Piratininga engarrafada

A Avenida Almirante Tamandaré, única via de acesso à Praia de Piratininga, em Niterói, está à beira de um colapso no tráfego de veículos. Habitualmente congestionada durante os verões, a realidade agora é de estrangulamento total da via, com a redução de duas para apenas uma faixa de rolamento de trânsito no sentido Praia-Trevo, pois no trecho entre o DPO e a entrada de Camboinhas, está sendo construída uma ciclovia com o uso de blocos de cimento, conhecidos como ‘gelos-baianos’.

A obra teve início há três semanas e a sinalização a noite é confusa e precária, de acordo com o que relataram moradores e motoristas que habitualmente trafegam no local. A ciclovia ultrapassa, pelo menos, o trecho de 4 pontos de ônibus. Ou seja: para embarcar no coletivo, o usuário tem de dividir espaço com os ciclistas.

O caos no trânsito independe de haver movimento de praia para a pista ficar totalmente engarrafada. Basta o simples fluxo natural de saída do bairro para os congestionamentos serem formados. Na quarta-feira (22), nas primeiras horas de céu claro, os congestionamentos na via já estavam sendo formados.

Enzo Martins, programador, morador de Piratininga, reclama da atuação dos operadores de trânsito que atuam na rotatória de Camboinhas. Segundo ele, os agentes “atrapalham mais do que ajudam”. Eles não estão nem aí pra quem está saindo de Piratininga. A preocupação deles é com quem vai entrar em Camboinhas. Eles (os operadores) param o trânsito na Almirante Tamandaré, formando enormes engarrafamentos, que as vezes vão até o DPO. Era melhor voltar com o antigo sinal do que mantê-los ali, apitando e abanando os braços sem nenhum sentido” – reclama.

Marcelo Nascimento diz que “o bairro vai parar”

O vendedor Marcelo Nascimento, 48 anos, disse que teme pela chegada do final de semana e festas de final de ano. “Eu acho que o bairro vai parar. A situação é muito ruim. O congestionamento já acontece em várias horas do dia e está uma loucura. Eu acho que ficou muito ruim o que fizeram com as ruas. A diminuição do espaço da via para o carro foi muito grande. A pessoa não consegue mais parar para comprar um refrigerante. Deram prioridade para a bicicleta e não pensaram nos motoristas”, contou.

O aposentado Silvio Cabral, 68 anos, está aproveitando o espaço para caminhar, mas fica abismado com os ciclistas que não usam o espaço. “Eles estão se arriscando no trânsito. Acho que tinha que ter um ordenamento urbano sim, mas dessa forma ficou muito ruim. Os carros agora ficaram com menos espaço”, frisou.

A dona de casa Maria Aparecida, 54 anos, chamou atenção para o perigo dos blocos de concreto que foram colocados na via para separar a via especial para bicicletas. “Se uma pessoa cai no chão e bate com a cabeça em um bloco de concreto? Essa separação tinha que ser de tachão de plástico. Isso é um perigo e achei mal planejado”, opinou.

Divisão entre pista de bicicleta e carros deixou pista com apenas uma faixa de rolamento

Reclamações começaram na orla

Ao longo da orla da Praia de Piratininga, as obras diminuíram drasticamente a quantidade de vagas para estacionamento. Alguns trechos foram tapados com concreto a área de parada de veículos e em outros construíram ciclorrotas. Ao longo da Rua Doutor Acúrcio Torres e na Av. Alm. Tamandaré a divisão entre o espaço de motoristas e ciclistas foi feita, em alguns trechos, com blocos de concreto. As mudanças não estão agradando os niteroienses que já reclamam dos congestionamentos, mesmo durante a semana. Na Avenida Acúrcio Torres, a via foi diminuída para a implantação de duas ciclovias, uma em cada sentido.

