Polêmico clássico do cinema, ‘Lamarca’ chega de graça ao YouTube

Quem espera um filme panfletário, inchado de chavões e palavras de ordem, vai se decepcionar. “Lamarca”, de Sérgio Rezende, é um relato reto e certeiro, sem floreios e paixões, como os lendários e milimetricamente certeiros tiros disparados pelo ex-capitão Carlos Lamarca no auge da luta armada no Brasil. O filme chegou ao YouTube e, melhor ainda, de graça.

Longe de ser herói, longe de ser vilão, Lamarca foi uma história, contada com competência, sensibilidade e extremo cuidado pelo diretor Sérgio Rezende que fez um filme de ação tenso, denso, desconfortável, eventualmente constrangedor, o ex-capitão teria hoje 84 anos.

“Lamarca” foi lançado em 1994, inspirado no livro “Lamarca, o Capitão da Guerrilha” best seller de Emiliano José e Oldack Miranda. Sem sinais de lamento ou piedade, o filme retrata os dois últimos anos da vida do capitão desde a sua saída do Quartel de Quitaúna (SP) até sua execução sumária no interior da Bahia, em 1971. Lamarca foi uma das principais lideranças da luta armada no Brasil e um dos mais caçados pela repressão.

Oficial do Exército, instrutor de tiro de alta precisão, Lamarca deixou a força em 1969, levando um carregamento de armas de um quartel para integrar-se à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que se fundiu ao grupo Colina (Comando de Libertação Nacional) para formar a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). A partir daí se tornou um dos inimigos mais odiados pelo regime militar. No filme, o capitão é interpretado pelo ator Paulo Betti que emagreceu mais de 20 quilos para viver o personagem.

Lamarca montou um foco guerrilheiro no Vale do Ribeira (SP), de onde escaparia mais tarde de um cerco do Exército com um grupo de militantes. Ele romperia depois com a VAR-Palmares para recriar a VPR. Nessa fase, o capitão comandou o sequestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Bucher, libertado numa troca de presos políticos.

Trinta presos foram soltos e a repressão aumentou a perseguição aos guerrilheiros, comandada por um general do Exército e pelo delegado civil Flores (referência ao delegado da vida real Sergio Paranhos Fleury), que se apresenta como o matador de Marighella e outros “subversivos” e não hesita em torturar para obter informações.

Os dirigentes do grupo de Lamarca querem que ele saia do Brasil, mas ele não aceita. Lamarca vai então para a Bahia, acompanhado da amante e também militante Clara, para se encontrar com os aliados da guerrilha Zequinha e seus irmãos. Eles o escondem em um sítio no interior do estado. Enquanto espera para se encontrar com os demais guerrilheiros para organizarem um levante rural, Lamarca lembra de momentos do seu passado, da experiência marcante de quando serviu como soldado da ONU no Canal de Suez que o fez se revoltar contra os capitalistas, da sua mulher e filhos que enviara para Cuba e do campo de treinamento de guerrilheiros que criara no Vale do Ribeira em São Paulo.

Em março de 1971, depois de meses de fuga e clandestinidade e com a VPR destroçada por prisões de militantes, Lamarca ingressou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Empenhado em criar um foco de guerrilha rural, deslocou-se para o sertão da Bahia. Em Salvador, sua companheira, Iara Iavelberg, foi morta pela polícia após ser localizada num “aparelho”. A versão inicial de que ela se matara seria desmentida 30 anos depois.

Na caatinga, faminto, doente e isolado, Lamarca foi executado sumariamente por soldados comandados pelo então major Nilton Cerqueira. Exausto pela fuga, descansava sob uma árvore ao lado de outro militante, José Campos Barreto, o Zequinha, na localidade de Pintada (BA).

O filme foi vencedor do Prêmio APCA 1995 (Associação Paulista de Críticos de Arte) de Melhor Ator para Paulo Betti. Paulo Betti voltou a interpretar Carlos Lamarca no filme “Zuzu Angel” (2006), também dirigido por Sérgio Rezende. Filme fortemente influenciado por “Estado de Sítio” (1972), clássico do diretor Costa-Gavras.

Luiz Antonio Mello

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