Polícia tenta “virar o jogo” contra facções de clubes de futebol

Augusto Aguiar –

Na última quarta-feira (27), horas antes do jogo entre Cruzeiro e Flamengo, pela decisão da Copa do Brasil, partida disputada em Belo Horizonte, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) prenderam um homem, acusado de envolvimento na morte de um torcedor durante uma briga de facções de clubes, em Niterói. O crime ocorreu há pouco mais de seis anos (em maio de 2011). O acusado foi localizado, na Rodovia Rio-Juiz de Fora (BR-040), durante uma blitz na cidade de Simão Pereira (MG). O acusado, que não teve o nome divulgado, seguia para o jogo, no Estádio do Mineirão.

Acompanhado de outros torcedores que se deslocavam do Rio para a capital mineira, o acusado possuía Mandado de Prisão, expedido pela 3ª Vara Criminal de Niterói. Em maio de 2011, por ocasião de um jogo entre Flamengo e Vasco, dezenas de torcedores, alguns deles armados, enfrentaram-se na Praça Dr. Enéias de Castro, no Barreto, e, na ocasião, houve tiroteio e uma pessoa morreu. Na mesma ocorrência, outras seis pessoas ficaram feridas. Na época, o tumulto não ficou restrito à praça, mas em todo o perímetro como, por exemplo, dentro de um mercado atacadista, para onde fugiram dos tiros dezenas de torcedores. Os números da ocorrência, registrada na época na 78ª DP (Fonseca), impressionaram. Foram 102 detidos, autuados com base no Estatuto do Torcedor por crime de lesão corporal.

Esse foi apenas um dos “rounds” de uma violenta disputa entre rivais, que ainda ocorre em todo país sob falsa alegação de “paixão clubística”, mas que na verdade é um ato premeditado e criminoso. Em outras palavras, segundo os próprios policiais, são “bandidos uniformizados”.

“Não posso me identificar por conta da profissão que desempenho, mas gostaria de afirmar que esses caras são bandidos. Não tem outra definição. Se eles gostassem realmente do clube pelos quais dizem que têm paixão, iriam para o estádio para torcer e incentivar de forma sadia. De torcida organizada eles não têm nada. São marginais usando camisas de clubes de futebol. Espero ainda estar vivo para ver a nossa justiça sentenciar esses bandidos a muitos anos de cadeia. Eles também são responsáveis pelo afastamento, cada vez mais, das famílias dos estádios”, afirmou um policial civil, com mais de 30 anos de carreira e que atuou em várias ocorrências do gênero.

Nesta sexta-feira, o juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), acolheu denúncia do Ministério Público (MP) e decretou a prisão preventiva de David Paiva Mendes, Diego Augusto Carvalho Ribeiro, Diogo Gabriel de Souza e João Victor Correia Giffoni Hygino. Os quatro são acusados de terem agredido Pedro Scudieri, em fevereiro deste ano. Eles vão a júri popular por tentativa de homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, impossibilidade de defesa e forma cruel), organização criminosa e promoção de tumulto em eventos esportivos. Diogo e João Victor já foram presos. David e Diego Augusto são procurados pela polícia.

No dia 5 de fevereiro, enquanto aguardava um ônibus, na Praça da Bandeira, na Tijuca, Pedro foi espancado pelos quatro réus, membros da torcida organizada Força Jovem do Vasco. Pedro é torcedor do Fluminense e integrante da torcida Bravo 52 e voltava de um jogo do clube. Ele sofreu traumatismo craniano, ficou em coma e esteve internado até setembro.

Ainda em fevereiro desse ano, Diego Silva dos Santos, de 28 anos, foi assassinado com golpes de espeto de churrasco, no entorno do Estádio do Engenhão, durante partida entre Flamengo e Botafogo. O torcedor residia em São Gonçalo e segundo amigos integraria uma torcida organizada do Botafogo. Na mesma confusão, cinco pessoas ficaram feridas. Há sete anos, em setembro de 2010, nove integrantes de torcidas organizadas foram presos na Operação Hooligans desencadeada pela Polícia Civil, com base em inquérito instaurado pela 73ª DP (Neves), visando reprimir confrontos entre facções de torcedores, que ocorriam em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí. O saldo da selvageria da torcida (na época) foi de dois mortos. Entre os presos na ocasião, estava até um soldado do Batalhão de Choque da PM. Entre as vítimas estava o chefe da torcida do Vasco, morador de São Gonçalo, foi baleado durante uma emboscada no bairro Camarão, além de um menor baleado numa briga de torcida, no bairro Boa Vista.

Ainda nos registros de selvageria no eixo Niterói-São Gonçalo, quatro rapazes foram baleados em 2009 na descida da Caixa D`Água, no Fonseca, quando homens armados atacaram a tiros um ônibus fretado por torcedores do botafogo, que seguia para o estádio do Maracanã. “Eu já perdi a conta de quantas vítimas já presenciei em vários anos de profissão com esse comportamento irracional desses marginais. Às vezes acho que isso não vai terminar nunca”, concluiu o policial.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 − sete =