Praça Getúlio Vargas virou reduto da criminalidade

Raquel Morais

“Quando anoitece eu não consigo mais sair de casa. Não caminho na praia, não levo meu neto para brincar na praça, não passeio com o cachorro e nem vou no Teatro da UFF que fica há menos de 300 metros do meu prédio”. Esse é o depoimento assustado de uma moradora de Icaraí, que não quis se identificar, que tem tudo a seu dispor para curtir o bairro, que tem um dos metros quadrados mais caros da cidade, e não o faz por uma única razão: medo da criminalidade. A Praça Getúlio Vargas, localizada em frente ao antigo Cinema da UFF, virou retudo de moradores de ruas e usuários de drogas que não têm limites quando o assunto é convívio social.

Lixo espalhado nas ruas e nas calçadas, restos de comidas e consumo de drogas são alguns dos problemas que os moradores da região encontram principalmente pelo horário da manhã. Além da desordem urbana muitos se arriscam como “guardadores de carros” coibindo motoristas que estacionam na Rua Jornalista Alberto Francisco, na altura da praça. “Os moradores de rua dormem nas calçadas e na praça e acabam pedindo dinheiro e amedrontando os pedestres. Para sair de casa eu tiro o cordão e aliança de ouro”, explicou o comerciante Maurício Jorge, 39 anos, que ainda ressaltou que não passa pela praça em questão quando tem que ir, por exemplo até a Rua Miguel de Frias. “Eu prefiro cruzar a Moreira César do que passar por aquele local”, completou.

A professora Licia Mascarenhas, 45 anos, mora na Rua Álvares de Azevedo e sente o aumento da população de rua nos últimos meses. “Me toca muito crianças pequenas pedindo dinheiro. Apesar de nunca ter acontecido nada comigo eu tenho receio e tomo precauções como não sair sozinha tarde e nunca nadar distraída”, explicou. O coronel Márcio Oliveira Rocha, comandante do 12º Batalhão da Polícia Militar (Niterói), informou que a intenção é iniciar a Força Tarefa de segurança, aliada com outros órgãos de segurança pública, em Icaraí, Centro e São Domingos no início de fevereiro. E que a região da Praça Getúlio Vargas inspira cuidado. “Atualmente estamos intensificando o patrulhamento na localidade, abordando suspeitos, fazendo rondas e orientando essa população de rua sobre os abrigos públicos”, explicou.

Praça Getúlio Vargas - Flanelinha

A ação de guardadores de carros é outro assunto que incomoda os frequentadores do local, que fica próximo a alguns restaurantes importantes e tradicionais de Niterói e do Centro de Artes da UFF, na reitoria da universidade. “Eu não gosto de dar dinheiro para ‘flanelinhas’ mas tenho medo de não dar e quando voltar meu carro estar arranhado ou com um pneu furado. Eles são abusados e se acham os donos da rua”, comentou um motorista que preferiu não se identificar. O secretário de Ordem Publica (Seop), Gilson Chagas, explicou a dificuldade de se manter essas pessoas em abrigos da Prefeitura de Niterói. “É um árduo trabalho, em conjunto com a Secretaria de Assistência Social, de convencimento e explicação dos benefícios de sair da rua. O acolhimento desses moradores é muito difícil”, reforçou.

 

Praça Getúlio Vargas

MORADORES DE RUA

De acordo com nota da Prefeitura de Niterói a ida e permanência nas casas de acolhimento não é compulsória no Brasil. Educadores Sociais da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos de Niterói (SASDH), realizam cerca de 500 abordagens mensais, onde buscam sensibilizar pessoas em situação de rua para irem para o Centro Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop). Em média, 230 pessoas são encaminhadas, mensalmente, ao local. No Centro Pop, os usuários do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) têm atendimento psicossocial e dá-se início a processos como a reinserção social e familiar, assim como o recambiamento para seus municípios de origem. No Centro Pop, os usuários que aceitam participar da reinserção recebem ainda duas refeições diárias (café da manhã e almoço) e todo o suporte para higiene pessoal.
Na cidade existe um abrigo para meninas (Lisaura Ruas) em Itaipu, na Região Oceânica, um para meninos (Paulo Freire) no Barreto e três para adultos no Centro (Casa de Acolhimento Florestan Fernandes, que oferece 50 vagas para homens adultos, o Centro de Acolhimento Lélia Gonzalez, com 50 vagas para mulheres e famílias, o Centro de Acolhimento Arthur Bispo do Rosário, com 30 vagas para homens adultos, segundo Prefeitura de Niterói).

 

Praça Getúlio Vargas - assalto

ASSALTO
Na parte da tarde da sexta-feira (20) um menor de idade foi apreendido pela Guarda Municipal (GM) após praticar um roubo na Rua Coronel Moreira César, esquina com a Álvares de Azevedo. Segundo informações, populares conseguiram segurar um dos assaltantes, que roubou uma mochila de um adolescente que estava de bicicleta. Os Gms foram, justamente na praça, fazer uma ronda para identificar o outro infrator.

NITERÓI PRESENTE
Segundo nota da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Niterói foi realizada uma reunião com autoridades e entidades representativas para discutir o projeto “Niterói Presente”. A demanda, solicitada pela própria CDL, com o apoio da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Acierj) e do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Niterói (Sindilojas) visa instalar uma base das operações “Segurança Presente” – existentes em vários bairros do Rio de Janeiro – no município e, assim, diminuir a criminalidade. “O trabalho tem dado resultado em outros lugares e com certeza vai colaborar com a prevenção na cidade, mas agora teremos que adequá-lo às necessidades de Niterói. Antes do ‘Niterói Presente’ chegar às ruas, estamos analisando a possibilidade de implantá-lo no Centro e em Icaraí, até porque é um trabalho pensado em parceria com a Acierj, que dará suporte financeiro”, reforçou Gilson Chagas.

LEI DOS 3%
Em entrevista A TRIBUNA a secretária da SASDH, Verônica Lima (PT), ressaltou a importância da Lei 03/2015, mais conhecida como a lei dos 3 %. A norma destina que 3% das vagas de todas as obras publicas e ou serviços público da Prefeitura de Niteróim, que tenha contratação de mão de obra, tenha 3% dessas contratações feitas por pessoas cadastradas nos abrigos da cidade. “Lá dentro tem carpinteiro, pedreitro e muitas outras profissões. Essa ação vai ajudar muito no resgate da cidadania dessas pessoas. Se toda obra de uma escola, de asfalto, construção de um ginásio conseguirmos procurar essa mão de obra, dentro do equipamento, será muito positivo”, comentou. A lei é de autoria da própria Verônica e do Paulo Eduardo Gomes (PSOL).

CINEMA ICARAÍ
No meio do ano passado o Cinema Icaraí, que está fechado por muitos anos na espera de uma reforma, virou reduto de um grupo grande de moradores de rua. Além de depredarem, ainda mais, o espaço alguns elementos conseguiram acessar outros apartamentos, onde roubavam roupas penduradas no varal e outros pertences. Para coibir essa ação responsáveis da UFF taparam melhor a entrada do cinema.

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