População muda os hábitos por causa do aumento da violência

Anderson Carvalho –

Pessoas que deixam de sair à noite ou que não permitem mais que seus filhos brinquem na rua, como faziam antigamente. Outras deixaram casas e mudaram-se para um apartamento, em busca de mais segurança. Em contrapartida, condomínios reforçam a segurança, com alarmes e câmeras de vigilância. Até as escolas contrataram segurança privada. Bares que ficavam abertos até de madrugada agora fecham mais cedo.

A publicitária Sunny Dias Barroso, de 44 anos, mãe de dois filhos, um de 22 e outro de 5, tem medo de sair de casa até durante o dia. Quando sai, não leva o aparelho de telefone celular nem a bolsa. Para não perdê-los em caso de um assalto, como o que já sofreu em novembro do ano passado, na esquina da rua em que morava, no bairro de Itaipu, Região Oceânica de Niterói.

“Eu estava voltando da padaria, a uma hora e pouca da tarde, quando um homem no carro se aproximou de mim e apontou uma arma, querendo a minha bolsa. A entreguei logo e fui depois correndo para casa”, relatou.

Hoje ela mora em um condomínio gradeado no bairro de Santa Rosa, outro bairro marcado pela violência.

“Nós sempre saíamos para jantar à noite e agora não fazemos mais isso. Fiz o boletim de ocorrência na delegacia, mas, tenho medo de represálias. Procuro fazer as coisas de manhã na rua, por ser mais tranquilo”, contou Sunny, que é uma entre tantas moradoras e moradores que mudam de hábitos e até de residência por causa da violência.

Segundo a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Niterói, a violência à noite vem assustando a clientela, obrigando assim, os estabelecimentos a fecharem por conta da baixa demanda.

De acordo com o Sindicato dos Vigilantes de Niterói e Região, no último ano aumentou em 70% a procura de instalação de alarmes em residências na cidade.

“Houve uma procura de 50% de contratação de serviços de seguranças particulares, sendo em Icaraí, São Francisco e Itaipu as maiores demandas. Houve grande procura de condomínios residenciais, bancos e shoppings centers. Nas escolas a procura por contratação aumentou 30%”, informou o presidente do sindicato, Cláudio Vigilante.

Lênin Pires, doutor em Antropologia e pesquisador do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas, não vê novidade no comportamento da sociedade.

“Há décadas o ambiente urbano é resultado de intervenções físicas para lidar com o fenomeno da violência. Como, por exemplo, a própria existencia de condominios e shopping centers. Da mesma forma, ruas com cancelas e vigias noturnos não são novidades há muito tempo. As ruas já deixaram de ser lugar aonde as crianças podem ir sozinhas há tempos, diferentemente de quando fui criado na Ilha do Governador, zona norte do Rio. Essa é uma realidade não apenas datada, mas também com um recorte de classe social. Senão você não explica os filhos menores das classes populares que não apenas brincam nos morros e lugares mais humildes da cidade, mas também circulam em diferentes pontos utilizando trens e ônibus para ir as escolas. Muitas vezes sozinhas ou em grupos, geralmente sob um cuidado de um mais velho”, observou o antropólogo.

Segundo Pires, o problema é típico da classe média. “Quero enfatizar que a classe média é medrosa e tem medo, sobretudo, da diferença. Ela quer viver numa redoma, embalada por sonhos de equilíbrio e harmonia, mas não está disposta a se irmanar com a diferença. Daí o espaço público que ela concebe ser avessa a integração. Suas ruas são fechadas e cravejadas de condominios. E, portanto, suas ruas são inseguras, onde os muros que se erguem para proteger da insegurança prendem as pessoas pelo lado de fora. Ela tem que sair as ruas, povoar os espaços publicos, perder o medo da humanidade. Reconstruir a cidade e seus circuitos”, analisou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *