da reunião, Bio-Manguinhos realizará as etapas de formulação, envase e rotulagem da vacina utilizando as instalações do Centro de Processamento Final (CPFI) e do Pavilhão Rockfeller, destinado à fabricação de vacinas virais e que tem certificação de boas práticas de fabricação (CBPF) e pré-qualificação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Já a produção do insumo farmacêutico ativo (IFA) será realizada no Centro Henrique Pena.

A presidente da Fiocruz, Nisia Trindade Lima, destacou que o momento requer a união de esforços e expertises para se encontrar soluções no mais breve tempo possível.

“A vacina só será possível com intensa articulação e colaboração de todos os envolvidos. Para isso, os especialistas das duas instituições atuarão de forma integrada ao processo de produção da vacina, para que possam avaliar cada etapa, à luz da ciência, e realizar todas as análises necessárias”, disse Nisia.

Para o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, o encontro revelou o empenho e a aproximação entre as duas instituições para o desenvolvimento da vacina.

“A Anvisa e a Fiocruz vêm trabalhando juntas para melhorar o combate à Covid-19, com foco na discussão sobre o registro de uma vacina. A reunião contribuiu para estreitar laços e tratar de aspectos gerais do desenvolvimento vacinal”, disse Torres.

Segundo o diretor de Bio-Manguinhos, Mauricio Zuma, esse alinhamento é fundamental para que o registro possa acontecer o mais rapidamente possível, a partir da obtenção de resultados satisfatórios nos estudos clínicos, que no Brasil estão sendo conduzidos pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade de Oxford.

“Essa análise prévia é uma prática de longa data que adotamos junto à Anvisa para a incorporação de tecnologias, e só traz benefícios para o país, na medida em que nos dá direcionamentos de medidas a serem tomadas antecipadamente para o cumprimento das exigências regulatórias e o apoio necessário para a importação dos insumos – no caso da vacina da covid-19 em caráter emergencial, possibilitando a disponibilização mais rápida de vacinas e outros imunobiológicos para o Sistema Único de Saúde”, disse Zuma.

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