“Estou preparado para um novo começo”, diz Rodrigo Neves para A TRIBUNA

Wellington Serrano –

“Não guardo mágoa, rancor e nem raiva de ninguém”. Com essa declaração, o prefeito Rodrigo Neves (PDT), que ficou 93 dias preso no Complexo Penitenciário de Gericinó, antigo Complexo Penitenciário de Bangu, disse que agora está em paz. Segundo ele, depois de viver a experiência mais dolorosa, difícil e complexa de sua vida, o momento é de curtir com família. “Alegria no coração não tem preço. Vou tirar o fim de semana para levá-los à praia de Piratininga, nós merecemos”, comemorou.

Ele, na última quinta-feira, esteve na Prefeitura e pediu relatórios dos últimos três meses para avaliar a atual situação. Na próxima quinta pretende, numa reunião com seu Secretariado, traçar as metas para 2019.

Sobre as mudanças da gestão feitas pelo prefeito interino Paulo Bagueira (SDD), Rodrigo avaliou como positivas e disse que a “equipe está boa” e que, com os relatórios em mãos, vai ainda definir a composição do seu governo.

Neves, ao ser indagado sobre o que motivou sua prisão respondeu desconhecer as causas porque nunca foi ouvido. “Os 10 primeiros dias na prisão fiquei sem saber do que estava sendo acusado. Fiquei 45 dias sem esposa e filhos, tirando a Mayara, que é advogada e ia me visitar”, lamentou.

Rodrigo disse que o momento mais difícil encarcerado foram nos primeiros dias quando passou Natal longe da família. “Foi horrível um calor de quase 60 graus com uma alimentação precária. Imagina ter que dormir numa cela de dois metros de altura com um metro e meio de largura em um beliche com uma toalha molhada e acordar todo suado? Foi duro dividir uma cela com 46 presos, mas em nenhum momento desanimei ou deixei de ter confiança em Deus”, declarou ele, que leu o Novo Testamento durante o Carnaval.

Segundo Rodrigo Neves, ao ler a Bíblia constantemente se identificou com a passagem no livro da prisão de Jó. “Um homem justo e correto que sempre buscou a aproximação de Deus”, frisou. O pedetista disse que conheceu de perto dos problemas do Sistema Penitenciário do Estado. “Onde jovens pobres não tem nenhuma mudança de paradigma em um modelo que não produz”, criticou.

Ele contou que leu mais de 40 livros durante esses tempos e que nunca perdeu a confiança na justiça.

O prefeito afirmou que o dia 12 de março ficou marcado definitivamente em sua vida como uma data muito simbólica. “Dia importante porque, além de ter sido solto, a Polícia Civil e a justiça esclareceram os assassinos da vereadora Marielle”, contou. Rodrigo passou a maioria do tempo da entrevista se explicando da denúncia do Ministério Público, que o apontou de integrar organização criminosa com empresários do setor de transporte público, suspeito de desviar R$ 10,9 milhões.

Ele reafirmou que sempre fez uma gestão séria e equilibrada ao definir os rumos da previdência dos servidores e a criação do Fundo Soberano dos Royalties, que pensa na cidade para o futuro. Sobre as denúncias do Ministério Público, ele disse que foram sem coerência. E, ao falar sobre seu direito de defesa negado, realçou que agora terá tempo para preparar a sua defesa.

“Unifiquei a tarifa e Niterói tem o sistema mais organizado da Região Metropolitana, com mais de 90% dos ônibus com ar. Quero destacar que a gente em Niterói teve uma concorrência sobre transporte coletivo anterior à minha gestão. A concorrência foi na gestão anterior da qual herdei uma dívida de R$ 265 milhões. Em 2013, a primeira decisão que eu tomei foi unificar as tarifas de Niterói pela menor. Fiz isso para que a tarifa de Niterói fosse a mais barata do estado”, realçou.

Ao ser perguntado porque o empresário Marcelo Traça Gonçalves, ex-presidente o Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio (Setrerj) em delação o havia citado Rodrigo disse que nunca sequer conversou com o empresário. “Aliás, isso e a falta de provas constam na própria denuncia do MP, o que não foi ignorado pelos desembargadores do Tribunal de Justiça que concederam minha liberdade por seis votos a um”, realçou Neves.

GRATUIDADES
Ao voltar a falar sobre a falta de coerência da justiça que o apontou como facilitador das empresas de ônibus no reembolso das gratuidades, o prefeito explicou que sua gestão desde o início nunca priorizou os consórcios. “Esclareci que em função da grave crise financeira na ocasião, a prioridade da administração municipal seria o ajuste fiscal, pagamento dos salários dos servidores em dia e investimentos em saúde, educação e segurança. A dívida com as gratuidades previstas legalmente acumulou-se ao longo de três anos, chegando ao valor de 80 milhões de reais e somente foram pagas após minuciosa análise das áreas de controle e jurídica da Prefeitura Municipal de Niterói, com uma dura negociação e redução de 40% da dívida, que foi parcelada em 25 vezes e passou a ser paga em 2017/2018, quando o sistema fiscal do município estabilizou-se. Isso contradiz frontalmente a mentira do delator, nunca houve ‘acerto’ de 20% sobre pagamento das gratuidades”, declarou o prefeito.

Segundo o prefeito, Niterói tem hoje a frota mais moderna e a menor tarifa. “Em 2013, unificamos as três tarifas existentes na cidade (era um absurdo o cidadão pagar mais caro para utilizar ônibus com ar-condicionado), sem essa ação, a tarifa hoje chegaria R$ 4,60. Determinei, por decreto, o percentual mínimo de ônibus com ar-condicionado, o que não estava previsto no contrato de licitação de 2012 e, por isso, hoje Niterói tem a frota mais climatizada do Brasil (80% dos ônibus tem ar-condicionado). Contratamos auditoria independente da FGV sobre o sistema de transporte de Niterói, que apontou adequação da tarifa e permitiu o congelamento da mesma entre 2017 e 2018, além de outras importantes medidas de regulação do setor de transporte. O sistema de transportes de Niterói, apesar dos problemas que persistem, é muito melhor que, por exemplo, o de cidades como o Rio e São Gonçalo”, afirmou.

No fim da entrevista, o prefeito disse que está tranquilo para sua defesa e que vai provar sua inocência. “Não tenho casa de praia e nem carro. Com 24 anos de casado nunca presenteei a minha esposa com joias. Sou de classe média e se existe alguém que quer saber melhor sobre isso sou eu. Cadê o dinheiro? Comigo não está. Isso tudo que fizeram comigo foi uma verdadeira infâmia”, concluiu.

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