Polícia desarticula o ‘franquia’ da milícia na Região Metropolitana

Augusto Aguiar –

Uma força tarefa com dezenas de agentes das delegacias de homicídios do estado (Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, Capital e Baixada Fluminense) e agentes do Grupo de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público (Gaeco-MPRJ) deflagraram, na manhã de ontem, uma grande ofensiva para desarticular o principal braço da organização miliciana de Orlando Curicica (Orlando Oliveira de Araújo) fora da Zona Oeste do Rio. O território dominado por esse braço miliciano era o município de Itaboraí. Pelo menos 45 acusados foram presos apontados por envolvimento com a milícia, dos quais quatro policiais militares da ativa, dois ex-PMs e três mulheres. Nesse último caso, um casal – sendo a mulher advogada e o marido falso policial – foram presos num apartamento de alto padrão na Praia de Icaraí, Zona Sul de Niterói.

A Operação Salvator teve por objetivo cumprir 74 mandados de prisão preventiva e 56 de busca e apreensão contra os envolvidos no grupo miliciano, que num intervalo de cerca de três anos espalhou morte e pânico aos moradores de vários bairros. Segundo estimativa, quase cem pessoas teriam sido assassinadas pela organização. Parte dessas vítimas jamais foi encontrada e consta como desaparecida, possivelmente enterradas em cemitérios clandestinos, que a polícia ainda está tentando localizar. De acordo com o trabalho de investigação e identificação dos envolvidos, o grupo é acusado da prática de homicídios (em atividade típica de extermínio), roubos, extorsões, estelionatos, receptações e crimes da lei de armas e da lei de tortura.

Um caso assustador foi revelado pelos delegados responsáveis pela investigação. A vítima foi um mototaxista. Após a execução, os criminosos teriam esquartejado o corpo e arrancado o coração para demonstrar força. Os milicianos acreditavam que o mototaxista teria passado informações de um integrante da milícia para traficantes da região.

Logo nas primeiras horas da manhã de ontem, policiais foram até a cidade de Rio Bonito (vizinha a Itaboraí), onde conseguiu prender um dos homens de confiança da quadrilha de milicianos, o sargento da Polícia Militar Fábio Nascimento de Souza, que era lotado na Unidade de Polícia Pacificadora do Borel, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Segundo os agentes, ele e outro criminoso, conhecido como Renatinho Problema, passaram a coordenar os negócios da milícia na região. Em seguida, os policiais partiram para prender outro acusado, um ex-policial militar em Itaboraí. Ao perceber que seria preso, Alexandre Louback Geminiani, o Playboy, conseguiu furar o cerco, pulando do quarto andar de um prédio, e escapar. Sua mulher foi presa em flagrante no imóvel, onde foi encontrada um arma e certa quantidade de drogas. Também foram presos na Operação Salvator: Leonis Lovis da Silva, Cláudio José Rodrigues Braz, o Polegar, e Altemar de Oliveira Rodrigues, o Zé Trovão ou Mazinho.

“Policial fake” preso em apartamento de luxo em Niterói
Também na manhã de ontem, agentes foram até um prédio de alto padrão na orla de Icaraí, onde foi preso o casal Mailson César Fidélis Santana, conhecido apenas como Santana, e sua mulher, a advogada Tânia Monique Corrêa. A polícia explicou que Maison se passava por policial civil, atuando nas dependências de várias delegacias da região, entre elas a 71ª DP (Itaboraí).

“No início, nossos índices de homicídios cresceram muito. Executaram muitas pessoas e traficantes. Moradores foram expulsos, agredidos, torturados e mortos. Depois, criaram cemitérios clandestinos. Conseguimos prender quatro acusados de envolvimento na chacina de Marambaia, ocorrida em janeiro. O grupo também contava com a participação de mulheres, que atuavam nas funções de finanças e cobranças. A receita do grupo é oriunda sobretudo da cobrança de taxas de segurança, vendas de gás e água, gatonet, cigarros contrabandeados, etc. Há localidades em que eles estabeleceram toque de recolher e até rondas com viaturas. Com relação ao Comperj, acreditamos que Orlando Curicica tenha implementado a milícia de Itaboraí para explorar a possibilidade de crescimento e desenvolvimento na região”, explicou o delegado Gabriel Poiava, um dos coordenadores da operação. As obras do Comperj foram retomadas no ano passado.

