Praia das Pedrinhas, um esgoto a céu aberto em São Gonçalo

Anderson Carvalho

A Praia das Pedrinhas, no bairro Boa Vista, em São Gonçalo, é conhecida como um dos principais atrativos turísticos da cidade. Com dezenas de bares e um belo pôr do sol, é denominada a “aquarela gonçalense”. Porém, quando o visitante chega à praia, se depara com uma visão que nada tem de poética. Nas margens, muita sujeira, com garrafas PET, copos e sacolas plásticas e um canal de esgoto correndo in natura na praia. A cor da água é escura e o mau cheiro é forte. Devido à poluição, os pescadores locais precisam ir com os seus barcos até outras áreas da Baía da Guanabara mais limpos para poderem pescar e garantir o sustento diário.

O pescador Genecy Mariano de Moraes, de 76 anos, há 20 morando na região, viu a situação piorar desde 2015. “Isso aqui virou uma privada. O esgoto vem de Paquetá através de uma tubulação que passa debaixo d’água. O esgoto também vem do Rio Imboaçu, que desemboca na praia. O aterro sanitário de Itaoca também desemboca sujeira aqui. Os nossos pés estão carcomidos por causa da grande quantidade de coliformes fecais. Não conseguimos pescar nenhum peixe bom nestas águas. Somente camarão. Temos que ir para outras praias da Baía pescar algo e poder vender depois”, conta Genecy. “Cansamos de reclamar com as autoridades. Ninguém faz nada”, lamenta.

A pescadora Sheila Rodrigues, de 48 anos, pesca desde os 12 e agora, tem que ir para praias como Jurujuba e em Paquetá. “Muito difícil pescar aqui. Pesco camarão e alguma tainha. A cada um quilo de peixe, são quatro de sujeira. Nos últimos quatro meses, a quantidade de camarão diminuiu muito”, cita Sheila.

Para o ambientalista Sérgio Ricardo, do Movimento Baía Viva, a situação nas comunidades pesqueiras e das praias de São Gonçalo é ‘extremamente preocupante’. “Não só do ponto de vista da crescente degradação ambiental, mas também da saúde pública. Porque os pescadores estão expostos a águas contaminadas por coliformes fecais e por chorume. Vazamento cotidiano do chorume do lixão ‘desativado’ de Itaóca, em São Gonçalo. A Baía da Guanabara está recebendo um bilhão de litros por ano. A segunda principal fonte é Itaóca. Sobre o saneamento, o que aconteceu é que o Programa de Despoluição da Baía da Guanabara, iniciado em 1995, financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), até hoje não foi concluído. Nós temos há cerca de 15 anos a Estação de São Gonçalo pronta, no entanto, ela trata um volume irrisório, cerca de 10% de sua capacidade. Até hoje não foram concluídos os troncos coletores de esgoto”, lamenta o ecologista.
Em junho de 2018, o Movimento Baía Viva entrou com uma representação no Ministério Público do Estado do Rio para apurar o vazamento de chorume.

Procurado, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) esclareceu que os aterros sanitários possuem licenciamento ambiental e são estruturas executadas e operadas dentro de normas de engenharia e pelas legislações vigentes. Quando ocorre um vazamento em local licenciado, o mesmo é imediatamente identificado e iniciados os processos necessários para garantir a segurança ambiental. O Inea executa um programa que visa minimizar a quantidade de lixo que chega à Baía através de sistema de ecobarreiras, instaladas na foz dos principais rios. Segundo a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade, o programa de recuperação da Baía de Guanabara em vigor é o PSAM – Programa de Saneamento dos Municípios do entorno da Baía de Guanabara, que teve as obras iniciadas em 2014. Abrange os 15 municípios da região.
A Secretaria de Meio Ambiente de São Gonçalo informou que, no caso da Praia das Pedrinhas, por se tratar de uma baía, é de competência do Inea. “O que podemos fazer é enviar uma equipe para fiscalizar o problema e, caso haja uma constatação do caso, encaminhar uma solicitação ao setor responsável por parte do Governo do Estado”.

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