Primeira mulher e médica-veterinária ganha o FameLab no Brasil

A FameLab Talking Science, maior competição de divulgação científica que existe no mundo, tem agora a sua primeira mulher e médica-veterinária como vencedora. Gabriela Ramos Leal é formada pela Universidade do Grande Rio (Unigranrio) e doutora em Clínica e Reprodução Animal pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com período sanduíche na University of Adelaide, na Austrália. A jovem de 34 anos é moradora da cidade do Rio de Janeiro. O evento de divulgação científica acontece em mais de 32 países e é organizada pelo British Council com pesquisadores de todo canto do Brasil nas áreas de STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e será transmitido pela TV Cultura a partir das 15h do próximo dia 15 de novembro.

No Brasil, ele ocorre desde 2016. Por aqui, a competição costumava acontecer no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com a final aberta ao público. Esse ano seria em São Paulo, mas por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus (Covid-19), foi realizada completamente de forma virtual. O vencedor de cada país tem a oportunidade de disputar a final internacional, que costuma acontecer no Reino Unido. O vencedor ganharia uma passagem para concorrer na etapa internacional, que também irá ocorrer de forma virtual neste ano.
Gravado pela TV Cultura pela primeira vez mostrará as apresentações, além das trajetórias dos candidatos desta edição da competição de comunicação científica. Neste ano, a semifinal da disputa contou com mais um profissional da área, além da carioca. Gabriela explicou que fica emocionada de conseguir mostrar a representatividade.

“Em 2018 eu acompanhei a competição e é engraçado que a gente tinha bem distribuído metade mulher e metade homem. Esse ano, a final já contava com a presença de sete mulheres. Isso é extremamente importante, principalmente no ano que estamos vivendo. É gratificante ver as mulheres na ciência tendo essa visibilidade. Na faculdade, eu era a única negra da minha turma. Durante o mestrado e doutorado, tive contato e convivi com um ou dois negros. Quando vou a congressos nacionais, consigo contar nos dedos das mãos quantas pessoas negras estão nos congressos. Nesses anos todos, tive um palestrante negro nesses congressos. É gratificante saber que a gente, de alguma forma, está trabalhando e conseguindo mudar essa estrutura social. A gente está longe de conseguir uma estrutura igualitária, mas só de pensar que eu não tive nenhum professor negro na minha faculdade e pensar que eu era a única negra na minha turma, conseguir mostrar essa representatividade é muito emocionante”, contou.

Gabriela conta que acompanha o FameLab desde 2017, devido o fato da mesma ter as finais abertas ao público. Ela explicou que foi assistir competição naquele ano, que acontecia no Museu do Amanhã, no Centro do Rio, e se apaixonou pelo concurso, que tem a proposta de abordar um conceito científico e simplificar para atingir todos os públicos.

Divulgação

“É como se você sentasse em uma mesa de bar com os amigos e eles te perguntassem o que pesquiso e com o que trabalha. Durante esse bate-papo, você conseguisse transmitir aquilo sem aquela linguagem muito técnica que a gente acaba tendo sempre com os nossos pares, o que acaba sendo um dos maiores desafios para que a ciência penetre na sociedade de forma com que a sociedade entenda que a ciência é feita para ela. É traduzir para as pessoas aquilo que a gente faz”, explicou Gabriela, que é da área de concentração que envolve a produção in vitro de embriões e criopreservação de gametas e embriões. Atualmente, ela é docente da Universidade Castelo Branco (UCB), na área de embriologia veterinária, e atua como médica-veterinária no Instituto Municipal de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman. Além disso, é revisora de periódicos científicos nacionais e internacionais.

Em todas as etapas, era preciso fazer uma apresentação explicando um conceito científico em apenas três minutos para um público leigo, onde são avaliados os três Cs: conteúdo, clareza e carisma. A médica-veterinária foi selecionada entre mais de 100 participantes com uma apresentação sobre criopreservação. Na semifinal, Gabriela falou sobre os animais transgênicos biorreatores e, na final, sobre a utilização de cavalos pra produção de anticorpos (soro antiofídico, e novas pesquisas com Covid-19).

“Embora isso já seja muito estabelecido e já esteja sendo realizado há muitos anos, do soro antiofídico ser produzido a partir dos anticorpos produzidos pelos cavalos, a partir dessa técnica está se pesquisando a possibilidade de produção de soro contra Covid-19, assunto de grande relevância no momento em que estamos vivendo. O meu intuito na semifinal e na final era mostrar para as pessoas que a medicina veterinária e os animais estão mais presentes na vida das pessoas do que elas imaginam. Quando a gente fala disso, as pessoas pensam em pet, na cadeia de produção animal, e eu queria mostrar para elas o que era um pouco diferente. Está na hora da gente começar a mudar a realidade e todos os cortes (orçamentários) que a pesquisa teve nos últimos anos. É a sociedade que paga o imposto que financia a pesquisa. E a pesquisa é feita para retornar para a sociedade. A sociedade é o mais importante nisso tudo. Está na hora da gente conseguir passar para ela o que a gente faz com o dinheiro investido, a importância da ciência e do apoio nas pesquisas”, contou.

Após passar por treinamentos de divulgação científica com profissionais de dentro e fora do Brasil, Gabriela vai representar o país na competição internacional que irá acontecer em novembro.

“Essa é uma competição que ninguém sai perdendo. Era uma galera muito boa e eu fico honrada de ter conseguido chegar até aqui”, finalizou.

A médica-veterinária foi parabenizada pelo órgão regulador da sua profissão.

“O CRMV-RJ se orgulha e se alegra pelo sucesso da Gabriela. Ter uma médica-veterinária ganhadora de uma honraria tão renomada nos faz crer que nunca nossos esforços são em vão. Parabéns, Gabriela. O céu é o limite para ti”, parabenizou o vice-presidente do CRMV-RJ Diogo Alves.

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