População de Búzios segue questionando projeto de despejo de esgoto no Rio Una

A discussão sobre o despejo do esgoto no Rio Uma ainda segue rendendo entre os moradores de Búzios, na Região dos Lagos. Após um ato realizado na sexta-feira da semana passada (28 de maio) na Praia Rasa, o prefeito da cidade, Alexandre Martins, esteve no local na última quinta (3) acompanhado de moradores e de integrantes da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Durante o ato de quinta foi feita uma carta aberta alertando sobre “os danos irreversíveis” que o lançamento de esgoto pode causar não apenas no Rio Una, mas também “em outros biomas tão importantes quanto a Lagoa de Araruama”.

Professor de História pela Universidade Federal Fluminense, Arthur Soffiati afirma que já há um estudo feito em 2008 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que mostra que a bacia da região não suporta o despejo de esgoto de nenhum nível, nem mesmo se for tratado de forma terciária.

“Desde essa época já havia essa recomendação de que a bacia do Rio Uma não suportava o despejo de derivados de esgoto de qualquer nível de tratamento, nem mesmo terciário. O problema não é apenas a contaminação das águas, que já é algo muito preocupante, mas o aumento de volume. Isso gera uma alteração na bacia”, relembra o professor.

Mônica Casarin, integrante do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Búzios, afirma que são jogados de 100 a 150 litros por segundos dos efluentes na bacia do Rio Uma. Ela explica que a origem disso é o lançamento do esgoto primário pela Estação de Tratamento Jardim Esperança no córrego da Malhada.

“Isso que está sendo jogado não é água limpa. Não precisa ser técnico para perceber isso, pois basta ver a coloração da água. E até hoje não foi feito nenhum estudo sobre os impactos que isso vai causar no mar e nem o que esse material vai provocar na vida marinha, nos biomas, nos mariscos e nas algas. Tem que ter um estudo completo, inclusive um estudo de impactos ambientais com o respectivo relatório sobre esse tema”, argumentou Mônica.

Na carta divulgada após o ato feito na quinta-feira, os moradores afirmam que o Una pode receber até 800 litros por segundo caso o projeto de limpeza da Lagoa de Araruama se concretize da maneira como o Comitê de Bacia Hidrográfica das Lagoas de Araruama e Saquarema e dos Rios São João e Uma (CBHLSJ), responsável pela ideia, planeja.

Em contato feito pelo jornal A Tribuna, o CBHLSJ reconheceu, em nota, que há esgoto que é aduzidos para a ETE Jardim Esperança, que é primaria, e que esse efluente tratado já é lançado no Malhada. Mas que “as águas da foz desse afluente, ao chegarem ao Rio Una, estão bem melhores que a do próprio Rio”.

“Informamos que os esgotos da margem esquerda do Itajuru, do Vinhateiro, da Gamboa e do Cajueiro, junto ao Peró, são aduzidos para a ETE Jardim Esperança, que é primaria, e esse efluente tratado já é lançado no Malhada. As águas da foz desse afluente, ao chegarem ao Rio Una, estão bem melhores que a do próprio Rio”, informou trecho da nota enviada pelo CBHLSJ.

Mas o comitê alegou que o que “será lançado, não em Búzios, mas em Cabo Frio, no córrego malhada; em São Pedro da Aldeia, no córrego Flecheira; e em Iguaba Grande, no córrego Papicu, seriam os efluentes de ESTAÇÕES DE TRATAMENTO TERCIÁRIAS”. A empresa enfatiza que não se trata de esgoto, mas de “águas tratadas por excelentes estações de tratamento, como as de Búzios que lançam no canal da Marina, em direção à Praia Rasa”.

Mônica contesta tal afirmação. Afirmando que “promessas todo mundo faz”, a integrante do conselho de meio ambiente fala que o estudo do CBHLSJ levou em conta apenas os impactos no Rio Uma, e não sobre os prejuízos à vida marinha.

O ex-secretário municipal de meio ambiente de Búzios, Carlos Muniz, contou sobre um estudo que ajudou a elaborar sobre os impactos negativos que o projeto para despoluição da Lagoa de Araruama vai causar no Rio Una e na Praia Rasa.

Afirmando defender que se “salve a lagoa”, ele discorda como o projeto pode ser executado pelas características naturais da região, que empurra a corrente de norte a sul. Com isso, o vento ajudaria no deslocamento dos dejetos em direção ao Rio Una. Além disso, o ex-secretário fala de outras iniciativas feitas para a Lagoa que se mostraram mal sucedidos.

“Qual foi o projeto feito para salvar a Lagoa de Araruama que efetivamente deu certo? Nenhum. Mesmo colocando estações terciárias, como o comitê alega atualmente que irá colocar, fracassaram todos os planos nesse sentido. Por exemplo, a Águas de Juturnaíba tem três estações que cuidam da lagoa, mas não conseguiu resolver o problema”, questiona Muniz

A respeito do estudo sobre impactos no Rio Una, no mar e de que forma será elaborado, o comitê informou dizendo que esse trabalho se encontra em fase de elaboração do escopo do CNHLSJ. Caso seja aprovado pela Câmara Técnica de Monitoramento, então é que será levado para discussão do plenário do comitê. Além disso, será esse estudo que vai analisar os possíveis impactos ambientais na região.

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