Parte da Praça Rádio Amador desmorona

Andar no calçadão de São Francisco, dar uma voltinha na Praça do Rádio Amador e continuar o passeio até Charitas pode não ser mais tão prazeroso como sempre foi. Parte da praça desmoronou e novos deslizamentos podem acontecer, já que o chão está cedendo com o passar dos dias. Enquanto o conserto não é realizado, o acesso que deveria estar proibido é facilmente utilizado por pessoas que não temem novos acidentes.

A Praça do Rádio Amador é alvo constante de reclamações dos frequentadores. Os eventos que acontecem lá acabam danificando o local, com caminhões e guindastes pesados.

“Para colocar tendas e outras armações eles furam o chão, quebram as pedras portuguesas e depois, no desmonte, não existe conserto imediato. Eu acho que a praça está um pouco descuidada. É um lugar lindo, com uma paisagem maravilhosa e que não tem a atenção devida. Acho que deveriam dar mais suporte nessa praça até para justificar o valor altíssimo que pagamentos no IPTU do bairro”, contou a nutricionista Elaine Chaves, 43 anos, moradora de São Francisco.

Elaine Chaves mora perto da praça e chama atenção para o descaso do espaço. Foto de Raquel Morais

A diretora do Centro Comunitário de São Francisco, Marinice Machado, pontuou que acha a situação um absurdo.

“Só comprova um descaso por parte da Prefeitura com o nosso bairro. Está cada dia piorando essa questão de obras de manutenção por aqui. Analisando a questão desse ponto de vista, me parece que não houve por parte da Seconser um cuidado com avaliação do peso nesse local de aterramento. Essa região era mar, a praça é sobre o aterro. Deveriam ter tido um cuidado maior”, comentou.

A também administradora da página do Movimento SOS São Francisco lembrou que esses eventos eram realizados no Campo de São Bento ou na Praia de Icaraí. “Devido a pressão popular foram empurrados pra cá. O que ocasiona diversos transtornos como engarrafamentos e muita sujeira e lixo espalhados, atingindo os bairros de São Francisco e Charitas. Como representante do Centro Comunitário de São Francisco e do Movimento SOS São Francisco, solicitamos que a Prefeitura olhe o nosso bairro com mais carinho, reconhecendo a importância dessa área tão bonita que precisa ser melhor cuidada e preservada pelo Prefeito Axel, que é morador antigo do bairro”, finalizou.

Mas tem quem concorde que o espaço está perigoso, mas não deixa de correr risco. É o caso do aposentado José Dutra, de 65 anos, que no momento da reportagem ignorou o cordão de isolamento e começou a pisar nos destroços que caíram do calçadão.

O pescador José Dutra se arrisca diariamente para pescar e não tem medo. Foto de Raquel Morais

“Eu acredito que de tanto a maré subir e bater nas pedras, o espaço cedeu e caiu. Acho que isso é comum em área litorânea. Eu pesco quase todo dia nesse mesmo local e não dá muito peixe não, mas eu consigo me distrair com o que eu gosto”, pontuou.

Arturo Mendes, bancário de 55 anos ironizou:

“No dia em que houver ressaca em São Francisco o mundo acabou. O mar aqui é liso, protegido. O meu vizinho Axel que é iatista sabe disso.”

A Prefeitura de Niterói informou que a Praça foi interditada e isolada pela Secretaria Municipal de Defesa Civil e Geotecnia por conta do rompimento de uma mureta responsável por conter parte do material de base do piso. O desmoronamento ocorreu por causa das ressacas. A Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (Seconser) informou que é necessário fazer uma contenção de encosta. Equipes da Secretaria vão começar a atuar nas próximas semanas. Além da contenção, será feito o aterramento. O local continua isolado por questões de segurança.

Erosão

Para Diego Ramos, doutor em Arquitetura e Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF, o direito de ir e vir da cidade é primordial e deve ser garantido sobretudo em ambiente público. “Um dos direitos primordiais é o direito de ir e vir com qualidade nos espaços públicos.

Toda orla de Charitas passa por um processo de abandono, ainda que seja uma das orlas mais fortalecidas e uma das vistas mais bonitas de Niterói. Calçadas e praças são problemáticas, pois Charitas acaba sendo cortada pelo interesse local que são os fluxos. Busca se conectar A com B, Região Oceânica com Centro da cidade, com o Rio e acontecem muitas vezes nesse caminho, investimento no setor de deslocamento de trânsito, mas sem trazer qualidade para o pedestre”, contextualizou.

O especialista ainda frisou que o processo de erosão nesse local ainda é maior que outros pontos na cidade.

“Essa praça, artificial, acaba ficando mais exposta, por ser uma área mais sobressaltada para o mar, fica mais exposta as condições climáticas como ventos, chuvas e a própria maré e os movimentos do mar. Acaba sofrendo um processo de erosão maior. As pedras são uma das formas de lidar com isso e elas diminuem o impacto da água direto na calçada. Existe a necessidade de reposicionamento e manutenção do posicionamento dessas pedras em relação à maré. E também é fundamental a contenção reforçada dessas encostas, de alguma forma chumbando elas, em um solo fixo para que elas tenham a batida do mar e ao mesmo tempo sofram menos. É necessário que tenha uma interdição e que ela dure o mínimo de tempo possível, que seja com urgência, para devolver a população o direito de ir e vir”, opinou Diego.

PROJETO ORLA

O espaço deverá passar por intervenções, parte do ‘Orla de Charitas’ anunciado em meados de 2021. O projeto será desenvolvido pelo arquiteto urbanístico Luiz Eduardo Índio da Costa, e vai executar alterações desde a Praça do Rádio Amador, em São Francisco, até o Clube Naval. De acordo com a proposta vencedora a orla deverá ser transformada em um grande parque linear que se estende por toda a praia, com linguagem urbanística atual que contempla um ajuste viário, fiação embutida, nova ciclovia, equipamentos esportivos e paisagismo. Os novos quiosques serão implantados por toda a extensão da orla, mantendo a mesma linguagem e equilíbrio ao longo de todo o trajeto. São quiosques circulares abertos, mas que podem ser completamente fechados à noite. Contam com coberturas curvas em fibra de vidro em formas orgânicas à semelhança de tensor, estruturas que remetem às velas náuticas.

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