Presidente e fundador da Orquestra da Grota celebram absolvição do violoncelista Luiz Justino

A agonia, enfim, acabou. O instrumentista e integrante da Orquestra da Grota, Luiz Carlos Justino, preso em 2017 ao ser confundido com um bandido, foi absolvido no julgamento que aconteceu nesta quarta-feira (9) na 2ª Vara Criminal da Comarca de Niterói. O resultado foi comemorado por todos os integrantes da orquestra, principalmente pelo fundador, Márcio Selles, e pelo atual presidente, Paulo de Tarso.

Músicos da ‘Orquestra da Grota’ tocaram no jardim do Fórum, em Niterói, durante a audiência que fez justiça a Luiz Justino

A Tribuna conversou com os maestros, que estavam muito emocionados com a vitória na Justiça.

“A gente ainda está sonhando com esse resultado. Parece que não acordamos”, contou Paulo de Tarso com a voz embargada.

Para o presidente da orquestra, a vitória simboliza também a luta pela igualdade racial no país.

“O que fizemos nestes seis meses não foi apenas pelo Luiz Justino, como tudo o que aconteceu com ele, infelizmente acontece com muitos pelo país. No processo, nós descobrimos que há 92 casos iguais aos dele só no estado do Rio. Naturalmente, fico muito feliz com essa vitória, mas continuo triste por outros exemplos semelhantes. Lembrei de uma live que assisti de um juiz com o Caetano Veloso, onde o magistrado citou uma frase verdadeira. ‘Quando você prende um inocente comete dois erros. Deixa o inocente preso e o culpado solto'”, desabafou Tarso.

O músico foi preso em setembro de 2020 acusado de um roubo de celular praticado em 5 de novembro de 2017, na parte da manhã, na Vila Progresso. Só que nessa mesma data e hora, ele fazia uma apresentação em uma padaria da Região Oceânica onde foi contratado junto da Orquestra da Grota para tocar todos os finais de semana de 2017 a 2019.

O instrumentista foi reconhecido pela vítima através da fotografia de suspeitos. Só que Justino não tinha antecedentes criminais e a Polícia Civil até hoje não explicou como a imagem do jovem foi parar na delegacia.

Para Márcio Selles, fundador da orquestra, o caso reflete o racismo estrutural que acontece em diversas situações no Brasil.

“Infelizmente, isso é mais um exemplo do racismo estrutural que acontece todos os dias no nosso país. Infelizmente, já presenciei situações com os músicos que me fizeram chorar. Cansei de ir a apresentações em hotéis, lugares de elite, e pediam para os músicos negros entrarem no elevador de serviço, mesmo todos muito bem vestidos, com roupa social. Teve uma situação onde mandaram os instrumentistas entrarem pelo elevador de serviço”, recorda Selles.

O fundador da orquestra ainda acrescentou que muita gente não acredita nisso, “mas que é um dilema vivido pelos negros em um país racista”.

Apresentação para celebrar liberdade

Sincero, Paulo de Tarso reconheceu que foi impossível não abraçar Justino após a sentença informando a absolvição, mesmo com o cenário de restrições por causa da pandemia. E uma apresentação marcada para esta quinta (10), às 15 horas no Solar do Jambeiro. Ele comenta que o compromisso já estava agendado, mas agora terá uma nova inspiração para os integrantes da orquestra.

“Esse concerto já estava programado, mas depois dessa vitória nem sei como chamá-lo tamanha é a energia boa que sentimos agora. Ele estará disponível para ser visto na internet, nas nossas redes sociais”, contou Tarso.

O público pode conferir a apresentação no Instagram do Solar do Jambeiro, que vai transmitir no @solardojambeiro.

Gabriel Gontijo

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