Pediatra agredida tem apoio das entidades médicas

Raquel Morais –

Hoje (17), às 18h30min, está marcada uma reunião no Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) para definir os novos rumos da investigação sobre o caso de agressão à pediatra Lyse Soares, de 34 anos. A médica foi agredida no dia 2 de abril enquanto trabalhava no Hospital Icaraí, no Centro de Niterói. O caso ganhou notoriedade após veiculação do vídeo que mostra um casal batendo na doutora no corredor da unidade de saúde. O homem envolvido, o advogado Paulo Ricardo Rodrigues, foi afastado do seu cargo no escritório Siqueira Castro Advogados e o caso foi registrado na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Niterói. Entidades ligadas à saúde prestaram apoio à niteroiense e aguardam a conclusão do inquérito.

O advogado da médica, Augusto Coelho Cardoso, explicou que o caso foi registrado como lesão corporal e a reunião de hoje será para o Cremerj definir se vai tomar parte desse caso oficialmente, junto com a polícia e o setor jurídico do conselho.

Pais de uma criança de três anos, o advogado Paulo e Natália Jesus da Silva estiveram duas vezes no hospital porque o filho estava com febre. Na noite do dia 1º de abril, Lyse pediu medicação injetável na criança, já que os pais informaram que o menino não conseguia tomar remédio via oral. Ele foi medicado e a família foi embora do hospital. Mas por volta das 2 horas da manhã do dia 2 de abril eles voltaram com o menino, que estava novamente com febre. Uma médica atendeu a família que, segundo Lyse, estava nervosa, e passou mais uma vez remédio para conter a febre.

“Ele tomou o remédio pela boca e a mãe ficou muito nervosa pois ele cuspiu um pouco. Ela exigiu que fosse aplicada outra injeção e eu fui ajudar a outra médica e expliquei para a Nathália que outra injeção não era recomendada, pois tinha pouco tempo que ele havia sido medicado. Ela exigiu exames e queria que o filho ficasse internado e eu não tinha justificativa para internar uma criança com estado bom de saúde e sem nenhuma alteração nos exames. Levantei e fui fazer uma compressa para diminuir a temperatura da criança quando a mulher me bateu no corredor”, lembrou Lyse.

1 - Arquivo pessoal (1)

A médica contou que só lembra de ter levado um tapa no rosto e quando acordou estava em um corredor sendo socorrida pelos funcionários do hospital. O resultado da agressão foram hematomas no couro cabeludo, boca, nariz inchado e em volta do olho ficou roxo, além de uma lesão cervical e outra no ombro.

“Não consegui voltar a trabalhar e a emergência se tornou um pesadelo. Já trabalhava com consultório médico e agora tenho medo de andar rua. Nunca pensei em passar por uma situação dessa. Quando vi o vídeo eu fiquei apavorada”, frisou.

Afastamento – O escritório onde o pai da criança trabalha divulgou uma nota dizendo que abriu uma sindicância interna para apurar os fatos e que enquanto isso o advogado ficará afastado.

“A Siqueira Castro Advogados tomou conhecimento do fato ocorrido em decorrência de atendimento médico hospitalar prestado a um familiar de advogado que integra o quadro social do escritório. A esse respeito, de acordo com o regramento interno de nossa instituição, informamos que foi prontamente instaurado pelo nosso Comitê de Compliance procedimento próprio para apuração dos fatos e consequente adoção de medidas cabíveis. Em prol do bom andamento dos trabalhos de apuração em curso, o advogado envolvido no episódio em questão encontra-se afastado de suas atividades cotidianas até a conclusão final da análise dos fatos e respectiva deliberação institucional do escritório”.

O Sindicato dos Médicos de Niterói, São Gonçalo e Região (Sinmed) repudiou a agressão sofrida pela médica durante seu plantão e manifestou solidariedade “à colega pediatra, colocando o Departamento Jurídico à sua disposição para processar seus covardes agressores. Mais uma vez o empregador (hospital) nada faz em defesa de seus empregados, nem mesmo praticando uma segurança preventiva. Nossa entidade de classe não pode se calar quando médicos são agredidos trabalhando dentro das dependências hospitalares e demais unidades de Saúde”, disse em comunicado.

Já o Hospital Icaraí afirmou se tratar de um fato isolado, que jamais havia ocorrido nas dependências da unidade, e também repudia toda e qualquer forma de violência, especialmente contra profissionais da saúde, no exercício de seu ofício. “Diante dos fatos, o supervisor administrativo de plantão, Anderson Bolzan, contatou imediatamente a polícia por meio do número 190 e, posteriormente, acompanhou a médica Lyse Soares, juntamente com enfermeira e recepcionista que testemunharam os fatos, até a 76ª DP”.

Outros casos – Dados do 38º Congresso Brasileiro de Pediatria, que aconteceu ano passado, apontam que dois em cada dez pediatras confirmaram sofrer com violência no trabalho.

“É preciso que o médico faça uma ocorrência das agressões sofridas para que o enfrentamento seja efetivo na mudança dessa realidade. Houve uma conscientização e um maior movimento nesse sentido, tanto por parte do Legislativo, com a proposição de leis em tramitação no Congresso com maior penalização àquele que agredir o médico ou profissional da saúde durante a sua atividade, quanto da mobilização dos Conselhos Regionais de Medicina, que encamparam ações de sensibilização da população”, enfatizou Mário Hirschheimer, presidente do Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

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