Polícia diz que deputada Flordelis foi mandante da morte do marido

A Polícia Civil e o Ministério Público (MP) deram um passo importante na manhã de segunda-feira (24) para colocar um “ponto final” na longa investigação sobre a morte do pastor Anderson do Carmo, assassinado na madrugada do dia 16 de junho de 2019, em sua residência, no bairro de Pendotiba, em Niterói. A Operação Lucas 12 – referente a um dos capítulos do livro de Lucas da Bíblia – resultou em 11 pessoas denunciadas, sendo nove com prisão decretada, sendo sete da família de Flordelis, apontada pela polícia como a mentora do crime. À exceção da deputada, que tem imunidade parlamentar, todos foram presos. Vale lembrar que dois filhos da Flordelis já estavam presos, o Flávio dos Santos (biológico) e Lucas dos Santos, adotivo. O primeiro efetuou os disparos que mataram a vítima, e o segundo adquiriu a arma, segundo a polícia ordenado por Flordelis. Independente da imunidade, Flordelis já é considerada ré no processo que apura a morte do pastor.

As investigações sobre o crime tiveram vários capítulos e reviravoltas e a conclusão foi que a deputada federal e cantora gospel Flordelis (PSD) foi a mandante do assassinato, com a cumplicidade de outros membros da família. Ela foi denunciada à Justiça por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio duplamente qualificado, além de associação criminosa, falsidade ideológica e falsificação de documento. Na manhã de ontem a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí e Maricá (DHNSG) realizou uma grande operação junto com o MP, onde foram cumpridos todos os mandados. Os agentes cumpriram mandados em Niterói, São Gonçalo e Brasília.

Flordelis está proibida de deixar o país e terá de entregar seu passaporte. Ela tem permissão de transitar apenas entre Niterói e Brasília e não poderá mais ter contato com testemunhas do caso. Foram denunciados pelo crime: Flordelis dos Santos de Souza (viúva): por homicídio triplamente qualificado; tentativa de homicídio duplamente qualificado; associação criminosa majorada; uso de documento ideologicamente falso e falsidade ideológica, não foi presa por ter imunidade parlamentar; Marzy Teixeira da Silva (filha adotiva): homicídio triplamente qualificado; tentativa de homicídio duplamente qualificado e associação criminosa majorada, presa nesta segunda-feira; Simone dos Santos Rodrigues (filha biológica): homicídio triplamente qualificado; tentativa de homicídio duplamente qualificado e associação criminosa majorada, presa nesta segunda-feira; André Luiz de Oliveira (filho adotivo): homicídio triplamente qualificado; tentativa de homicídio duplamente qualificado e associação criminosa majorada, preso nesta segunda-feira; Carlos Ubiraci Francisco Silva (filho adotivo): homicídio triplamente qualificado, preso nesta segunda-feira; Adriano dos Santos (filho biológico): associação criminosa e uso de documento falso, preso nesta segunda-feira; Flávio dos Santos Rodrigues (filho biológico): Associação criminosa e uso de documento ideologicamente falso, já estava preso; Lucas César dos Santos (filho adotivo): associação criminosa, já estava preso; Rayane dos Santos Oliveira (neta): homicídio triplamente qualificado e associação criminosa majorada, presa nesta segunda-feira; Marcos Siqueira (ex-policial): associação criminosa e uso de documento falso, já estava preso; Andreia Santos Maia (mulher do ex-policial): associação criminosa e uso de documento falso; e Andréia Santos Maia (mulher do ex-policial): associação criminosa e uso de documento falso, presa nesta segunda-feira.

Segundos os agentes, a deputada Flordelis chorou com a chegada da polícia em sua residência.

“Ela foi surpreendida com a nossa chegada. Chorou um pouco. Tem muita gente dentro da casa. O importante é que as prisões foram cumpridas e a investigação chegou ao fim hoje”, afirmou o delegado Antônio Ricardo Lima Nunes, chefe do Departamento de Homicídios.

“A investigação chegou a esta conclusão: que ela planejou esse assassinato covarde. A motivação foi porque ela estava insatisfeita com a forma que o pastor Anderson tocava a vida e fazia a movimentação financeira da família”, completou Nunes.

A especializada também encaminhará à Câmara dos Deputados uma cópia do inquérito com o resultado da investigação, para que sejam adotadas as medidas administrativas cabíveis. O procedimento poderá levar ao afastamento da parlamentar para que ela responda pelo crime na prisão.

Ao longo da investigação, que também contou com uma reconstituição e várias diligências, a polícia apurou que anteriormente, por pelo menos quatro vezes, o pastor Anderson do Carmo teria sofrido tentativa de envenenamento em sua residência. Vale também lembrar que durante o sepultamento de Anderson do Carmo, a deputada federal (talvez tentando confundir o trabalho de investigação), chegou a declarar que o pastor teria sido vítima de crime de latrocínio (tentativa de roubo seguida de morte).