Segundo o promotor do Gaeco, Rômulo Santos Silva, havia lavagem de dinheiro nas atividades da milícia montada em Itaboraí. “Através da apreensão de celulares e escutas com autorização da justiça, passamos a monitorar o grupo. Com base em informações obtidas em maio desse ano montamos uma operação para tentar localizar cemitérios clandestinos, onde estariam enterrados rivais de milicianos e pessoas da região que despareceram. Acreditamos que o número de vítimas seja ainda maior do que o estimado, porque existem casos que até as famílias dessas pessoas foram proibidas de divulgar ou denunciar seus desaparecimentos. Vamos prosseguir nosso trabalho e a população precisa ajudar. A população de Itaborai está acuada”, enumerou o procurador.

O grupo miliciano foi constituído, inicialmente, como espécie de ‘franquia’ do grupo de Curicica, com atuação na capital fluminense, que fornecia armamento e ‘soldados’ para a milícia que aterrorizava localidades como Areal, Porto das Caixas, Visconde de Itaboraí, centro do município e bairros adjacentes. Ao mesmo grupo também foi atribuída a maior chacina ocorrida na região, ocorrida em janeiro desse ano, no bairro de Marambaia (divisa com São Gonçalo), onde pelo menos 10 pessoas foram executadas a tiros, logo após a morte de um policial militar. Inicialmente, o braço da milícia de Curicica era liderado em Itaboraí por um ‘aliado’, identificado como Renato, conhecido como Renatinho Problema ou Natan, que revertia para a ‘base’ da milícia, no Rio, o repasse de percentual dos valores arrecadados em Itaboraí.

Organização arrecadava R$ 500 mil por mês
A milícia de Itaboraí tinha, de acordo com a Polícia, funções bem definidas, tais como donos, lideranças, gerência, executores, recolhedores, soldados ou olheiros, e teria começado a formar ‘raízes’ na cidade no final de 2017 e início de 2018. O atrativo para Orlando Curicica ao montar o grupo foi explorar a região, onde um dia teria início as atividades do Comperj. A polícia apura se milicianos teriam tentado extorquir dinheiro de pessoas ligadas ao grande empreendimento. Não demorou muito e começaram a ser noticiados os primeiros crimes atribuídos à ‘franquia miliciana’, além de denúncias de cobrança das ‘taxas de segurança’ e fornecimento de sinais clandestinos de TV a cabo (popular gatonet) entre outros delitos, especialmente nas áreas de Visconde de Itaboraí, Areal e Porto das Caixas.

O número elevado de homicídios na região e de desaparecimento de vítimas chamou a atenção dos policiais e repercutia nos dados mensais divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Os crimes atribuídos ao bando eram marcados por extrema crueldade. “Houve casos em que vítimas foram torturadas antes de serem mortas, tais como terem a língua arrancada. Houve caso de que uma vítima teve o coração arrancado”, exemplificou o delegado Gabriel Poiava. Tendo como cúmplices policiais envolvidos com a milícia, o grupo entrou numa violenta disputa com traficantes do Comando Vermelho (CV) pelo controle do território. Em pouco tempo, a milícia em Itaboraí passou a faturar em média R$ 500 mil por mês na exploração as atividades ilícitas. Também por esse motivo, o MPRJ autorizou a quebra de sigilo de dados e o bloqueio de contas bancárias dos denunciados. A denúncia foi recebida e as prisões decretadas pelo juízo da 1ª Vara Criminal da Comarca de Itaboraí. Com a prisão dos milicianos e, inclusive, das lideranças, acredita-se que a organização será desmantelada. Até a tarde de ontem, a Polícia Civil e o Ministério Público não haviam divulgado a lista de todos os presos na Operação Salvator, e a Petrobras informou através de nota que não detectou qualquer extorsão promovida por grupos criminosos no Comperj.

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