Polícia Civil realiza reprodução da morte de João Pedro no Salgueiro

Karoline Martins

Agentes da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá, (DHNSG); do 7º Batalhão (São Gonçalo), do Ministério Público (MP) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) realizaram na quinta-feira (29), no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, o trabalho de reprodução simulada relativo morte do adolescente João Pedro Mattos Pinto. O jovem de 14 anos morreu baleado durante uma operação conjunta de agentes federais e da Polícia Civil, no dia 18 de maio deste ano. A residência onde o adolescente estava foi atingida por mais de 70 tiros na ocasião. As equipes se reuniram pela manhã na sede da DHNSG, no Centro, antes de seguirem para São Gonçalo, sob forte aparato policial, inclusive com veículos blindados e um helicóptero devido o risco de confronto entre criminosos e agentes na região.

“Nós contamos com efetivo grande de policiais civis, com outros agentes do 7º BPM, que realizaram um trabalho de avaliação do perímetro e tomada do ambiente. Estamos utilizando policiais da Core e da própria DH para a realização do evento. Cerca de 20 policiais foram deslocados para realização de diligências. Temos por volta de 10 testemunhas presentes e vamos buscar reconstituir o que aconteceu no dia dos fatos para esclarecer os pontos contraditórios dos depoimentos realizados por escrito na delegacia”, afirmou o delegado titular da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, Bruno Cleuder.

O procedimento teve por objetivo, de acordo com a polícia, esclarecer pontos ainda duvidosos na investigação sobre a morte do adolescente, que causou grande comoção. Se estivesse vivo, João Pedro teria completado 15 anos no dia 23 de junho. No dia 9 do mesmo mês, a reprodução simulada havia sido adiada após uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu operações policiais em comunidades do estado enquanto persistissem as medidas de isolamento social. Também, neste ano, o então titular da DHNSG, delegado Allan Duarte, foi afastado do procedimento para o não comprometimento das investigações já que o mesmo fez parte do grupo de policiais presentes na operação que resultou na morte João Pedro.

“Todas as pessoas que vem aqui podem ver que isso é algo surreal. O que os policiais fizeram nesta casa. Uma coisa muito desumana em que tiraram a vida do meu filho cruelmente. Atrás desse muro aqui há um cenário de guerra, uma coisa sem necessidade, eu tenho certeza. Será por que? Por que era em uma comunidade? Se fosse na Zona Sul não entrariam dessa forma. Com esse cenário que fizeram. Vocês vão ver e vão ser testemunhas vivas do que realmente os policiais fizeram nessa casa aí. Destruíram tudo. Nós sabemos que a caminhada é longa, a sede de justiça é forte, mas sabemos que não é fácil, então os promotores, o pessoal da defensoria vai encontrar muitos empecilhos devido as demandas, mas tem um Deus e principalmente a minha justiça vem dele, é o Deus que eu sirvo, e eu sei que vai me honrar e honrar a minha família”, desabafou Neilton Pinto, pai de João Pedro.

A família ainda aprende a lidar com uma realidade sem o ente querido e aguarda por justiça com a esperança de que episódios semelhantes sejam evitados e vidas inocentes sejam preservadas.

“A nossa família está aprendendo a viver um dia de cada vez. Já choramos, sentimos muita dor, saudade, mas esperamos pela justiça. Aguardamos a justiça e que ela venha a ser feita e que essa morte do João Pedro não venha a ficar impune porque era um jovem de 14 anos com um futuro brilhante, cheio de sonhos, cheios de projetos. Quando aquela pessoa que é o Estado ou o Governo Federal, que foi feito para nos proteger, vem e tira a nossa vida, vem nos matar, isso aí não é normal. Isso aí tem que acabar”, desabafou Neilton.

A Defensoria Pública também acompanhou a reconstituição e o helicóptero da Polícia Civil foi deslocado para integrar o aparato. O defensor público Daniel Lozoya, responsável pelo caso, disse que testemunhas estavam “receosas” de voltar à casa onde João Pedro foi atingido. Através de nota, a Polícia Federal se manifestou sobre o pedido feito pelo Ministério Público sobre um novo exame de confronto balístico.

“Em relação ao pedido formulado pelo MP-RJ para realização de novo exame de confronto balístico no caso relacionado à morte do menor João Pedro Mattos Pinto, a Polícia Federal esclarece que a investigação está a cargo do Ministério Público e da Polícia Civil em razão de atribuição legal, possuindo o órgão de perícia estadual autonomia técnico-científica. Ressalte-se que os órgãos públicos atuam dentro dos limites de atribuições definidas na legislação, não sendo identificada previsão normativa que autorizasse o atendimento da solicitação pela Polícia Federal no caso concreto”, declarou a PF.

DEFENSORIA COBRA INTEGRAÇÃO

O coordenador de Direitos Humanos da Defensoria Pública, Fábio Amado, destacou a importância da colaboração entre os órgãos públicos para a resolução dos casos.

“Seria importante que tivesse uma atuação conjunta tanto da Polícia Federal quanto da Polícia Civil para que se possa chegar a verdade dos fatos. A família tem o direito de saber o que realmente aconteceu, a pessoa que disparou, os responsáveis precisam ser identificados e responsabilizados por esta morte tão cruel. Então é fundamental que haja uma integração entre as polícias e uma cooperação para que a sociedade e a família do João Pedro saibam o que efetivamente aconteceu. A reprodução simulada dos fatos traz a possibilidade de avaliação de todas as versões que foram apresentadas afastando as que não tem nenhuma possibilidade de serem verdadeiras e trazer maior luz e clareza para que o inquérito seja encerrado e para que seja oferecida a denúncia contra o ou contra os responsáveis. A reprodução em regra é uma das últimas etapas da investigação criminal porque ela leva em consideração todos os elementos colhidos e em razão da pandemia houve algum atrasado, porém é essencial para que esse caso seja resolvido de forma correta e verdadeira”, ponderou o coordenador.

COMOÇÃO

Adolescentes ainda lamentam a perda do amigo e pedem justiça

“A gente estava sempre junto. A mãe dele era professora no Colégio Salgado Filho, onde após a morte de João Pedro foi inaugurada uma sala de leitura em sua homenagem. Antes de ocorrer esse fato, ele havia saído da escola. Depois voltamos a estudar juntos, dessa vez num Ciep, e por várias vezes ficava na casa dele. Queremos justiça por causa do João. Não vamos deixar que ninguém afirme que era bandido, para corrigir um erro policial. João era um menino muito estudioso. Ele nunca havia tirado uma nota vermelha”, disse uma amiga.

Ainda segundo ela, o sonho de João Pedro era se tornar advogado.

“Só dava orgulho para os pais dele. Ele havia dito que no futuro queria ser advogado, mas infelizmente interromperam o futuro dele. Entraram na casa dele e mataram o João, por causa da sua cor de pele e da estrutura da casa. Para eles (policiais), ninguém pode ter uma casa boa. Moramos na comunidade e para eles na comunidade não pode ter isso. Eles entraram na casa, pensando que lá era casa de bandido. Ele (João) estava brincando e jogando sinuca”, desabafou a amiga, que estava presente no local da reconstituição do crime.

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