Outra descoberta apontou que o único filho reconhecido como biológico de Flordelis e do pastor Anderson não nasceu do relacionamento do casal. Daniel dos Santos é filho biológico de Janaína Manoel do Nascimento Barbosa e Luiz Otávio dos Santos, como mostra a declaração de nascido vivo do hospital onde foi feito o parto do menino, em 18 de janeiro de 1998.

“Na investigação final, demonstrou que toda aquela imagem altruísta e de decência era apenas um enredo para alcançar a progressão financeira e política. Depois que ela alcançou esse objetivo principal, ou seja, chegou até a Câmara dos Deputados, ela colocou em prática um plano criminoso e familiar, que contou com a participação de outras pessoas. A principal motivação foi financeira. A gente percebeu que foram realizadas diversas tentativas de envenenamento em doses letais. E isso só não aconteceu antes por motivos alheios a vontade desses autores”, revelou o titular da DHNSG, delegado Allan Duarte, referindo-se que os acusados teriam colocado arsênico na comida de Anderson do Carmo por várias vezes.

Em Brasília, os policiais chegaram bem cedo na quadra 302-Norte onde está situado o apartamento funcional de Flordelis. No local, prenderam a neta da deputada, Rayane dos Santos Oliveira, acusada de homicídio triplamente qualificado e associação criminosa. Os agentes permaneceram cerca de uma hora no imóvel. O MP participou do cumprimento dos mandados. No ano passado, a polícia já havia cumprido mandados no mesmo apartamento. Na ocasião, Flordelis não estava no local e foi apreendido um aparelho celular.

A polícia comprovou o que parentes do pastor já tinham conhecimento”

Para o advogado Ângelo Máximo, que representa a família do pastor Anderson do Carmo, a polícia está comprovando o que seus clientes já tinha conhecimento.

“Todos confessaram em depoimento que envenenaram Anderson desde outubro de 2018, à ponto de duas filhas ao tomarem iogurte e suco quase morreram. Demorou 1 ano, 2 meses e 8 dias. As investigações ratificaram o que vem acontecendo e venho falando esse tempo todo. Michelle e Maria Edna (falecidas, respectivamente irmã e mãe do pastor) morreram dizendo que Flordelis era a mandante do crime. E eu como advogado deles, com base nisso venho sustentando essa tese, como hoje foi demonstrado que Flordelis realmente foi indiciada e denunciada por homicídio e pelas tentativas com auxílio dos filhos que confessaram o mesmo crime. Eu acredito que demorou por conta do celular do Anderson que não apareceu. As provas que estão no processo são as mesmas que estavam na primeira fase da investigação. Por isso eu sempre acreditei que essas investigações deveriam ser encerradas na primeira fase. O motivo foi a disputa pelo dinheiro”, afirmou.

Ângelo Máximo também revelou que estaria sentindo ameaçado de morte e temia pela própria vida ao representar a família de Anderson do Carmo.

“Caso algo me aconteça, a culpada é ela (Flordelis)”, afirmou. Disse ainda que foi parado por um homem numa moto e que o parabenizou pela atuação no caso e pediu para ele tomasse cuidado”. Ele registrou o fato na 74ª DP (Alcântara) como “ato atípico”.

Para defesa de Flordelis, tudo é um equívoco

Na manhã de segunda-feira (24) o advogado de defesa de Flordelis, Anderson Rollemberg, afirmou que estaria ocorrendo um grande equívoco com relação ao indiciamento da deputada federal.

“Ela foi surpreendida com as prisões dos filhos. A defesa agora tomará conhecimento do que há realmente de provas e de indícios para que ocorresse essas prisões, para que houvesse o indiciamento da deputada, já que na primeira fase da investigação passou longe de ter qualquer prova que levasse a deputada a ser mandante. Então, a defesa nesse momento não tecerá maiores comentários, porque estamos chegando para ver porque desse indiciamento”.

Rollemberg disse ainda que a deputada estava muito aborrecida com o que estava acontecendo porque ela teria a convicção de inocência.

“Ela jamais foi mandante desse crime bárbaro. Tenho certeza que tudo será esclarecido no decorrer do trâmite legal. Ela não tinha jamais a ingerência do dinheiro. Ela é cantora gospel, líder religiosa, parlamentar federal. Ela desprovia de interesse financeiro. Ela sempre fez questão de dar o melhor para os necessitados. Ao ver da defesa está tendo um grande equívoco no desfecho desse investigação”, afirmou.

Deputada poderá ser expulsa do partido

Também, na manhã de ontem, o Partido Social Democrata (PSD), o qual Flordelis é filiada, emitiu uma nota afirmando que a deputada federal será expulsa da legenda. A nota é assinada pelo presidente do partido, Gilberto Kassab.

“O PSD esclarece que desde o início acompanhou o caso da deputada Flordelis e sempre defendeu o andamento e aprofundamentos das investigações. Diante do indiciamento da parlamentar, o corpo jurídico do partido adotará as medidas para a suspensão imediata de sua filiação e, a partir dos desdobramentos perante a Justiça, serão adotadas as medidas estatutárias para a expulsão da parlamentar dos seus quadros. Gilberto Kassab – Presidente nacional do PSD”.

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