Policial à paisana mata vendedor de doces nas Barcas

O vendedor de balas Hiago Santos, de 21 anos, foi morto com um tiro, no começo da tarde desta segunda-feira (14), em frente à Estação das Barcas, no Centro de Niterói. O principal suspeito do crime é um policial que estava à paisana, passando pelo local. Acusado e vítima teriam discutido antes do crime. O suspeito, que não teve o nome revelado, foi preso em flagrante e a arma usada no crime apreendida. Familiares fizeram manifestações e acusaram o autor do crime de racismo.

Equipes do Segurança Presente, 12º BPM (Niterói), Guarda Municipal e da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG) estão no local. Após o crime, populares se manifestaram, gritaram palavras de ordem contra a polícia e pediram por “justiça”. À polícia, o suspeito afirmou ter presenciado a vítima cometendo o roubo e que por isso efetuou o disparo.

De acordo com dados preliminares da perícia feita pela DHNSG, Iago morreu instantaneamente com um único tiro, na região do tórax. A possibilidade mais provável é que o tiro tenha atingido a artéria aorta. Passageiros das Barcas chegaram a ficar sem poder sair da estação devido ao tumulto. Populares fizeram uma manifestação em frente ao local do crime. A Avenida Visconde do Rio Branco chegou a ter o trânsito fechado e fogo foi ateado em objetos. Com medo de possíveis represálias, comércios ficaram à meia-porta.

Confusão e tumulto

Moradores da Comunidade do Boa Vista, onde Iago residia, e vendedores ambulantes fizeram uma manifestação e foram repreendidos por agentes da Guarda Municipal. Duas crianças, sendo uma de um ano de idade e outra de três meses, foram atingidas por spray de pimenta. João Vitor Oliveira, pai de uma das crianças, relatou os momentos de pânico.

“Os guardas tacaram (sic) spray de pimenta na minha filha de três meses. Ela teve que sair no meu colo da minha esposa, que tece que correr. Acertaram a filha do colega ali também. A menina não consegue nem respirar dentro da ambulância dos Bombeiros”, disse João. No local, vendedores ambulantes costumam ficar junto de suas famílias.

Durante o tumulto, pelo menos dois manifestantes foram detidos pela Polícia Militar. Populares denunciaram que houve truculência na ação da PM para conter o protesto. Um jovem, conhecido como “MT” foi detido e mantido por vários minutos dentro de uma viatura. Outro, que atirou uma pedra no cordão policial, foi imobilizado com um “mata-leão” e acabou ficando com ferimentos no rosto.

Familiares e amigos estão revoltados

Segundo Thayane dos Santos Da Conceição, que costumava vender balas junto de Iago, ele tinha uma filha que, dentro de alguns dias, fará dois anos de idade. Thayane relatou que Iago estava trabalhando mais a fim de juntar dinheiro para custear a festa de aniversário. Ela também afirma ter presenciado o crime.

“Teve uma pessoa que arrumou confusão com ele e estava discutindo com outra pessoa e chegou esse cara sem roupa, a paisana, sem farda, sem nada já encostando a arma dele e foi a hora que deu o tiro, ele até recuou, mas na fúria, deve ter dormido com raiva e deu um tiro, um tiro só. Na crise que tá, ninguém tem trabalho e todo mundo vende bala, ele vende bala para sustentar. Ele tem uma filha que vai fazer dois anos agora e justamente ele veio vender a bala porque a festa dela vai ser essa semana e estava faltando 350 do pegue e monte. Ele morador da comunidade Boa Vista, no Centro”, relatou.

Familiares de Iago também estiveram no local. A mãe dele passou mal e não teve condições de conversar com jornalistas. Jonathan Cesar, primo da vítima estava revoltado com a morte do jovem e clamou por justiça. Ele também frisou que o vendedor deixou a “vida errada” e estava trabalhando, nos últimos dias, com objetivo de garantir a festa de aniversário da filha após.

“Dava pra salvar a vida dele, mas infelizmente é vendedor de bala, é mais um confundido porque abandonou a vida errada para ter uma vida boa , largou o crime e hoje em dia e vende bala para sustentar uma filha de dois anos que daqui a quatro dias vai fazer aniversário e ele saindo às 5 da manhã para consagrar seu dinheiro e poder pagar o buffet de uma festa para a filha. Era o sonho dele fazer a festa. Será que essa festa vai acontecer? Será que a filha vai poder falar ‘cadê meu pai?’ É claro que não. Ou será que vai acabar aqui mesmo? Ele foi só abordar uma pessoa para vender bala e no momento da abordagem, o rapaz chamou ele de ladrão e dizendo que os meninos abordam para roubar o celular. O policial ao lado se ofendeu e foi discutir com meu primo que rebateu ele e meteu a mão na arma e deu um tiro. A vida do meu primo custa quanto?”, questionou.

“Ele era um cara trabalhador, humilde, ajudava todo mundo. O cara estava sempre feliz, trabalhando para fazer a festa da filha. Aí vem um cara desse e atira nele. Nós somos trabalhador. Foi racismo. Nós somos apenas vendedor de bala. Tudo o que fazemos é para levar alimento para casa. Tem um monte aí que a gente oferece a bala e vira a cara e ainda fala um monte de gracinha e temos que engolir a seco. Sempre temos que trabalhar para ter nosso sustento”, comentou Carlos Barbosa, outro primo de Iago.

Direitos Humanos acompanha o caso

O secretário de Direitos Humanos de Niterói esteve no local. “Nós entramos em contato com a equipe da Segurança Presente que fez a prisão e estamos cooperando com as investigações, inclusive prestando apoio jurídico, assistência social e psicológica para a família, para a mãe e os irmãos, ajudando para que eles possam prestar depoimento junto à polícia e a polícia ter condições de fazer a investigação a partir daquilo que realmente aconteceu. Foi um caso absurdo, um caso brutal”, comentou.

Investigação

A DHNSG está apurando o caso. De acordo com informações da operação Segurança Presente, uma suposta vítima de roubo, que teria sido cometido por Iago, se apresentou à especializada para prestar depoimento. O vendedor foi morto próximo à bilheteria da estação. No local há câmeras de segurança. Procurada, a concessionária CCR Barcas afirmou que o funcionamento não foi afetado e que eventuais imagens do crime serão enviadas diretamente à polícia.

“A CCR Barcas informa que houve uma discussão entre dois pedestres nas imediações da estação Arariboia, no Centro de Niterói. A Polícia Militar e os Bombeiros estão no local. Não houve alteração na operação das embarcações”, diz o comunicado. Até o começo da tarde desta segunda-feira, o corpo da vítima não havia sido removido do local do crime pelo Corpo de Bombeiros.

Texto e fotos: Vítor d’Avila

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