TIPOS DE CICLOVIA

De acordo com a Associação Brasileira de Educação de Trânsito (Abetran) existe diferença entre ciclovia, ciclofaixa e ciclorrota. A ciclovia é um espaço totalmente segregado, de circulação exclusiva de ciclistas. É separada fisicamente do tráfego dos demais veículos. Quanto ao sentido de tráfego, a ciclovia pode ser unidirecional (quando apresenta sentido único de circulação) ou bidirecional (sentido duplo de circulação). A ciclofaixa é espaço delimitado na própria pista (junto com os demais veículos), calçada ou canteiro, exclusiva aos ciclistas. Pode ser implantada no mesmo nível da pista de rolamento (ou da calçada ou do canteiro). Da mesma forma que a ciclovia, a ciclofaixa pode ser uni ou bidirecional.

A ciclorrota é um espaço compartilhado: calçada, canteiro, ilha, passarela, passagem subterrânea, via de pedestres, faixa ou pista, sinalizadas, em que a circulação de bicicletas é compartilhada com pedestres ou veículos, criando condições favoráveis para sua circulação. São vias sinalizadas que compõem o sistema ciclável da cidade interligando pontos de interesse, ciclovias e ciclofaixas, de forma a indicar o compartilhamento do espaço viário entre veículos motorizados e bicicletas, melhorando as condições de segurança na circulação.

Engarrafamentos não tem mais horário nem dia específico

NOTA DA PREFEITURA

A Prefeitura de Niterói foi questionada sobre os assuntos abordados nessa reportagem. A Coordenadoria Niterói de Bicicleta explicou que a requalificação e implantação da malha cicloviária em Piratininga vai permitir o acesso e circulação seguros de bicicleta ao bairro. É uma intervenção que está alinhada com a Política Nacional de Mobilidade Urbana, o Plano Diretor do município e também o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável, que está em fase final de elaboração.

O projeto da Avenida Almirante Tamandaré transforma a ciclofaixa existente na via em uma ciclovia segregada e segura que atenderá a todos os perfis de usuários. O número de faixas de circulação da via foi mantido e o estacionamento será regulamentado ao longo de todo o trecho. Será implantada ainda uma faixa de pedestres para servir aos usuários dos pontos de ônibus junto à entrada de Camboinhas, e criado um recuo para a parada desses coletivos no local. Durante o verão, período de fluxo intenso no local e de maior preocupação por parte dos moradores, será realizada ação com operadores de trânsito da Niterói Transporte e Trânsito (NitTrans) para auxílio na fluidez do trânsito na rótula de Camboinhas.

Ainda de acordo com nota os transtornos causados pela obra serão breves, com entrega da fase bruta nas próximas semanas. Neste período, a operação de tráfego foi reforçada pela NitTrans no local com operadores de trânsito em auxílio à fluidez do trânsito no local.

Em relação à ciclovia na orla, serão mantidas 76% das vagas disponíveis, o que representa um total de 589 vagas. Vale ressaltar que as vagas de estacionamento nas vias transversais à orla serão ordenadas, demarcadas e haverá fiscalização intensificada nos períodos de maior demanda como o verão, quando a Prefeitura de Niterói já realiza a Operação Verão.

NOTA ANTIGA

Em agosto deste ano, a administração municipal tinha explicado que o processo de mudança no bairro teria um novo traçado onde os ciclistas passariam a contornar as áreas das seis praças ao longo do calçadão. A nota explicou que o projeto da ciclovia da orla de Piratininga faz parte do Programa Região Oceânica Sustentável (PRO Sustentável) e integra o Sistema Cicloviário da Região Oceânica. Nessa primeira etapa, a iniciativa contemplará um total de 21,75 Km, sendo 14 Km de novas rotas cicláveis e 7,75 Km de requalificação das rotas já existentes. Após a conclusão das intervenções, será possível usar a bicicleta para fazer o percurso entre a Região Oceânica e o Centro de Niterói. No total, serão 165 novas travessias e 325 novas rampas, somente neste primeiro lote da obra, sendo 76 rampas e 21 travessias ao longo da orla de Piratininga.

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